Acordei
tarde.
Durante
a noite, uma daquelas insónias filhas-da-mãe venceu-me por completo, o que em
mim até é bastante inusitado. Depois de revisitar todos os cantos da cama,
depois de me reposicionar de todas as formas humanamente possíveis,
levantei-me assumindo a derrota.
Fui
comer. Descongelei um folhado de salsicha, que depois aqueci no forno. Servi-me
de um copo de leite e fui, com este cardápio de emergência, saborear o ar
quente que nestas noites de setembro ainda se faz sentir.
De cortina fechada, mas vidros abertos, encostei-me no sofá da sala e aí, sim, adormeci.
Acordei
confuso. Não me apercebera da aproximação do sono, tampouco da prepotência do
sonho, a modos que a realidade e a irrealidade do momento lutavam entre si por
mim. O céu recuperava tonalidades de um quase-dia, enquanto uma estranha brisa
adocicada empurrava todo o cenário para um delírio sensorial que me impedia de,
com clareza, perceber se estaria realmente acordado.
Ouviam-se longínquos os primeiros barcos da manhã, os meus vizinhos a percorrer o corredor com os
filhos, o indistinto e distante som de um avião, ou helicóptero, ou drone e,
espantosamente, um qualquer tipo de grito de ave.
No
32º andar (onde moro), com exceção dos sons dos temporais, não se costuma ouvir nada que não seja produzido, direta
ou indiretamente, por seres humanos, pelo que atribuí o som da ave a uma ilusão
sónica, talvez provocada pelo vento, talvez porque, apesar de me encontrar já com
um pé no meu desinteressante quotidiano, o outro insistia em manter-se ainda num universo atordoado.
Então
escureceu de repente. Alguma (pouca) nebulosidade poderia ter explicado a
mudança na tonalidade do momento, porém, um olhar mais concentrado permitiu-me,
pelas sombras, perceber o movimento de um bater de asas,
mas de dimensões colossalmente impossíveis. Circunspecto com o que acabara de
presenciar, virei-me para a janela e, apesar das cortinas que me impediam uma visão nítida, consegui
ver uma forma negra, sem contornos definidos, a passar calmamente no
exterior.
Paralisei.
Um misto de receio e aparvalhamento impediu-me de chegar perto da janela.
Quando, minutos depois, me decidi pela satisfação da curiosidade, já nada nos
céus marcava a presença do que quer que fosse além das nuvens.
Ao
que parece, não fui o único presenteado com esta visão agigantada de uma ave, o
que me alivia um bocadinho o espírito, mas adensa a perplexidade. Ou seja, não
estarei louco, ainda que haja qualquer coisa de muito louco a voar por aí.
No
mundo do jornalismo local não faltam testemunhas desta aparição, já conhecida por Big Bird. De acordo com
alguns depoimentos, não é a primeira vez que tal criatura é vista, porém agora
terá alargado os limites horários da sua visibilidade. Até aqui só havia
registos noturnos, os quais, perante a quantidade de absurdos que são
noticiados hoje em dia, nunca terão sido apreciados com muita seriedade. Desta
vez, porém, além dos avistamentos noturnos, também houve (tal como eu) pessoas
que a presenciaram durante a manhã.
Enquanto testemunha fui entrevistado pelos Filhos de Gaia (FG), que eu não conhecia. Esta
organização foi fundada ainda no séc XX pela americana Casmim Wadlow, irmã de
Robert Wadlow, considerado uma das pessoas mais altas do mundo, tendo, através
de uma hipertrofia trágica que lhe provocou a morte aos 22 anos, atingido os
2,72 m.
Recusando-se
a vê-lo apenas como uma vítima da sua própria (desregulada) biologia, a irmã de
Robert preferiu aprofundar o lado mítico da sua altura e fundou esta associação
com o objetivo de reunir a dispersa informação mundial sobre tudo o que
estivesse relacionado com humanos ou humanoides de altura excessivamente
anormal.
Fiquei completamente surpreendido com o tema e acabei por visitar a sede dos FG, tendo conhecido a coordenadora local, a simpática e vistosa Dra Janice, que me contou que o filho mais novo de uns vizinhos meus, também testemunha do Big Bird, crescera, desde o avistamento, uns espantosos 20 cm.
A minha entrevista, explicou-me então, foi justamente no sentido de perceber se o crescimento do meu vizinho seria um padrão
nas testemunhas ou um caso isolado.
Lamentei
quebrar-lhe o entusiasmo, mas eu, realmente, fiquei na mesma, nem mais nem
menos um milímetro, pelo que, a ser um padrão, não seria totalmente abrangente.
Entretanto toda a imprensa nacional já pululava de narrativas relacionadas com o Big
Bird, mas, e apesar das imensas reportagens e recolha de depoimentos cada vez
mais detalhados e convincentes, nada de verdadeiramente imparcial e objetivo
saía para o domínio público.
Também
contagiado pela emoção geral, inscrevi-me nos FG e disponibilizei-me para dar
algum apoio à Dra Janice, que acabou por me convidar (e que aceitei) a
acompanhá-la numa viagem ao Parque Jungfrau, na Suíça.
O
Parque Jungfrau, conhecido parque de diversões fundado em 2003, funciona em
dois universos distintos: num são exibidos os atrativos turísticos mais
vistosos, os que permitem, através da grande afluência do público, financiar
todo o empreendimento; no outro, mais reservado e de temática menos consensual,
há palestras, cursos de curta duração e exposições temáticas.
A
Dra Janice já tinha visitado o parque aquando de uma exposição de ossos humanos
exageradamente grandes, encontrados em Agathyr, na Roménia. Agora voltava lá
para se encontrar com um parente do padre equatoriano Carlos Miguel Vaca
Alvarado, um dos mais importantes colecionadores do séc XX de ossadas de
gigantes.
Este
padre, entusiasta da arqueologia, reuniu em vida ossos humanos com medidas fora
do normal, descobertos, não só no Equador, mas em muitos outros locais do
continente americano, com destaque para um esqueleto completo de sete metros de
altura.
Fomos
recebidos, entusiasticamente, pelo austríaco Klaus Dona (um especialista em artefactos divergentes), que também participou no encontro.
O
interesse da Dra Janice nesta reunião prendia-se com o facto de alguns dos
ossos da coleção de Carlos Alvarado terem sido submetidos a testes de
confirmação pela equipa de Klaus Dona, concluindo-se que, de facto, se tratava de ossadas humanas,
apesar de terem, em média, o triplo da dimensão de um humano contemporâneo.
Uma
das bandeiras dos FG é a recuperação do gigante mitológico, não enquanto elemento
fantasioso, mas real - essas criaturas enormes que, seja na forma de
humano, animal ou híbrido, emergem nas
narrativas ancestrais entre extremos antagónicos, que vão das presenças destrutivas às protetoras.
A
Dra Janice, que se diz inspirada pelos estoicos e tem como tratado filosófico
de referência as “Meditações” do imperador romano Marcus Aurelius, defende que
não há qualquer tipo de incompatibilidade entre o caos e a sabedoria, sendo que
ambos convivem como parte integrante das nossas vidas.
Os
gigantes lembram-nos isso.
Antes
mesmo de regressar a casa, não pudemos deixar de notar que nos noticiários
suíços já se comentavam alguns registos de crescimento anormal em Portugal. Sob
títulos como “Géants portugais”, o fenómeno
parece ter contaminado o mundo. Passou, portanto, por terras lusitanas um Big Bird e quem o
viu, de repente, desatou a crescer de forma absolutamente inconcebível e
cientificamente inexplicável.
É
claro que os sobrenaturalistas e os conspiradores profissionais aproveitaram a ocasião
para dar asas à sua imaginação e as mais estapafúrdias explicações do fenómeno
têm tido lugar de destaque entre as notícias do dia.
Quando
voámos de volta para Portugal, não viemos parar ao aeroporto de Lisboa, mas ao
do Porto, porque a Dra Janice queria muito ir a Viana do Castelo
frequentar um seminário sobre a origem dos gigantones nas festas locais. A tese
defendida apontava o final do séc XIX como o momento em que, diretamente de tradições galegas, estas
representações de figuras humanas exageradamente altas (hoje populares também nos
corsos carnavalescos um pouco por todo o país) terão começado a fazer parte do
folclore nacional, nomeadamente na Romaria d’Agonia, em Viana.
“Diantino, faltava-me
esta peça do puzzle”, justificou-se.
“São, então, originários da Galiza?”
“Não,
foi por via galega que cá chegaram, mas há registos destes gigantes de cortejo
desde a Idade Média, em países como Itália, Alemanha e França. Os mesmos países
onde se vão encontrando, cada vez mais,
provas da sua real existência.”
Tenho
de referir que a Dra Janice é uma pessoa com uma energia contagiante. Sempre
ativa, o seu entusiasmo por esta questão dos gigantes não deixa ninguém
indiferente e eu, que nunca sequer tinha pensado no assunto, dava por mim a
vibrar com o tema, devorando com sofreguidão toda a informação que me ia sendo
disponibilizada, como se dela dependessem as batidas cardíacas desta minha vida
pacata.
Ainda
em Viana, onde ficámos 3 noites, comecei a sentir umas comichões estranhas no
corpo e, de forma gradual, mas pouco significativa, a roupa começou-me a ficar
apertada, o que eu atribuí ao facto de termos comido
sempre de forma algo exagerada. Previ então que, voltando à minha dieta
regular, este excesso de mim próprio deixaria de fazer parte da minha lista de
preocupações.
Regressámos
a casa. Desde que me reformei que vou ocupando a minha agenda como posso e, na
maioria dos casos, como a paixão do momento me dita. Quando me aposentei, ainda
temi que a gestão do tempo livre viesse a ser um problema, mas como também
nunca senti nenhuma obrigatoriedade em preencher os dias, até por vezes acho
que tenho demasiadas coisas em agenda.
Depois
de dois dias de descanso das viagens financiadas pelos FG, voltei à carga. A
Dra Janice convenceu-me a assumir uma parte dos trabalhos da associação,
relacionada com a identificação do próprio Big Bird: saber, afinal, de
que criatura falamos.
Em
pouco tempo consegui reunir todas as descrições deixadas pelas testemunhas.
Recorri a jornais, redes sociais e transcrevi todos os depoimentos com que me
cruzei na televisão, mas também contactei diretamente alguns dos envolvidos.
Apesar de alguns relatos mais fantasiosos, porque apavorados, consegui
estabelecer um padrão credível quanto a certos aspetos da criatura avistada.
Marquei,
então, uma entrevista com um técnico numa delegação do Instituto Europeu de
Ornitologia que há aqui perto do meu bairro e, quando lhe expliquei ao que
vinha e lhe fiz a descrição que entretanto conseguira fazer do Big Bird,
encaminhou-me imediatamente para uma secção de paleontologia que o Instituto
também tem.
De
acordo com os especialistas, não fora o completo
desenquadramento histórico, estaríamos a falar de um pterossauro. Todos os
detalhes identificados pelas testemunhas, como as dimensões de aproximadamente
9 metros de envergadura e a mandíbula em forma de bico e cheia de dentes, nos
remetem para esse réptil voador do Mesozoico, que terá desaparecido da face do
planeta há cerca de 66 milhões de anos.
Apesar
dos inúmeros testemunhos coincidentes, os técnicos do Instituto recusam a
hipótese de ser mesmo um pterossauro, preferindo a tese da fraca visibilidade e
de alguma histeria coletiva, que acaba sempre por condicionar a perceção da
realidade.
Como
eu não vi o Big Bird, mas apenas a sua sombra, não pude tomar partido. No
entanto, tenho dificuldade em achar que tanta gente possa estar equivocada,
além do que até me encanta a ideia de que, por algum romantismo inexplicável,
um animal pré-histórico, de repente, ande a voar por aí.
Continuo a crescer, pouco, mas... sim.
Ontem
telefonei à Dra Janice para lhe reportar a minha atividade relativa ao Big Bird
e ela, no seu tom ponderado e assertivo, aconselhou-me a divulgar todas as
minhas conclusões na imprensa, preferencialmente no maior número possível de
órgãos de comunicação social, tendo-me até facultado alguns contactos de
diretores de jornais e noticiários, potencialmente interessados.
Perguntei-lhe
se não preferia, antes, rever comigo tudo o que recolhera.
“Não,
quanto mais tempo durar o secretismo, mais a sua vida pode correr perigo.”
Confesso
que fiquei surpreendido com esta reviravolta no ambiente tranquilo que sempre
senti na sua presença. Pedi-lhe, obviamente, que me explicasse o que queria
dizer com a palavra “perigo”.
Falou-me
então de um amigo seu, o investigador americano Richard J Dewhurst, autor da
obra não traduzida “The ancient giants who ruled America: The missing skeletons
and the great Smithsonian cover-up”. Nesta obra, resultado de anos de pesquisas
secretas, Richard denuncia 150 anos de sistemática ocultação e destruição de
todos os vestígios de pessoas com mais de 3 metros de altura, por parte do instituto Smithsonian.
Segundo ela, entre os pensadores evolucionistas há duas fações principais, a
sequencial e a divergente. Na primeira, todas as provas encontradas têm de
encaixar na tese que desenha linhas diretas desde as primeiras células
planetárias até à complexidade da vida contemporânea. Na divergente,
reconhecem-se outras interferências que, resumidamente, terão contribuído
para a vida atual, alterando as nossas biologias e deixando marcas nos diferentes ADNs do presente. Nessas diferentes interferências
encontram-se 2 contra-vozes específicas: os ativistas da ancestralidade extraterrestre; e o movimento que reivindica a fusão de espécies como fator determinante da evolução, salientando, precisamente, um subgrupo defensor da existência de microcosmos transtemporais, cujas brechas nos permitirão ocasionalmente conviver e fundir espécies com, por exemplo, animais supostamente extintos e, precisamente, gigantes.
De
acordo com a Dra Janice, o poderoso e fundamentalista Smithsonian terá sido fundado
para, por quaisquer meios, defender as teses sequenciais, eliminando todos os
contraditórios, sejam provas, sejam os seus defensores. Por isso o seu amigo
Richard vive atualmente em parte incerta, secreta e, pela mesma razão de
segurança, eu devo lançar no domínio público tudo o que já compreendi
dos factos.
Enfim, algum exagero da sua parte, me pareceu; o que é certo é que o enredar da história quase me fez esquecer a razão de ter preferido não falar com
ela presencialmente. O meu rosto não cabe no espelho da casa de banho e ontem
bati com a cabeça no vão superior da porta. Inédito.
Encontro-me
dividido entre a constatação de que me sinto muitíssimo bem, revitalizado até,
e um certo receio perplexo por não perceber muito bem o que me está a acontecer comigo.
Boa
noite
Antes
de mais, agradeço aos FG a homenagem à minha mãe, agora, aquando do
centenário do seu nascimento. Como já aqui foi referido, esta organização,
fundada nos EUA, mas descentralizada um pouco por todo o mundo, encontrou em
Janice Oliveira uma das suas mais entusiastas coordenadoras de sede. Aproveitando a
circunstância de ter sido Portugal o país escolhido para a aparição do, assim
conhecido, Big Bird, a minha mãe assumiu a causa de remover todo o ruído
informativo gerado à volta de tão incompreensível acontecimento, tarefa que a
levaria a viajar um pouco por todo o mundo.
A
quantidade incontável de relatórios que elaborou foi essencial para levar, esta exposição assim o atesta, à formulação das mais lúcidas, porque neles
fundamentadas, teses de explicação do fenómeno e que apontaram para a
inequívoca identificação de um pterossauro (com os cientistas a jubilar ao
confirmar e/ou descobrir os seus reais movimentos, dimensões, cores e sons) e
outras, menos consensuais, de ligações compreensivelmente mitológicas.
Foi-me
sugerido, pelos FG, que, para evitar repetições temáticas,
concentrasse estas minhas palavras na versão mais íntima de Janice Oliveira,
lembrando-a como mãe, como sonhadora e como mulher.
Falar
dela seria, obrigatoriamente, falar do derradeiro amor da sua vida. Como um
círculo que tem necessariamente de se completar, fechando-se, os gigantes que sempre perseguiu em mitos e conspirações, por incompreensão da lógica do
mundo, personalizaram-se num gigante real, de nome Diantino, por quem se
apaixonou e com quem viveu um dos romances mais intensos e inauditos de toda a
literatura especializada.
Porém,
sou socióloga e não romancista, não sei falar das emoções com a mestria dos
poetas. Não preparei, portanto, histórias sobre a sua vida, mas, fazendo
justiça à sua causa, elaborei um humilde resumo do que aconteceu, tentando que
a minha área de especialidade introduza ingredientes que possam dar ainda mais
valor ao extraordinário momento que ela viveu, que eles viveram, que todos
vivemos.
Porque
espetadora privilegiada da principal investigadora, sublinho que Janice Oliveira era uma mulher expansiva, que partilhava com quem estivesse por perto a evolução do seu trabalho
apaixonado nos FG, contagiando interesses e vontades.
Desde cedo se percebeu que as 48 pessoas de várias partes do país que, no total, presenciaram os 6 voos daquela ave misteriosa sentiram alterações no seu crescimento físico, ainda que a ritmos diferentes: as que a viram com os seus próprios olhos começaram a crescer de imediato, as que apenas se cruzaram com a sua sombra ou apenas ouviram o som que produziu (o caso do Diantino), só mais tarde sentiram os efeitos e de forma mais lenta.
Na
perspetiva social, houve alguns momentos que reportarei brevemente.
No
primeiro, toda a opinião pública parecia unânime na solidariedade e
consternação quanto aos efeitos na estrutura física dos afetados, com equipas a dedicarem-se ao estudo dos sintomas, semelhantes em todos os
casos. Os pacientes foram vistos como infelizes que tiveram o azar de estar na
hora e no local errados, o que podia ter acontecido a qualquer um. Esta
humanização e identificação geral levou a ações mais práticas, como uma grande
coleta monetária realizada, não só para apoiar as vítimas, mas também, não
menos importante, para tentar, de forma lúcida e racional, esclarecer os
meandros do acontecimento, numa tentativa de evitar o ruído conspirador que já
se conseguia prever.
Grupos associados de voluntários, com destaque para biólogos, médicos e até historiadores, incluíram nas
suas equipas intervenientes pontuais, ativistas interessados, pessoas cuja
presença no processo não tinha nada a ver com a sua carreira académica (como a
minha mãe, que era professora de português), mas que contribuíram, porque no terreno, para o incontornável e essencial cruzamento de dados.
Foi
logo nesta fase inicial que a minha mãe conheceu o Diantino, uma das
testemunhas do voo do pterossauro, que não lhe era, de todo, indiferente. Um
tremelique na sua voz sempre que me falava dele informava-me de algo mais do
que apenas amizade. Acabei por ser eu a sugerir-lhe que o convidasse, já que
ele era reformado (e tinha muito tempo livre), para a acompanhar nalgumas das
suas viagens de estudo.
Se
o seu interesse pelo fenómeno já era intenso, ter-se apercebido de que a sua
nova paixão pelo Diantino se equivaleria à sua já longa paixão pelos gigantes,
transformou-lhe o tema numa obsessão alucinada.
Nesse
momento perdi a minha mãe.
Ganhámos todos, em seu lugar e até ao fim dos seus dias, uma investigadora ainda mais feroz, ainda mais empenhada, ainda mais convicta.
A mitologia, afinal, estava do seu lado, não eram metáforas, eram descrições e,
sem dúvida, eles voltavam agora, afirmando a ideia de que na História há sempre qualquer coisa de cíclico.
Num
segundo momento, quando as testemunhas do Big Bird começaram a crescer visível
e desproporcionadamente, a atenção mundial virou-se para elas de forma ainda mais
incisiva.
Novas equipas
médicas foram destacadas e os melhores especialistas ofereceram-se, então, para
acompanhar tão singular fenómeno. Logo nos primeiros relatórios foi sublinhado
o facto ainda mais espantoso de os seus corpos estarem, aparentemente, a acompanhar esse
crescimento agigantado com uma inesperada naturalidade, como se todos ainda
estivessem na adolescência e a sua biologia previsse tal alargamento
desmesurado.
Como
efeito social, a opinião pública começou, gradualmente, a deixar de apoiar as
vítimas que, deixando afinal de ser vítimas (pois tudo parecia estar a
acontecer-lhes sem dano aparente, pelo contrário, quaisquer enfermidades
anteriores pareciam até estar a desaparecer) foram transferidas para o estatuto de
privilegiados. Porquê eles e não nós?, parecia ser a dor-de-cotovelo mais
incendiária.
Comentadores
mais extremistas sublinharam, de forma maliciosa, o facto - para mim o mais
curioso de todos - de estarmos perante corpos indestrutíveis.
Variadíssimos
testes e situações demonstravam um vertiginoso processo de regeneração, até
para quadros clínicos crónicos, agora em franca recuperação e até
rejuvenescimento.
A
situação mais extrema verificou-se, comentada mundialmente, quando um dos
visados viu um dos seus pés ser decepado durante um violento acidente com
uma motosserra. Horas depois, segundo os relatórios médicos, uma reação
inusitada e completamente reptiliana lhe terá feito nascer no mesmo lugar um novo pé, que em poucos dias já ocupava, inteiro e saudável, o lugar do anterior.
Situações
como esta também contribuíram para que dois outros tipos de atenção recaíssem
sobre os Gigantes Portugueses, como começaram, gradual, mas definitivamente, a
ser apelidados pela imprensa internacional.
A
primeira, mais poética, tinha a ver com o mítico elixir da eterna juventude, pois se a
degeneração celular é a principal causa do envelhecimento (e do facto de
convivermos com uma vida a prazo) e esta se encontrava completamente erradicada
nesta inesperada fórmula humana, o infinito existencial parecia finalmente
ter uma expressão concreta e testemunhável.
A
segunda, menos interessante, manifestou-se através de aliciamentos,
essencialmente, militares. Quem não gostaria (ditadores, principalmente) de ter
do seu lado soldados indestrutíveis?
Porém, o desinteresse demonstrado por estes gigantes em aderir a qualquer iniciativa
social acabou, por fim, por gerar a pior campanha de difamação alguma vez
promovida. Estaria em causa a segurança do mundo, teríamos de conviver com
criaturas que não eram governáveis, nem se deixavam aliciar e isso sempre
gerou grandes medos pois, como sabemos, as sociedades receiam tudo o que
não controlam.
Apesar
dos constantes ataques, até físicos, a estas enormes variações da vida humana,
os visados pouco reagiam e, com a calma de quem já percebeu que deixou de ter
pressa, olhavam para nós, os “normais", com um olhar entre a indiferença e o desalento.
De
repente, sem que nada o previsse, todos os gigantes, todos sem exceção,
impulsionados por um qualquer hipnotismo multicerebral, foram-se dirigindo, um
após outro, ao centro do país, vindo a refugiar-se nas grutas de Santo António
(em Alvados), que bloquearam por dentro, isolando-se, definitivamente, do
mundo.
Outras
tragédias e acontecimentos foram tendo lugar e a sociedade pareceu querer
esquecer-se deste caso, afinal foram eles próprios que, levados sabe-se lá por
que impulso, tomaram a decisão de se isolar; a noção de perigo, ainda latente,
parecia agora de importância secundária. Até podiam já ter morrido, dizia-se.
Cinco
anos após o seu isolamento, uma equipa especializada internacional consegue,
então e com a máxima cautela, penetrar na gruta.
No
seu interior, um inesperado e incompreensivelmente denso e espesso nevoeiro
esperava estes aventureiros corajosos, mas, dos gigantes, apenas vestígios da
sua presença. Dos seus magníficos corpos nem sinal.
Estudos
da composição do nevoeiro revelaram elementos químicos, cujos paralelismos ao
ADN destas singulares entidades suscitaram a mais louca, mas até agora
irrefutada, teoria.
Desde
o início que os médicos comentavam, estupefactos, que não se registavam novas
adendas celulares aos seus corpos ou, pelo menos, não em consonância com as
expansões que se iam registando, sendo que o mais alto atingiu uns espantosos
10 m de altura.
A
tese defende que as suas células, não acompanhando em número o superlativo
crescimento a que foram sujeitas, ter-se-ão esticado de tal forma que se
rasgaram, desfazendo-se nos seus fragmentos mais microscópicos, gaseificando a
sua noção de unidade, dispersando-se em nevoeiro.
O
ar que se respirava lá dentro era afinal a derradeira partilha desse processo
que, uma vez aberta a gruta ao exterior, se foi dispersando pela atmosfera.
Para
além do claro alerta para a ilusão das certezas, que este episódio nos deixa, ficou-nos também, da pacífica passagem destes gigantes pelas nossas vidas, uma mensagem em forma
de nuvem. Sonho com o dia em que sejamos sábios o suficiente para a conseguir
interpretar.
Sublinho, para finalizar, que o ar que respiramos contém ainda, pelo exposto, vestígios de gigantes. Fragmentos de uma metáfora singular na História do mundo, que eu gosto de sentir como um alerta para a desintegração inerente a qualquer crescimento desmedido.
Inspiremos profundamente a sua herança.
Grata
-



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