"A Lenda de Salu-Kim"
Habi Mudi
“Há
muito, muito tempo, quando o universo ainda não tinha sugerido a pretensão nem
o desejo, Ariovaldo, o espaço, espreguiçou-se num banho de hidrogénio e inventou
os primários. Na sua poesia criativa dignificou os corpos compactos e compôs o
gélido e o ardente, desalinhando para sempre a biografia do mundo.”
in
A Lenda de Salu-Kim
Boa
noite, caríssimos presentes
O
meu nome é Habi Mudi e agradeço, antes de mais, o convite para estar aqui,
entendendo-o como um sinal de que, quanto mais confirmamos a infinitude
cósmica, menos receamos a distância e com mais naturalidade assumimos a incapacidade
de tudo compreender e julgar.
Os
avanços nas deslocações transfísicas dos últimos tempos permitiram-nos eliminar
o obstáculo do espaço. Agora cabe a cada um de nós, através dos novos patamares
filosóficos, como a recente e universal definição da Imortal Mortalidade, que
nos despertou para a viável intemporalidade da vida a prazo, alargar as fronteiras
do tempo.
Como
embaixador da galáxia Lohgit, aceitei honradamente este desafio, lançado pela
admirável organização Eixo Solto, não para criar pontes insensatas, não para
forçar acordos e parcerias irrelevantes e, sem dúvida (sejamos francos), também
não para estabelecer caminhos conjuntos baseados em valores universais.
As
três funções para as quais fui mandatado vão no sentido de partilhar um pouco
da nossa realidade, de reivindicar o direito à nossa singularidade e, no final
de tudo, de promover uma saudável cultura de incompatibilidades, onde as
diferenças civilizacionais de qualquer lugar e de qualquer tempo sejam pontos
de partida para a necessidade de reconhecer acriticamente tudo o que há de voluntário
no outro.
Se,
no final dos trabalhos, se concluir que apenas temos em comum o habitarmos o
mesmo universo, que nada, ainda assim, nos impeça de lutar pelo bem-estar de
todos, nunca tendo em conta aquilo que nos aproxima, mas no quanto há de
saudável naquilo que nos afasta.
Uma
vez que o programa destes encontros dá a cada embaixador 4 momentos de antena,
usarei este primeiro para vos contar uma lenda do planeta Rosalto, um dos mais
pequenos e periféricos de Lohgit.
Até há cerca de 10 milénios, Rosalto era habitado pelos Minil, que nos deixaram algumas histórias, entre as quais esta que vos resumirei hoje, A Lenda de Salu-Kim.
A
Lenda de Salu-Kim é uma trança de histórias que começa no início do universo e
termina com a morte de Salu-Kim, como se, legitimado pelo seu próprio nome (A
Lenda de Salu-Kim), o único propósito do todo fosse encaminhar-se para esta
tragédia.
Tem
como estrutura narrativa um diálogo permanente entre duas criaturas mitológicas
do Cinturão da Vírgula, um sistema planetário de Lohgit que integra, entre
outros corpos celestes, Rosalto. Desafiando qualquer paradoxo temporal, Ipa e
Nac, os narradores, são dois reflexos da mesma entidade, oriundos de épocas diferentes, que
revisitam fragmentos do nosso passado.
No
final da longa epopeia, Ipa e Nac conversam de lados diferentes de uma mesma
muralha e contam-nos a última história, a tragédia de Salu-Kim e Ma-Braf. É
essa que aqui vos trago, para fruição e reflexão.
Coberto
por uma monótona imensidão de areia negra, Rosalto foi, durante muitos
milénios, residência da vasta civilização Minil, dividida em duas fações
antagónicas. Os Minil eram um aglomerado de indivíduos de origens planetárias
distintas que, durante um certo período da nossa história, habitou o planeta.
Não sabemos quando, como, nem por que razão tão imensa comunidade se fixou em
tão árida localização, assim como não temos também qualquer informação que nos
permita compreender o seu efetivo desaparecimento.
É
tão nublada a sua passagem por Lohgit que, não fossem alguns (poucos)
vestígios, como este, A Lenda de Salu-Kim, não teríamos nunca sequer sabido da
sua existência.
Sobre
a história que aqui vos resumo, uma vez desaparecida a civilização Minil, nada
temos para confirmar a sua veracidade. Também lhe chamamos Lenda por isso.
Para
melhor compreensão das dimensões temporais, ainda que para facilitar use a vossa terminologia como referência, as medidas usadas serão sempre no tempo da própria narração. Tendo em conta que 1 ano em Rosalto corresponde aproximadamente a um período de 8 anos na Terra, toda a escala temporal deverá ser entendida de 1 para 8.
Quando
os Minil se instalaram em Rosalto, a comunidade era liderada, apesar dos
inúmeros reinos em que subdividia, pelo imperador que misteriosamente os trouxera até ali. A sua morte abrupta, porém, levaria a que os irmãos Dulk e Peng, os
gémeos herdeiros do trono, dividissem os Minil em duas fações.
Foram
ainda necessários doze sangrentos milénios para que as fronteiras entre
ambos se estabelecessem e a tranquilidade, finalmente, fosse oficializada.
A história de Salu-Kim passa-se apenas cinco séculos depois da assinatura das tréguas.
A paz precisava ainda de muito mais do que documentos assinados para se sentir.
Em
Rosalto, toda a paisagem é composta por dunas de areia negra, que, por ação de ventos constantes e imprevisíveis, se encontram em permanente
reconstrução e realinhamento. Porém, em 11 pontos específicos da sua
superfície, dunas de vastidão continental, chamadas DunasMar, mantêm-se misteriosamente
coesas, permitindo a fixação da única vida que o planeta ainda alberga.
Durante
a chamada Guerra dos Gémeos, em todas as DunasMar, reinos Minil de fações
rivais lutaram sangrentamente entre si. Quando a paz foi alcançada, 7 DunasMar
tinham sido conquistadas por Dulk e 4 por Peng.
Como
em todas as DunasMar tinha havido reinos a lutar por ambas as fações, nos termos da
declaração de paz ficou definido que todos os que tivessem lutado pelo
imperador derrotado em cada DunaMar, desde que prestassem vassalagem ao novo
soberano, não seriam expulsos, podendo permanecer, inalteradamente, nos seus
próprios domínios. Como não foi exigida aos derrotados qualquer indemnização,
nem lhes foi retirado território ou qualquer outro tipo de bens compensatórios,
parecia estarem reunidas as condições para uma paz efetiva. Acreditava-se que
os milénios de quotidiano bélico que a guerra tinha instituído seriam
empurrados para o esquecimento, sendo substituídos, gradualmente, por rotinas
de convívio.
A
história de Salu-Kim passa-se em Filgo, na DunaMar 6.
Conquistada
por Dulk, Filgo albergava 8 reinos. Destes, apenas 3 tinham lutado por Peng e,
talvez por estarem em minoria, a inquietação da sua derrota nunca efervesceu
nem escalou, pelo que a paz parecia ser uma realidade, apesar de tensa e
frágil, ainda fustigada por ódios ancestrais e vinganças por satisfazer.
É
nas muralhas de Aruccitana, a cidade central de Manijah, um dos reinos
vencedores de Filgo, que Ipa e Nac se posicionam.
Começa
então Ipa por contar que num extremo do lado de fora das muralhas, a princesa
Amora, do reino derrotado de Ambali, contacta os dois reinos vizinhos, também
descendentes de apoiantes fervorosos de Peng, porque descobre que no reino
rival mais próximo, em Manijah, em data já marcada, terá lugar a união entre os
dois únicos príncipes das suas duas únicas casas reais.
De
forma pertinente, Nac, que se encontra do lado de dentro da cidade fortificada
de Aruccitana, explica que o reino de Manijah é partilhado por duas casas
reais, preservando apenas o distrito central de Aruccitana como zona de governo
comum.
Adianta, então, que em data rigorosamente estabelecida, uma vez a cada cinco séculos é festejada a
união entre os novos príncipes. Chamam-lhe Festa da Primavera e é
tradicionalmente grande a animação.
A
regular união de novos monarcas era vital para a sobrevivência do povo de
Manijah, pois a fragilidade do sistema reprodutor dos seus habitantes
determinava grandemente toda a sua história, uma vez que ninguém era fértil, à
exceção dos monarcas e apenas durante o período (de meio milénio) em que se
encontravam no trono.
Eu
explico: o último dia da Festa da Primavera era quando os príncipes, herdeiros
das únicas duas casas reais do reino, se conheciam e eram coroados. A data era
meticulosamente determinada para coincidir com o início do período de
fertilidade dos novos monarcas, que se estendia, apenas e exatamente, por cinco
séculos. Como mais ninguém, em todo o reino, tinha capacidades reprodutoras,
cabia a estas cíclicas uniões reais a sobrevivência de Manijah, pelo que este
acontecimento era da maior importância.
Todos os habitantes do reino eram, portanto, descendentes diretos das duplas que iam ocupando o topo da pirâmide monárquica, a quem, durante os referidos quinhentos anos, era esperada a doação contínua de fluidos reprodutores.
Do
lado de fora, Ipa conta que Amora, a princesa, lembra aos seus aliados o
sistema reprodutor de Manijah, em que a sobrevivência do reino dependia
unicamente destas cíclicas uniões reais, além de sublinhar o facto de cada
manijense viver, no máximo, dois milénios.
“E
porque é que isso interessa?” pergunta retoricamente Amora.
“Porque
é o único tempo que teremos de esperar para ocupar o lugar vago pelos,
entretanto extintos, manijenses. Reparem, o que garante que continua sempre a haver
novos manijenses são os príncipes férteis. Certo? O que eu descobri é que os
príncipes férteis são sempre obrigatoriamente descendentes dos príncipes
férteis anteriores.”
Perante
a incompreensão dos seus ouvintes, Amora detalha:
“É
da união que vai ser concretizada daqui a dias em Aruccitana que será garantida
a continuidade dos manijenses. Se não se verificar, dali a cinco séculos ninguém
haverá para os render e, sucessivamente, dali a outros cinco séculos também ninguém gerará novos manijenses, quebrando-se a cadeia. Como cada manijense vive, no máximo, dois mil
anos, os últimos a nascer desaparecerão, no máximo, em dois milénios. Daqui a
menos disso, o reino de Manijah é nosso. Deixaremos, então, de estar nesta
minoria humilhante de 3 contra 5, mas orgulhosamente nivelados por 4 contra 4.”
Saltando
a narrativa para o interior das muralhas, Nac conta que a Festa da Primavera dura sempre 20 dias e começa justamente com a chegada da princesa a Aruccitana no primeiro dia, terminando com a chegada do
príncipe no último (neste caso, Salu-Kim e Ma-Braf, respetivamente).
Após
a faustosa receção inicial, em que desfilou pela cidade, Salu-Kim, a princesa,
reserva-se e passa a fazer apenas uma aparição diária no varandim do palácio
real, saindo ao exterior no momento em que o roxo do seu sol mais faz vibrar de
luminescência a negra areia de Rosalto, fazendo o planeta explodir de brilho
cristalino e sedutor.
Ativa
então a luz dos olhos e percorre, em feixe de abraço, os presentes,
oferecendo-lhes, mais que o calor, o prazer do calor com que os ilumina.
Depois, já com o elmo com as cores da sua casa real, abre as asas e eleva-se na praça num voo elegante, pasmando de graciosidade a
multidão. Regressa ao varandim e, enquanto os seus súbditos dispersam, fica,
sonhadora, a pensar no príncipe-marido que ainda não conhece (mas com quem
partilhará cinco séculos), no peso de ser responsável pela sobrevivência dos
seus, na iminência do momento para o qual sempre sentiu estar preparada e,
provavelmente também, nas possibilidades da sua ação como futura rainha. Já de
asas fechadas entra no palácio, até ao dia seguinte.
Conta,
agora Ipa, que os filhos gerados pela real combinação de fluidos são sempre
enviados para as duas casas reais e os sucessores dos monarcas são facilmente
identificados por serem os únicos em todo o reino de Manijah a nascer com asas,
sendo imediatamente retirados para zonas secretas dos seus próprios distritos.
Salu-Kim
não fora, portanto, criada nos mesmos moldes dos seus contemporâneos. Isolada
em instalações subterrâneas, a princesa cresceu numa pequena comunidade isolada
de Pensadores Elevacionistas. Com eles aprendeu a controlar os seus poderes,
abrindo a mente para a forma de melhor interagir com o mundo físico. Os seus
quatro lindos olhos desenvolveram luz própria desde muito cedo e, finalmente,
aperfeiçoou a arte de voar, controlando as asas com a naturalidade do pensamento.
De rosto alongado e pouco expressivo, Salu-Kim encantava pela ausência, alimentando, na naturalidade da partilha de si, uma saudável banalização, que os manijenses sentiam como um verdadeiro nós.
Nac, então, refere que os portões de Aruccitana estão sempre fechados. Os acessos são sempre condicionados, sendo que é só sob autorização exclusiva da rainha que alguém pode entrar ou sair da cidade. A rainha ainda no poder cessa as suas funções no primeiro dia da Festa da Primavera, quando permite a entrada da princesa.
É,
portanto, ainda no papel de princesa que a futura rainha começa a exercer a sua
autoridade junto aos portões de Arucitana, pois é ela que deverá permitir a
entrada do príncipe, no último dia da Festa, o dia em que se tornarão reis, já que durante os 20 dias da celebração, tradicionalmente, ninguém entra nem sai da cidade.
Salu-Kim
ansiava por esse momento, mas, inexplicavelmente, também o receava.
“Será a minha primeira ordem... é o medo do desconhecido.” - justificava-se.
Ipa
remete-nos, então, para o distrito Sul de Manijah, à casa real de Abussim, onde o príncipe
Ma-Braf ainda aguarda, pacientemente, o dia em que fará a viagem. Três dias o levará a percorrer a Estrada da Pedra Azul, a que termina exatamente nos portões de Aruccitana.
Confiante
e cada vez mais entusiasmado, o príncipe acordava para um dia cinzento, na
inesperada capa outonal que o tempo se encarregara de usar para fulminar a
força com que a primavera se acentuava e que, nesta parte inospitamente quente
de Filgo, até introduzia alguma frescura na equação, suavizando o tórrido calor
habitual com que o reino de Manijah costumava presentear os nativos.
As
paredes do seu quarto, no secreto abrigo onde fora criado e instruído para a
futura função de rei, decoradas com troféus de conquistas da sua linhagem, mais
pareciam confortos funerários que pouco entusiasmavam a sua personalidade
vibrante. Os tempos da Guerra dos Gémeos já lá iam e agora era necessário virar
a página e sair do medo.
Ma-Braf
sonhava com um reinado de diplomacia e intercâmbio, numa atitude de humildade e
reconhecimento da existência de alternativas, de melhores soluções, uma linha
de pensamento que pudesse contemplar a hipótese de contactar e ser contactado
por outras espécies Minil, residentes na sua ou em qualquer outra DunaMar.
Encontraria
certamente oposição, a começar pelos seus, onde a noção de orgulho ainda
significava nunca exibir sinais de fraqueza e onde no brasão real se podia ler
“Antes morto e só, que vivo e em dívida.”
Tinha
mesmo de começar por ali.
A
Estrada da Pedra Azul nascia no ponto mais a sul de Manijah e percorria todo o
distrito real da casa de Abussim, terminando em Aruccitana, a neutra capital do
reino. Tal como ditava a tradição, o príncipe Ma-Braf percorreu todo o distrito, mostrando-se ao seu povo antes de subir ao trono. As sucessivas
localidades por onde ia passando enchiam a Estrada de animação e música, o chão
era pintado e arcos de todas as cores abraçavam a comitiva real,
orgulhosamente. Ma-Braf sentia o apoio dos seus e sonhava com a
responsabilidade (que assumia sem receio) de poder fazer a diferença,
melhorando, não tanto as condições materiais da vida em Manijah, mas a perceção
geral do que significava, realmente, estar vivo.
O
serpenteante percurso da Estrada da Pedra Azul implicava que percorressem, não
só os locais animados, mas também e, principalmente, longas distâncias entre as
longínquas zonas habitadas, zonas de deserto negro, ladeadas, em muitos casos,
por dunas assustadoramente sombrias. Porém, a acompanhar Ma-Braf iam os
melhores guerreiros e protetores de Abussim, pelo que animais selvagens e
malfeitores de estrada não assustavam o príncipe.
É
justamente no último segmento do caminho, depois da última localidade e quando finalmente se veem já ao longe as altíssimas torres do castelo de Aruccitana, a pouco mais
de três horas de caminho, continua a contar-nos Ipa, que a princesa Amora espera calmamente
a chegada dos representantes da casa de Abussim, juntamente com um pequeno, mas
infalível exército, apoiado pelos outros dois reinos derrotados.
Trazem
consigo, estrategicamente, um pégunt, um habitante de uma espécie alada
residente na DunaMar 9, que servirá na perfeição para que, à distância, se
confunda com o príncipe Ma-Braf. Amora joga a seu favor com, não só com o facto
de Salu-Kim nunca ter visto o príncipe, como de a sua própria estirpe ter uma
estrutura física muito semelhante à dos habitantes de Abussim.
Avistar
as torres do castelo deixou a comitiva real mais descontraída, afinal o longo
percurso correra sem incidentes e rapidamente estaria concluído. O próprio
príncipe, sempre protegido no interior da carruagem real, saía agora ao
exterior para observar o aproximar do momento em que entraria pelos portões de
Aruccitana, cumprindo o seu destino. Havia alegria no ar e, para os protetores
de Ma-Braf, a honrosa sensação de dever cumprido.
O
reino de Ambali é dos poucos reinos Minil referidos mais do que uma vez n’A
Lenda de Salu-Kim. Percebemos, neste e noutros indícios, que será dos reinos
mais antigos e importantes desta sociedade heterogénea. Percebemos nós, que lhe acedemos, mas
também assim o entendeu Amora, a princesa, que tão ardilosamente conspirava contra Manijah.
A
carismática Amora, em constante atrito com a sua família real (que aceita os termos
da rendição e se prepara para viver em harmonia interna e externamente),
consegue identificar e mobilizar um grupo crescente de indignados, com os quais
vai minando e sabotando, discreta mas eficazmente, o maior número possível de
passos dados no sentido da aceitação da nova ordem.
A
sua motivação para o boicote ultrapassa até a rivalidade dos gémeos pois Amora
acredita, no que nos parece um delírio, ser descendente do imperador. A sua cor
esverdeada (semelhante à do imperador e divergente do azulado geral dos
habitantes de Ambali) e um episódio de amnésia da sua mãe durante o período em
que teria sido fecundada para o seu nascimento levam-na a crer ser descendente
direta do imperador. Ainda, sendo mais velha do que os gémeos, o trono deveria
ser seu.
No
entanto, com uma inteligência acima da média, Amora sabe esperar e sabe
duplicar-se no antagonismo.
Naquele
dia tão esperado, o seu pequeno exército de exímios guerrilheiros aguarda
pacientemente a passagem do príncipe Ma-Braf.
O
único local propício ao ataque é uma das últimas curvas do trajeto. Amora sabe
que a comitiva do príncipe já consegue, daquele local, avistar as muralhas de
Aruccitana e prevê (com sucesso) que a proximidade seja celebrada por todos.
Depois
daquele ponto, depois daquela curva mais escondida pela paisagem, nenhum outro
local oferecerá as condições para aplicar o plano desenhado por Amora e os seus
aliados. A partir dali, todo o caminho ficará visível a partir de Aruccitana.
Aproveitando
a distração e a descontração dos acompanhantes do príncipe, a comitiva é
atacada e, sem qualquer dificuldade, tomada pelos adversários. O príncipe
Ma-Braf cai fatalmente ferido no caminho, testemunhando ainda, nos seus últimos momentos de
vida, o fim dos seus companheiros.
Vestidos
com os trajes reais da casa de Abussim e o pégunt a tomar o local de Ma-Braf, a
nova comitiva avança depois da curva, iludindo à distância as sentinelas de
Aruccitana.
A
partir deste momento e até ao final, toda a Lenda passa a ser narrada por Nac,
numa ótica concentrada no interior das muralhas.
Desde
o primeiro dia, conta Nac, que os habitantes de Aruccitana celebram
efusivamente a Festa da Primavera. A chegada da princesa, no primeiro dia, e a
chegada do príncipe, no último, marcam o intervalo de tempo mais intenso de todo
o reino de Manijah, pois a continuidade vital do reino ficará assegurada, mas
não só.
Um
novo casal no trono implica quinhentos anos de novas políticas, com implicações
diretas na qualidade de vida de todos os habitantes do reino. Em Manijah não há
hierarquia entre rei e rainha, sendo tradicionalmente distribuído o poder entre
ambos. Tendo em conta que cada um dos monarcas é educado e treinado de forma
diferente, as linhas de condução de cada reinado costumam traduzir a filosofia
da casa real que cada um representa tradicionalmente, mas em combinação com as suas singulares personalidades.
Há,
portanto, algo de continuidade nas suas ações, mas também qualquer coisa de
inovador, pelo que o povo anseia por conhecer a dupla que determinará as suas
vidas durante tão longo período de tempo.
Quando,
no dia previsto, as sentinelas de Aruccitana anunciaram a proximidade da
comitiva do príncipe, houve brindes pelas ruas e o interior do palácio
matrimonial iluminou-se finalmente, ofuscando de brilho tudo ao seu redor.
Salu-Kim
foi avisada e começou logo a preparar-se para ser finalmente apresentada ao
futuro rei.
Um
misto de esperança e desejo inundava-lhe os pensamentos e a princesa sabia que
teria de, pela primeira vez, dirigir-se aos seus futuros súbditos, dando a
ordem de abrir os portões. Seria apenas uma delicadeza institucional, pois a
notícia da aproximação de Ma-Braf já contagiara de alegria toda a comunidade de
Aruccitana e os guardiões do portão já se preparavam para agir ao primeiro comando
da futura rainha.
O
receio e alguma premonição, porém, inquietavam Salu-Kim, apesar de saber que a
ordem de abrir os portões teria de ser dada. Isso se esperava dela como início
de um reinado onde o sonho e a realidade teriam, necessariamente, de se
confundir. Assim o desejava a princesa. Assim o desejavam todos.
Salu-Kim
veio ao varandim pela última vez, para confirmar, com os seus próprios olhos, o
rumor da chegada da comitiva da casa de Abussim.
“Abram-se
os portões. O príncipe chegou.”
Estas
palavras, ditas como a tradição impunha, soaram como vida aos guardiões e os
portões foram, imediatamente, abertos.
A
comitiva de mais de 100 elementos foi entrando em Aruccitana enquanto a princesa
regressava ao interior do quarto real, para um último momento de reflexão.
Então
os portões fecharam-se novamente. O exército de Aruccitana abandonava os seus postos
e misturava-se com a multidão, celebrando o momento.
Este
ambiente de festa e descontração inebriante foi o cenário ideal para que os
intrusos se revelassem, investindo bélica e eficazmente sobre a populaça que
os rodeava.
Apanhados
de surpresa, os habitantes de Aruccitana nada puderam fazer contra os bem
armados invasores e, aos poucos, foram tombando, pintando de sangue o chão onde, momentos antes, flores e cores fariam brilhar de alegria o
primeiro contacto do novo rei com o solo simbólico da cidade.
O
desespero dos gritos dos seus súbditos, confusos e desesperados, chegou, incontornavelmente, até Salu-Kim.
A
princesa, então, correu ao varandim e, sufocando de dor, compreendeu o erro do seu comando. Percebeu
que tinha sido enganada e que abrira as portas ao inimigo, expondo os seus a um
martírio aterrador e fulminante.
Constatando
que pouco poderia fazer para inverter a situação, Salu-Kim ordenou às suas aias
que saíssem e usassem os esconderijos secretos do palácio para se protegerem,
trancando as portas do quarto.
Enquanto
aos seus ouvidos continuavam a chegar vozes aflitas, na confirmação do fim
dramático dos seus, de si, mais do que tristeza e desilusão, a princesa
sentia-se num abismo, incapaz de refutar a sua responsabilidade pelo terror que permitira.
Assumindo
a incapacidade de reação, Salu-Kim, num gesto corajoso e exemplar, decide
não ceder à derrota e, simbolicamente, não permitir a entrada no seu próprio
quarto, ao contrário do que fizera com os portões da cidade.
Vazia de si, num derradeiro gesto de verdadeira eternidade, a princesa, de asas fechadas, lança-se então fatalmente sobre o
inimigo, com a chave do quarto na mão.
A sua morte, eternizada nesta lenda, ainda hoje é recordada por toda a nossa galáxia como um estímulo à reflexão sobre as nossas verdadeiras prioridades, na distinção entre causas circunstanciais, que não merecem o nosso tempo, e as outras, pelas quais vale a pena viver... e morrer.
Assim, ainda hoje, choramos Salu-Kim.

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