leitores

Imensidão


Imensidão 


Acordei tarde.

Durante a noite, uma daquelas insónias filhas-da-mãe venceu-me por completo, o que em mim até é bastante inusitado. Depois de revisitar todos os cantos da cama, depois de me reposicionar de todas as formas humanamente possíveis, levantei-me assumindo a derrota.

Fui comer. Descongelei um folhado de salsicha, que depois aqueci no forno. Servi-me de um copo de leite e fui, com este cardápio de emergência, saborear o ar quente que nestas noites de setembro ainda se faz sentir.

De cortina fechada, mas vidros abertos, encostei-me no sofá da sala e aí, sim, adormeci.

Acordei confuso. Não me apercebera da aproximação do sono, tampouco da prepotência do sonho, a modos que a realidade e a irrealidade do momento lutavam entre si por mim. O céu recuperava tonalidades de um quase-dia, enquanto uma estranha brisa adocicada empurrava todo o cenário para um delírio sensorial que me impedia de, com clareza, perceber se estaria realmente acordado.

Ouviam-se longínquos os primeiros barcos da manhã, os meus vizinhos a percorrer o corredor com os filhos, o indistinto e distante som de um avião, ou helicóptero, ou drone e, espantosamente, um qualquer tipo de grito de ave.

No 32º andar (onde moro), com exceção dos sons dos temporais, não se costuma ouvir nada que não seja produzido, direta ou indiretamente, por seres humanos, pelo que atribuí o som da ave a uma ilusão sónica, talvez provocada pelo vento, talvez porque, apesar de me encontrar já com um pé no meu desinteressante quotidiano, o outro insistia em manter-se ainda num universo atordoado.

Então escureceu de repente. Alguma (pouca) nebulosidade poderia ter explicado a mudança na tonalidade do momento, porém, um olhar mais concentrado permitiu-me, pelas sombras, perceber o movimento de um bater de asas, mas de dimensões colossalmente impossíveis. Circunspecto com o que acabara de presenciar, virei-me para a janela e, apesar das cortinas que me impediam uma visão nítida, consegui ver uma forma negra, sem contornos definidos, a passar calmamente no exterior.

Paralisei. Um misto de receio e aparvalhamento impediu-me de chegar perto da janela. Quando, minutos depois, me decidi pela satisfação da curiosidade, já nada nos céus marcava a presença do que quer que fosse além das nuvens.

 


Ao que parece, não fui o único presenteado com esta visão agigantada de uma ave, o que me alivia um bocadinho o espírito, mas adensa a perplexidade. Ou seja, não estarei louco, ainda que haja qualquer coisa de muito louco a voar por aí.

No mundo do jornalismo local não faltam testemunhas desta aparição, já conhecida por Big Bird. De acordo com alguns depoimentos, não é a primeira vez que tal criatura é vista, porém agora terá alargado os limites horários da sua visibilidade. Até aqui só havia registos noturnos, os quais, perante a quantidade de absurdos que são noticiados hoje em dia, nunca terão sido apreciados com muita seriedade. Desta vez, porém, além dos avistamentos noturnos, também houve (tal como eu) pessoas que a presenciaram durante a manhã.

Enquanto testemunha fui entrevistado pelos Filhos de Gaia (FG), que eu não conhecia. Esta organização foi fundada ainda no séc XX pela americana Casmim Wadlow, irmã de Robert Wadlow, considerado uma das pessoas mais altas do mundo, tendo, através de uma hipertrofia trágica que lhe provocou a morte aos 22 anos, atingido os 2,72 m.

Recusando-se a vê-lo apenas como uma vítima da sua própria (desregulada) biologia, a irmã de Robert preferiu aprofundar o lado mítico da sua altura e fundou esta associação com o objetivo de reunir a dispersa informação mundial sobre tudo o que estivesse relacionado com humanos ou humanoides de altura excessivamente anormal.

Fiquei completamente surpreendido com o tema e acabei por visitar a sede dos FG, tendo conhecido a coordenadora local, a simpática e vistosa Dra Janice, que me contou que o filho mais novo de uns vizinhos meus, também testemunha do Big Bird, crescera, desde o avistamento, uns espantosos 20 cm.

A minha entrevista, explicou-me então, foi justamente no sentido de perceber se o crescimento do meu vizinho seria um padrão nas testemunhas ou um caso isolado.

Lamentei quebrar-lhe o entusiasmo, mas eu, realmente, fiquei na mesma, nem mais nem menos um milímetro, pelo que, a ser um padrão, não seria totalmente abrangente.

 


Entretanto toda a imprensa nacional já pululava de narrativas relacionadas com o Big Bird, mas, e apesar das imensas reportagens e recolha de depoimentos cada vez mais detalhados e convincentes, nada de verdadeiramente imparcial e objetivo saía para o domínio público.

Também contagiado pela emoção geral, inscrevi-me nos FG e disponibilizei-me para dar algum apoio à Dra Janice, que acabou por me convidar (e que aceitei) a acompanhá-la numa viagem ao Parque Jungfrau, na Suíça.

O Parque Jungfrau, conhecido parque de diversões fundado em 2003, funciona em dois universos distintos: num são exibidos os atrativos turísticos mais vistosos, os que permitem, através da grande afluência do público, financiar todo o empreendimento; no outro, mais reservado e de temática menos consensual, há palestras, cursos de curta duração e exposições temáticas.

A Dra Janice já tinha visitado o parque aquando de uma exposição de ossos humanos exageradamente grandes, encontrados em Agathyr, na Roménia. Agora voltava lá para se encontrar com um parente do padre equatoriano Carlos Miguel Vaca Alvarado, um dos mais importantes colecionadores do séc XX de ossadas de gigantes.

Este padre, entusiasta da arqueologia, reuniu em vida ossos humanos com medidas fora do normal, descobertos, não só no Equador, mas em muitos outros locais do continente americano, com destaque para um esqueleto completo de sete metros de altura.

Fomos recebidos, entusiasticamente, pelo austríaco Klaus Dona (um especialista em artefactos divergentes), que também participou no encontro.

O interesse da Dra Janice nesta reunião prendia-se com o facto de alguns dos ossos da coleção de Carlos Alvarado terem sido submetidos a testes de confirmação pela equipa de Klaus Dona, concluindo-se que, de facto, se tratava de ossadas humanas, apesar de terem, em média, o triplo da dimensão de um humano contemporâneo.

Uma das bandeiras dos FG é a recuperação do gigante mitológico, não enquanto elemento fantasioso, mas real - essas criaturas enormes que, seja na forma de humano, animal ou híbrido, emergem nas narrativas ancestrais entre extremos antagónicos, que vão das presenças destrutivas às protetoras.

A Dra Janice, que se diz inspirada pelos estoicos e tem como tratado filosófico de referência as “Meditações” do imperador romano Marcus Aurelius, defende que não há qualquer tipo de incompatibilidade entre o caos e a sabedoria, sendo que ambos convivem como parte integrante das nossas vidas.

Os gigantes lembram-nos isso.

 


Antes mesmo de regressar a casa, não pudemos deixar de notar que nos noticiários suíços já se comentavam alguns registos de crescimento anormal em Portugal. Sob títulos como “Géants portugais”, o fenómeno parece ter contaminado o mundo. Passou, portanto, por terras lusitanas um Big Bird e quem o viu, de repente, desatou a crescer de forma absolutamente inconcebível e cientificamente inexplicável.

É claro que os sobrenaturalistas e os conspiradores profissionais aproveitaram a ocasião para dar asas à sua imaginação e as mais estapafúrdias explicações do fenómeno têm tido lugar de destaque entre as notícias do dia.

Quando voámos de volta para Portugal, não viemos parar ao aeroporto de Lisboa, mas ao do Porto, porque a Dra Janice queria muito ir a Viana do Castelo frequentar um seminário sobre a origem dos gigantones nas festas locais. A tese defendida apontava o final do séc XIX como o momento em que, diretamente de tradições galegas, estas representações de figuras humanas exageradamente altas (hoje populares também nos corsos carnavalescos um pouco por todo o país) terão começado a fazer parte do folclore nacional, nomeadamente na Romaria d’Agonia, em Viana.

“Diantino, faltava-me esta peça do puzzle”, justificou-se.

“São, então, originários da Galiza?”

“Não, foi por via galega que cá chegaram, mas há registos destes gigantes de cortejo desde a Idade Média, em países como Itália, Alemanha e França. Os mesmos países onde se vão encontrando, cada vez mais, provas da sua real existência.”

Tenho de referir que a Dra Janice é uma pessoa com uma energia contagiante. Sempre ativa, o seu entusiasmo por esta questão dos gigantes não deixa ninguém indiferente e eu, que nunca sequer tinha pensado no assunto, dava por mim a vibrar com o tema, devorando com sofreguidão toda a informação que me ia sendo disponibilizada, como se dela dependessem as batidas cardíacas desta minha vida pacata.

Ainda em Viana, onde ficámos 3 noites, comecei a sentir umas comichões estranhas no corpo e, de forma gradual, mas pouco significativa, a roupa começou-me a ficar apertada, o que eu atribuí ao facto de termos comido sempre de forma algo exagerada. Previ então que, voltando à minha dieta regular, este excesso de mim próprio deixaria de fazer parte da minha lista de preocupações.

 


Regressámos a casa. Desde que me reformei que vou ocupando a minha agenda como posso e, na maioria dos casos, como a paixão do momento me dita. Quando me aposentei, ainda temi que a gestão do tempo livre viesse a ser um problema, mas como também nunca senti nenhuma obrigatoriedade em preencher os dias, até por vezes acho que tenho demasiadas coisas em agenda.

Depois de dois dias de descanso das viagens financiadas pelos FG, voltei à carga. A Dra Janice convenceu-me a assumir uma parte dos trabalhos da associação, relacionada com a identificação do próprio Big Bird: saber, afinal, de que criatura falamos.

Em pouco tempo consegui reunir todas as descrições deixadas pelas testemunhas. Recorri a jornais, redes sociais e transcrevi todos os depoimentos com que me cruzei na televisão, mas também contactei diretamente alguns dos envolvidos. Apesar de alguns relatos mais fantasiosos, porque apavorados, consegui estabelecer um padrão credível quanto a certos aspetos da criatura avistada.

Marquei, então, uma entrevista com um técnico numa delegação do Instituto Europeu de Ornitologia que há aqui perto do meu bairro e, quando lhe expliquei ao que vinha e lhe fiz a descrição que entretanto conseguira fazer do Big Bird, encaminhou-me imediatamente para uma secção de paleontologia que o Instituto também tem.

De acordo com os especialistas, não fora o completo desenquadramento histórico, estaríamos a falar de um pterossauro. Todos os detalhes identificados pelas testemunhas, como as dimensões de aproximadamente 9 metros de envergadura e a mandíbula em forma de bico e cheia de dentes, nos remetem para esse réptil voador do Mesozoico, que terá desaparecido da face do planeta há cerca de 66 milhões de anos.

Apesar dos inúmeros testemunhos coincidentes, os técnicos do Instituto recusam a hipótese de ser mesmo um pterossauro, preferindo a tese da fraca visibilidade e de alguma histeria coletiva, que acaba sempre por condicionar a perceção da realidade.

Como eu não vi o Big Bird, mas apenas a sua sombra, não pude tomar partido. No entanto, tenho dificuldade em achar que tanta gente possa estar equivocada, além do que até me encanta a ideia de que, por algum romantismo inexplicável, um animal pré-histórico, de repente, ande a voar por aí.

Continuo a crescer, pouco, mas... sim.

 


Ontem telefonei à Dra Janice para lhe reportar a minha atividade relativa ao Big Bird e ela, no seu tom ponderado e assertivo, aconselhou-me a divulgar todas as minhas conclusões na imprensa, preferencialmente no maior número possível de órgãos de comunicação social, tendo-me até facultado alguns contactos de diretores de jornais e noticiários, potencialmente interessados.

Perguntei-lhe se não preferia, antes, rever comigo tudo o que recolhera.

“Não, quanto mais tempo durar o secretismo, mais a sua vida pode correr perigo.”

Confesso que fiquei surpreendido com esta reviravolta no ambiente tranquilo que sempre senti na sua presença. Pedi-lhe, obviamente, que me explicasse o que queria dizer com a palavra “perigo”.

Falou-me então de um amigo seu, o investigador americano Richard J Dewhurst, autor da obra não traduzida “The ancient giants who ruled America: The missing skeletons and the great Smithsonian cover-up”. Nesta obra, resultado de anos de pesquisas secretas, Richard denuncia 150 anos de sistemática ocultação e destruição de todos os vestígios de pessoas com mais de 3 metros de altura, por parte do instituto Smithsonian.

Segundo ela, entre os pensadores evolucionistas há duas fações principais, a sequencial e a divergente. Na primeira, todas as provas encontradas têm de encaixar na tese que desenha linhas diretas desde as primeiras células planetárias até à complexidade da vida contemporânea. Na divergente, reconhecem-se outras interferências que, resumidamente, terão contribuído para a vida atual, alterando as nossas biologias e deixando marcas nos diferentes ADNs do presente. Nessas diferentes interferências encontram-se 2 contra-vozes específicas: os ativistas da ancestralidade extraterrestre; e o movimento que reivindica a fusão de espécies como fator determinante da evolução, salientando, precisamente, um subgrupo defensor da existência de microcosmos transtemporais, cujas brechas nos permitirão ocasionalmente conviver e fundir espécies com, por exemplo, animais supostamente extintos e, precisamente, gigantes.

De acordo com a Dra Janice, o poderoso e fundamentalista Smithsonian terá sido fundado para, por quaisquer meios, defender as teses sequenciais, eliminando todos os contraditórios, sejam provas, sejam os seus defensores. Por isso o seu amigo Richard vive atualmente em parte incerta, secreta e, pela mesma razão de segurança, eu devo lançar no domínio público tudo o que já compreendi dos factos.

Enfim, algum exagero da sua parte, me pareceu; o que é certo é que o enredar da história quase me fez esquecer a razão de ter preferido não falar com ela presencialmente. O meu rosto não cabe no espelho da casa de banho e ontem bati com a cabeça no vão superior da porta. Inédito.

Encontro-me dividido entre a constatação de que me sinto muitíssimo bem, revitalizado até, e um certo receio perplexo por não perceber muito bem o que me está a acontecer comigo.

 


Boa noite

Antes de mais, agradeço aos FG a homenagem à minha mãe, agora, aquando do centenário do seu nascimento. Como já aqui foi referido, esta organização, fundada nos EUA, mas descentralizada um pouco por todo o mundo, encontrou em Janice Oliveira uma das suas mais entusiastas coordenadoras de sede. Aproveitando a circunstância de ter sido Portugal o país escolhido para a aparição do, assim conhecido, Big Bird, a minha mãe assumiu a causa de remover todo o ruído informativo gerado à volta de tão incompreensível acontecimento, tarefa que a levaria a viajar um pouco por todo o mundo.

A quantidade incontável de relatórios que elaborou foi essencial para levar, esta exposição assim o atesta, à formulação das mais lúcidas, porque neles fundamentadas, teses de explicação do fenómeno e que apontaram para a inequívoca identificação de um pterossauro (com os cientistas a jubilar ao confirmar e/ou descobrir os seus reais movimentos, dimensões, cores e sons) e outras, menos consensuais, de ligações compreensivelmente mitológicas.

Foi-me sugerido, pelos FG, que, para evitar repetições temáticas, concentrasse estas minhas palavras na versão mais íntima de Janice Oliveira, lembrando-a como mãe, como sonhadora e como mulher.

Falar dela seria, obrigatoriamente, falar do derradeiro amor da sua vida. Como um círculo que tem necessariamente de se completar, fechando-se, os gigantes que sempre perseguiu em mitos e conspirações, por incompreensão da lógica do mundo, personalizaram-se num gigante real, de nome Diantino, por quem se apaixonou e com quem viveu um dos romances mais intensos e inauditos de toda a literatura especializada.

Porém, sou socióloga e não romancista, não sei falar das emoções com a mestria dos poetas. Não preparei, portanto, histórias sobre a sua vida, mas, fazendo justiça à sua causa, elaborei um humilde resumo do que aconteceu, tentando que a minha área de especialidade introduza ingredientes que possam dar ainda mais valor ao extraordinário momento que ela viveu, que eles viveram, que todos vivemos.

Porque espetadora privilegiada da principal investigadora, sublinho que Janice Oliveira era uma mulher expansiva, que partilhava com quem estivesse por perto a evolução do seu trabalho apaixonado nos FG, contagiando interesses e vontades.

 


Desde cedo se percebeu que as 48 pessoas de várias partes do país que, no total, presenciaram os 6 voos daquela ave misteriosa sentiram alterações no seu crescimento físico, ainda que a ritmos diferentes: as que a viram com os seus próprios olhos começaram a crescer de imediato, as que apenas se cruzaram com a sua sombra ou apenas ouviram o som que produziu (o caso do Diantino), só mais tarde sentiram os efeitos e de forma mais lenta.

Na perspetiva social, houve alguns momentos que reportarei brevemente.

No primeiro, toda a opinião pública parecia unânime na solidariedade e consternação quanto aos efeitos na estrutura física dos afetados, com equipas a dedicarem-se ao estudo dos sintomas, semelhantes em todos os casos. Os pacientes foram vistos como infelizes que tiveram o azar de estar na hora e no local errados, o que podia ter acontecido a qualquer um. Esta humanização e identificação geral levou a ações mais práticas, como uma grande coleta monetária realizada, não só para apoiar as vítimas, mas também, não menos importante, para tentar, de forma lúcida e racional, esclarecer os meandros do acontecimento, numa tentativa de evitar o ruído conspirador que já se conseguia prever.

Grupos associados de voluntários, com destaque para biólogos, médicos e até historiadores, incluíram nas suas equipas intervenientes pontuais, ativistas interessados, pessoas cuja presença no processo não tinha nada a ver com a sua carreira académica (como a minha mãe, que era professora de português), mas que contribuíram, porque no terreno, para o incontornável e essencial cruzamento de dados.

Foi logo nesta fase inicial que a minha mãe conheceu o Diantino, uma das testemunhas do voo do pterossauro, que não lhe era, de todo, indiferente. Um tremelique na sua voz sempre que me falava dele informava-me de algo mais do que apenas amizade. Acabei por ser eu a sugerir-lhe que o convidasse, já que ele era reformado (e tinha muito tempo livre), para a acompanhar nalgumas das suas viagens de estudo.

Se o seu interesse pelo fenómeno já era intenso, ter-se apercebido de que a sua nova paixão pelo Diantino se equivaleria à sua já longa paixão pelos gigantes, transformou-lhe o tema numa obsessão alucinada.

Nesse momento perdi a minha mãe.

Ganhámos todos, em seu lugar e até ao fim dos seus dias, uma investigadora ainda mais feroz, ainda mais empenhada, ainda mais convicta. A mitologia, afinal, estava do seu lado, não eram metáforas, eram descrições e, sem dúvida, eles voltavam agora, afirmando a ideia de que na História há sempre qualquer coisa de cíclico.

 


Num segundo momento, quando as testemunhas do Big Bird começaram a crescer visível e desproporcionadamente, a atenção mundial virou-se para elas de forma ainda mais incisiva.

Novas equipas médicas foram destacadas e os melhores especialistas ofereceram-se, então, para acompanhar tão singular fenómeno. Logo nos primeiros relatórios foi sublinhado o facto ainda mais espantoso de os seus corpos estarem, aparentemente, a acompanhar esse crescimento agigantado com uma inesperada naturalidade, como se todos ainda estivessem na adolescência e a sua biologia previsse tal alargamento desmesurado.

Como efeito social, a opinião pública começou, gradualmente, a deixar de apoiar as vítimas que, deixando afinal de ser vítimas (pois tudo parecia estar a acontecer-lhes sem dano aparente, pelo contrário, quaisquer enfermidades anteriores pareciam até estar a desaparecer) foram transferidas para o estatuto de privilegiados. Porquê eles e não nós?, parecia ser a dor-de-cotovelo mais incendiária.

Comentadores mais extremistas sublinharam, de forma maliciosa, o facto - para mim o mais curioso de todos - de estarmos perante corpos indestrutíveis.

Variadíssimos testes e situações demonstravam um vertiginoso processo de regeneração, até para quadros clínicos crónicos, agora em franca recuperação e até rejuvenescimento.

A situação mais extrema verificou-se, comentada mundialmente, quando um dos visados viu um dos seus pés ser decepado durante um violento acidente com uma motosserra. Horas depois, segundo os relatórios médicos, uma reação inusitada e completamente reptiliana lhe terá feito nascer no mesmo lugar um novo pé, que em poucos dias já ocupava, inteiro e saudável, o lugar do anterior.

Situações como esta também contribuíram para que dois outros tipos de atenção recaíssem sobre os Gigantes Portugueses, como começaram, gradual, mas definitivamente, a ser apelidados pela imprensa internacional.

A primeira, mais poética, tinha a ver com o mítico elixir da eterna juventude, pois se a degeneração celular é a principal causa do envelhecimento (e do facto de convivermos com uma vida a prazo) e esta se encontrava completamente erradicada nesta inesperada fórmula humana, o infinito existencial parecia finalmente ter uma expressão concreta e testemunhável.

A segunda, menos interessante, manifestou-se através de aliciamentos, essencialmente, militares. Quem não gostaria (ditadores, principalmente) de ter do seu lado soldados indestrutíveis?

 


Porém, o desinteresse demonstrado por estes gigantes em aderir a qualquer iniciativa social acabou, por fim, por gerar a pior campanha de difamação alguma vez promovida. Estaria em causa a segurança do mundo, teríamos de conviver com criaturas que não eram governáveis, nem se deixavam aliciar e isso sempre gerou grandes medos pois, como sabemos, as sociedades receiam tudo o que não controlam.

Apesar dos constantes ataques, até físicos, a estas enormes variações da vida humana, os visados pouco reagiam e, com a calma de quem já percebeu que deixou de ter pressa, olhavam para nós, os “normais", com um olhar entre a indiferença e o desalento.

De repente, sem que nada o previsse, todos os gigantes, todos sem exceção, impulsionados por um qualquer hipnotismo multicerebral, foram-se dirigindo, um após outro, ao centro do país, vindo a refugiar-se nas grutas de Santo António (em Alvados), que bloquearam por dentro, isolando-se, definitivamente, do mundo.

Outras tragédias e acontecimentos foram tendo lugar e a sociedade pareceu querer esquecer-se deste caso, afinal foram eles próprios que, levados sabe-se lá por que impulso, tomaram a decisão de se isolar; a noção de perigo, ainda latente, parecia agora de importância secundária. Até podiam já ter morrido, dizia-se.

Cinco anos após o seu isolamento, uma equipa especializada internacional consegue, então e com a máxima cautela, penetrar na gruta.

No seu interior, um inesperado e incompreensivelmente denso e espesso nevoeiro esperava estes aventureiros corajosos, mas, dos gigantes, apenas vestígios da sua presença. Dos seus magníficos corpos nem sinal.

Estudos da composição do nevoeiro revelaram elementos químicos, cujos paralelismos ao ADN destas singulares entidades suscitaram a mais louca, mas até agora irrefutada, teoria.

Desde o início que os médicos comentavam, estupefactos, que não se registavam novas adendas celulares aos seus corpos ou, pelo menos, não em consonância com as expansões que se iam registando, sendo que o mais alto atingiu uns espantosos 10 m de altura.

A tese defende que as suas células, não acompanhando em número o superlativo crescimento a que foram sujeitas, ter-se-ão esticado de tal forma que se rasgaram, desfazendo-se nos seus fragmentos mais microscópicos, gaseificando a sua noção de unidade, dispersando-se em nevoeiro.

O ar que se respirava lá dentro era afinal a derradeira partilha desse processo que, uma vez aberta a gruta ao exterior, se foi dispersando pela atmosfera.

Para além do claro alerta para a ilusão das certezas, que este episódio nos deixa, ficou-nos também, da pacífica passagem destes gigantes pelas nossas vidas, uma mensagem em forma de nuvem. Sonho com o dia em que sejamos sábios o suficiente para a conseguir interpretar.

Sublinho, para finalizar, que o ar que respiramos contém ainda, pelo exposto, vestígios de gigantes. Fragmentos de uma metáfora singular na História do mundo, que eu gosto de sentir como um alerta para a desintegração inerente a qualquer crescimento desmedido.

Inspiremos profundamente a sua herança.

 

Grata


-


Nenhum comentário:

Postar um comentário