A
última vez que vi o meu pai foi no dia 3 de março, faz hoje, precisamente, trinta
anos. Na altura eu tinha apenas 6 e o seu desaparecimento foi como um renascer
doloroso, cujo parto me durou demasiado tempo a sanar. A minha mãe ficou
destroçada e o facto de nunca termos encontrado o corpo acrescentou angústia ao
seu sofrimento e indefinição ao seu luto que, apesar de ela ter, dez anos
depois, voltado a casar, nunca terminou verdadeiramente. Ainda hoje, trinta
anos volvidos, ela sofre de uma inconstância emocional, que em certas alturas
lhe afunda o humor num abismo de pensamentos, nos quais, ainda que não o admita
abertamente, a possibilidade do miraculoso regresso do meu pai nunca foi
abandonada.
A
minha biografia teve, até agora, três fases muito distintas. A primeira foi
aquilo a que poderia chamar, sem qualquer dúvida, o período dourado da minha
vida, ainda com o meu pai, o meu grandalhão simpático, que me levava aos ombros
e me dizia que “a única forma de matar a fome é alimentando a curiosidade”.
Depois,
a idade média do meu percurso, o período mais negro e desorientador que vivi
até hoje, onde senti a fragilidade do que julgava serem os pilares da minha
vida. O meu pai desapareceu, assim, do nada. A minha mãe a perder a noção do
quotidiano, dela, de mim, de tudo.
Após
a longa e difícil travessia desta fase intermédia, o tempo acabaria por nos
proporcionar novas oportunidades de viver a vida. Eu acabei os estudos e entrei
na minha vida adulta, casei e tenho dois filhos gémeos, o Carlos e o Augusto. O
meu marido viaja profissionalmente durante quase 8 meses por ano, mas todos os
dias jantamos juntos em vídeo-chamada, pelo que a sua ausência acaba por ser
suavizada nesses momentos diários.
A
minha mãe casou com um dos melhores amigos do meu pai, também viúvo e reformado,
e lá foi encontrando alguma paz e relativa estabilidade, o que me deixa mais
tranquila. Ou seja, tudo se encaminha, não para o esquecimento da dor, que eu
duvido que alguma vez aconteça, mas para uma reordenação de prioridades
emocionais.
II
A
minha relação com a minha mãe, agora, é muito fluida e agradável, facilitada
por morarmos na mesma cidade, ainda que em zonas afastadas e completamente
diferentes. Eu vivo no centro, num apartamento, no meio de toda a azáfama
urbana. Pode parecer atribulado, mas tem uma vantagem estratégica de muito
valor: por estarmos perto de tudo, raramente andamos de carro. A minha mãe mora
a 40 minutos a pé daqui e é uma casa antiga, com quinta, numa das periferias
mais rurais da cidade.
Os
meus gémeos passam temporadas na casa da avó, ou porque têm férias, ou porque é
fim de semana e lhes apetece, ou por outra razão qualquer improvisada no
momento, o que satisfaz bastante a minha mãe e também o meu padrasto que, não
tendo descendentes, os adotou de coração.
Eles
gostam de brincar na quinta e ajudam nas rotinas agrícolas, para além de o meu
padrasto lhes ter construído uma casa numa árvore e, pronto, por vezes eu é que
tenho de os ir lá visitar, que lhes sinto a falta.
Ultimamente
até têm lá ficado com mais frequência, pois eu decidi apoiar um movimento de
independentes que se formou para as eleições autárquicas e andei com eles em
campanha e reuniões e assim.
Por
convite de uma amiga, fui a uma sessão de esclarecimentos e identifiquei-me
logo com o discurso. Não era vazio e vago, não era contra ninguém, era construtivo, mas reivindicador. Além disso, o grupo era composto por pessoas da terra, insatisfeitas e
inconformadas com o ping-pong de partidos, tal como eu, pessoas oriundas de
partidos de esquerda, de direita e de outros lados menos definidos.
Na
reunião alguém perguntou o que tinham contra a esquerda e a direita. Gostei da
resposta:
“Se
uma boa ideia vier de um pensamento de direita é bem-vinda, se vier de um
pensamento de esquerda também é. O que não podemos é sobrevalorizar a
ideologia. A esquerda e a direita, enquanto estruturas de pensamento social
único, já mostraram, ao longo do séc XX, até onde conseguem ir quando não têm contraditório.
Nenhum sistema piramidal absolutista consegue resistir à perversão.”
Este
grupo conseguiu, num esforço enorme de entrega pessoal e abdicação, elaborar um
programa que não segue nenhuma ideologia pré-estabelecida, mas que tudo subjuga
ao que eles chamaram “as necessidades particulares de cada ser humano”.
Este
mês está cá o meu marido, o que me dá imenso jeito por causa da campanha
eleitoral. Ele trabalha na mesma empresa onde o meu padrasto, o Nuno,
trabalhou. Têm sempre tema de conversa, pelo que se dão bastante bem.
Ontem
fomos à Quinta, como os meus filhos lhe chamam, porque o Nuno telefonou a ver
se lá podíamos dar um salto.
Na
véspera, ele e a minha mãe regressaram de uma estadia de 3 noites na casa de
uma amiga, perto de Tomar. Quando chegaram a casa, encontraram uma das portas
traseiras aberta, uma que dá diretamente para a quinta, para além de a luz da
cozinha estar acesa e o chão todo sujo com terra.
Através
das marcas de sujidade no chão não conseguimos definir qualquer tipo de pegada,
antes um claro movimento arrastado. Como não desapareceu coisa alguma, nem se
encontrava nada quebrado, a coisa ficou por aí e não se falou mais nisso. Na
opinião de todos, até podia ter sido um animal, não fora a luz estar acesa,
mas, quem sabe não foram eles próprios a esquecer-se de a apagar...
No
momento não me consegui concentrar muito bem no ocorrido, pois, dois dias
antes, fora atacada por momentos de imobilização total, que me assustaram
bastante.
A
dada altura, queria andar, mas as pernas resistiam ao comando, noutro momento
tinha um copo na mão e não consegui completar o movimento de o trazer à boca,
tendo ficado parada a meio.
Nunca
tinha experimentado esta sensação de fraqueza, esta incapacidade de controlar
os membros. Parecia que ficava fotografada no espaço e no tempo, parada, assim,
sem mais nem menos, sem avanço nem recuo. Foram experiências que não passaram
de alguns segundos, mas foram extremamente dolorosas pelo pânico de impotência
que se me instalou enquanto duraram. Apesar de uns segundos serem uma medida
insignificante, durante estes bloqueios a minha existência atravessou
pensamentos aterrorizantes de ansiedade e pânico. Então, lutei contra a minha
própria reação e, curiosamente, a imagem do meu pai veio-me, de todas as vezes,
ao pensamento, como uma boia, um incompreensível e último recurso.
Durante
a última imobilização, já ao fim da tarde, concentrei-me ainda mais na imagem
do meu pai, pedi-lhe com tanta intensidade que me ajudasse, que o senti. Senti
o seu cheiro, a sua presença, o seu calor e, por fim, a sua voz a cantarolar-me
ao ouvido para me acalmar, quase num sussurro, como sempre fazia quando me via
perturbada.
Foi
de tal forma realista a vivência desse momento que, depois de ter saído daquela
última paralisação, lembro-me de ter ficado incrédula a olhar pela sala para
confirmar a irrealidade do que experimentara.
Realidade
ou alucinação, o que é certo é que nesse dia não voltei a ter tais bloqueios de
movimento.
Passaram-se
algumas semanas sem que voltasse a ter algo parecido, pelo que de certa forma
me fui esquecendo do ocorrido. Além do mais, entrávamos numa fase nova da
campanha eleitoral e eu andava cada vez mais envolvida.
Pelos
vistos, algumas pessoas aderiram a este movimento, mas não perceberam bem do
que se tratava, por isso foi necessário fazer uma reunião magna e reafirmar
orientações, consolidar pensamentos e, até acabou por acontecer, reajustar
algumas das nossas ideias-pilares.
Mais
uma vez foram sublinhadas interpretações da realidade que foram de encontro às
minhas aspirações, como a identificação de que o maior problema dos partidos,
governos e regimes tem a ver com concentração de poderes e decisões unilaterais,
alimentadas pela lei do mais forte que a democracia representativa legitima,
atribuindo poderes quase ditatoriais a quem reúne o maior número de votos.
Num
das nossas frases de ordem, lia-se que a insatisfação contemporânea não tinha a
ver com o comunismo, com o socialismo, com o liberalismo ou com o
conservadorismo, mas, sim, com o autoritarismo.
Referindo
Zenão de Cítio e Pierre-Joseph Proudhon como inspiradores das sociedades
horizontais, um dos elementos da mesa chamou a atenção para a campanha
descredibilizadora que, ao longo dos tempos, se tem feito da palavra Anarquia,
uma vez que o termo passou a ser usado apenas para caraterizar situações de
desordem, quando a Anarquia, quando entendida como uma ideologia saudavelmente
individualista, descreve quaisquer atos humanos que não partam de uma
obediência hierárquica, mas do instinto profundo de sociabilidade que nos
carateriza.
A
oposição a hierarquias impostas não elimina o elitismo saudável do melhor
desempenho, ou seja, cada indivíduo ou grupo pode, voluntariamente e em
determinadas circunstâncias, querer-se deixar guiar por um especialista, assim
lhe reconheça esse valor.
Mesmo
ao lado da Quinta há uma outra, dez vezes maior que a nossa, atualmente
propriedade dos herdeiros de Don Alfino. Este magnata excêntrico inaugurou, no
seu terreno, um mini-zoo onde exibia animais exóticos vivos que, de alguma
forma, representavam a sua outra grande paixão, viajar.
A
sua morte levou ao encerramento do jardim zoológico, uma vez que nenhum dos
seus filhos estava interessado em continuar a alimentar tão dispendioso
projeto. Porém, antes de as equipas de resgate animal poderem entrar na sua
quinta, durante aproximadamente 3 meses todo o empreendimento foi descurado e,
não fosse a boa vontade de alguns antigos funcionários do zoo, os animais
tinham mesmo morrido à fome. Estes poucos funcionários que mantiveram alguma
dignidade no projeto, não conseguiram, porém, fazer frente a todas as
necessidades materiais, a modos que a manutenção acabou por não se fazer com o
rigor necessário e, durante esse período, muitos animais escaparam,
nomeadamente aranhas, e agora andam por aí à solta.
Por
isso, quando, no próprio dia em que tive as imobilizações, consultei o meu
médico de família, a primeira hipótese que ele considerou (e que não seria
descabida naquela zona da cidade, por já inúmeros casos registados) foi um
possível contacto com alguns desses fugitivos do zoo de Don Alfino, uma vez que
vou regularmente à Quinta.
Já
precavido com a lista identificada dos animais que se terão escapado do
zoológico, passámos em revista alguns que me poderiam ter atacado. Um acidente
na minha adolescência levou a que ficasse permanentemente com sintomas em tudo
semelhantes a uma doença chamada Analgesia Congénita e que, grosso modo, se
traduz numa insensibilidade à dor. Ou seja, podia até ter sido picada ou
mordida que, provavelmente, não teria sentido nada, exceto os posteriores
efeitos paralisantes.
Na
lista dos animais desaparecidos constavam a brasileira Aranha Armadeira, a
australiana Aranha-teia-de-funil, a americana Viúva-negra e a africana
Aranha-da-areia, cujos venenos poderiam ter espoletado a minha paralisação.
Porém, o facto de ter acontecido várias vezes intervaladas e apenas por alguns
segundos cada e, depois, não ter havido nenhuma outra consequência deixou o meu
médico confuso e a achar que se calhar teríamos de seguir um outro rumo para
perceber o que, afinal, se passou comigo.
Houve
eleições e o movimento que eu apoiei ganhou. Pelos vistos, uma caraterística do
nosso movimento que eu pensava que fosse penalizadora, acabou por ser a que
mais galvanizou a população e gerou o maior número de votos: o não termos um
líder com poderes de decisão, mas um porta-voz que, não tendo carta branca,
apenas divulga o que o grupo vai definindo como apropriado e conveniente.
Aproximadamente
um mês depois voltei a ter ataques de imobilização.
Mais
uma vez pedi ajuda ao meu pai e, mais uma vez, senti a ideia de si
materializar-se nalgumas dimensões sensoriais, como no olfato e na audição. O
meu corpo vibrou com a sua presença e as imobilizações, novamente, pararam.
No
dia seguinte, de manhã, a minha mãe ligou-me em pânico a dizer que a casa tinha
sido novamente invadida durante a noite e que o Nuno não estava. Fiquei
imediatamente alerta e fomos logo à Quinta. Os nossos meninos tinham lá ficado
a dormir.
Estavam
todos bem, apenas a luz da cozinha voltou a aparecer ligada, o mesmo padrão de
sujidade no chão e a mesma porta aberta. Desta vez, porém, os rastos iam além
da cozinha, tendo avançado até ao meio do corredor, mas ficaram por aí.
Novamente, nada desaparecido nem danificado.
Apesar
de alguma apreensão quanto ao facto de haver alguém (ou algo) a recorrer à
Quinta desta forma tão sinuosa, um pensamento ocorreu-me de repente: estas duas invasões à
casa da minha mãe coincidiram com as minhas paralisações. Apesar de então me
parecer completamente absurda a conjugação, fiquei a pensar no assunto.
Durante
aproximadamente dois anos não voltei a ficar imobilizada e, coincidência ou
não, também nada de estranho voltou a acontecer na Quinta.
Quase
me esqueci do caso, embrenhada que andava nos trabalhos da autarquia. O Carlos
e a Sara, o casal estratega de tudo isto, têm estado a pôr em prática aquilo a
que eles chamam as “estratégias de envolvimento social”, com um sucesso
incontornável, como os referendos semestrais e as reuniões de trabalho sempre a
serem transmitidas em direto nos meios de comunicação locais. Estas opções dão
substância ao facto de eles rejeitarem para o movimento o rótulo de
anarcossindicalistas (como as oposições insistem), mas anarcopacifistas e,
segundo a Sara, “a paz só existe com transparência e envolvimento totais”.
Hoje
de manhã, quando acordei, não me consegui levantar imediatamente. Não me
aconteceu mais durante o dia, contudo, desta vez fiquei imobilizada durante
quase 2 minutos - nunca tinha ficado assim tanto tempo.
Durante
esse eterno e aterrorizante momento, não foi a imagem sedutoramente protetora
do meu pai que me veio ao pensamento, mas a dramática e perturbadora imagem dos
meus filhos em aflição. Sentia-os perto de mim, as mãos a esticarem-se para as
minhas, os olhos em súplica, o desespero no rosto. Eu contorcia-me para os
alcançar, mas sem efeito. Numa procissão de obstáculos, havia sempre qualquer
coisa a impedir-me de os proteger, de lhes chegar sequer, de os acarinhar e
eliminar o sofrimento que marcava o seu olhar.
Quando
recuperei o corpo e me libertei deste transe maldito, liguei imediatamente para
a minha mãe, a saber dos meus pequenitos, que lá tinham ficado a pernoitar.
Apesar
de saber que a noite correra como previsto e que os meninos até já estavam a
ajudar o avô Nuno na horta, só quando lá cheguei (sim, porque não resisti a ir
lá confirmar com os meus próprios olhos) é que descansei, confirmando o teor do
telefonema.
Quando
regressava ao carro, olhei para trás para a fachada da Quinta e uma mancha
estranha percebia-se precisamente abaixo da janela do quarto onde os meus
filhos costumam dormir.
Voltei
para averiguar o que se tratava e, após ter chamado a família para confirmar
comigo, concluímos que eram exatamente o mesmo tipo de manchas deixadas em
todas as “invasões” à casa.
Ainda lá, começámos a pensar seriamente no
assunto, concluindo que, de todas as vezes, as manchas de arrasto no chão se
foram aproximando cada vez mais do quarto dos meus meninos. A primeira fora só
na cozinha, as seguintes avançaram pelo corredor em variadas direções, como se
andasse à procura de qualquer coisa e, esta última, já nem entrava pela
cozinha, aparecendo apenas do lado de fora, na parede imediatamente abaixo da
janela do quarto deles, como se já tivesse encontrado o que buscava e, não precisando
de perder mais tempo, fosse diretamente ao ponto desejado.
É
claro que chegar a uma conclusão destas me fez gelar de medo e, imediatamente, peguei
neles e levei-os para casa comigo. Nas semanas seguintes não os deixei
pernoitar na Quinta.
As
semanas seguintes foram tranquilas, nem sonhos, nem aflições, nem marcas de
terra na Quinta. Tal foi que acabei por me esquecer um pouco do assunto e
voltei a envolver-me no movimento político local, que muito me orgulha,
principalmente, por não sermos filial de nenhum poder ausente, mas produto de
mentes da terra.
Uma
das estratégias de envolvimento adotada e já posta em prática, é o referendo
semestral. A cada seis meses, portanto, uma lista de perguntas, elaborada pela
autarquia em conjunto com os munícipes, é lançada à população. Só assim as
medidas se consideram, ou não, aprovadas e só depois dessa consulta são postas
em prática.
Como,
de forma absolutamente inédita, a elaboração sistemática dessa lista de propostas
conta sempre com a presença e intervenção dos representantes de todas as forças
políticas tradicionais (que até podem incluir nessa lista as suas próprias
perguntas), toda a comunidade acaba por se ver obrigada a assumir responsabilidades
por tudo o que nos vai acontecendo.
Esta
nova forma de trabalhar tem tido um impacto tal que eu até sei de alguns
elementos de outras listas partidárias que já se desvincularam das mesmas e têm
mostrado interesse em integrar este movimento que, mais do que um partido
sectário e autoritário, se transformou num coletivo de interesses e opiniões,
ampla e verdadeiramente representativo da comunidade.
A
oposição tem-se esvaziado bastante. Aquela ideia de boicotar tudo até às
eleições seguintes, como tem sido apanágio das oposições tradicionais, para
depois acertar contas no ato eleitoral seguinte, aqui não se consegue
alimentar, pelo envolvimento constante a que todos têm sido convidados.
O
Carlos, nas suas intervenções, continua a surpreender. Dá a sensação de que ele
nunca revela toda a extensão do seu pensamento, destapando, de vez em quando, detalhes
reveladores de toda uma estrutura lógica de pensamento organizado.
Desta
vez, sobre um acontecimento com dois bombeiros, ele nunca se referiu aos
bombeiros de forma geral. Falou-nos, então, da necessidade de abolir a ideia de
representatividade, vendo cada cidadão, não como um representante de nada a não
ser de si próprio e, mesmo assim, com a possibilidade de representar apenas a
sua existência em determinado período de tempo, assumindo, de uma vez por
todas, a ideia de que a constante alteração de pontos de vista faz parte do
crescimento individual.
Apesar
da minha atividade política, nunca o meu pensamento se desligou da ideia de ter
o meu pai a aliviar-me as imobilizações, do paralelo entre as minhas
imobilizações e as invasões à Quinta e, agora, mais recentemente, com os meus
filhos a entrar na equação, com aquela aproximação arrepiante dos rastos ao
quarto onde lá costumam pernoitar.
De
tal forma me sentia perdida que, na ânsia de encontrar alguma orientação, virei-me,
por sugestão de amigos, para uma área do conhecimento da qual sempre senti uma
enorme distância, o sobrenatural.
Por
consequência direta da dificuldade em aplicar qualquer tipo de lógica a estes
eventos pavorosos, acabei por ir à sede da associação Mediterrâneo
Perpétuo que, inicialmente, até pensei que fosse espírita, mas percebi
que, afinal, é algo mais antigo do que qualquer interpretação Kardecista dos
fenómenos entre-a-vida-e-a-morte.
Antes
de explicar ao que ia, tentei saber um pouco sobre eles. Trata-se de um
associação de necromantes e têm textos muito antigos do Egito, da Grécia e do
império romano como inspiração e fonte de sabedoria.
Explicaram-me
que dividem em três os momentos da evolução do pensamento necromante, a que
chamam a Pré-História, a História e a História Moderna.
No
primeiro consideram essencialmente narrativas tribais, encontradas um pouco por
todo o globo, com descrições de rituais de comunicação entre mundos, quase
todas retiradas de tradições orais muito antigas, de difícil ou mesmo
impossível datação.
A
História da Necromancia começa, então e de forma simbólica, com o poema
Odisseia, de Homero, onde a personagem principal, Ulisses, faz da comunicação
com os mortos um elemento incontornável de toda a narrativa.
O
terceiro momento, até aos dias de hoje, arranca com os trabalhos de Allan Kardec
e Madame Blavatsky, sendo associado à fundação, respetivamente, do Espiritismo
e da Teosofia.
Após
a sessão de esclarecimento, lá aderi a um programa de comunicação
extrassensorial e, com a D. Laura, a médium de serviço, descobrimos o espírito
do meu pai a vaguear numa zona específica do Portal de Pedro.
O
Portal de Pedro, onde vivem os espíritos desencarnados, encontra-se dividido em
zonas de existências diferenciadas. Por azar a presença do meu pai foi detetada
na zona dos chamados espíritos de fusão (vampiros, zombies, assombrações, etc.).
Azar porque, dadas as suas características específicas, a sua conexão intermundos ativa-se numa frequência que, se por um lado lhes permite viajar
entre encarnados e desencarnados, por outro impede quaisquer contactos mediúnicos.
Ontem
a minha mãe fez anos e fomos lá passar a tarde. Chegámos por volta das 10 da
manhã e por lá passámos o dia.
O
Nuno andava entretido com um pequeno trator a remexer o chão para plantar
árvores de fruto e os meus filhos acompanharam-no o tempo todo.
Pouco
antes do meio-dia, o meu Carlitos veio-me entregar um saco de plástico
encontrado a pouca profundidade, dentro do qual se encontrava um envelope com o
meu nome, escrito com a letra do meu pai. Como a minha mãe andava a preparar o
almoço, fiquei sozinha a ler a carta que continha. Li-a uma, duas e três vezes
e nem queria acreditar naquelas palavras.
Na
altura do desaparecimento do meu pai, foram registadas algumas mortes e
desaparecimentos, para os quais nunca houve uma explicação satisfatória. O meu
pai, pensámos então, teria também sido apanhado nesta onda trágica. Afinal, a
serem verdadeiras as palavras desta carta, pode ter sido ele o causador de
tanta dor e sofrimento. Como era o aniversário da minha mãe, decidi não lhe
falar da carta.
Almoçámos,
vieram uns amigos e a tarde foi avançando. Pelo fim do dia, a emoção do
aniversário, juntamente com a grande revelação daquela carta, derrotaram-me de
tal maneira que adormeci, sem alento, no sofá da sala.
Dormi
umas 3 horas seguidas e, quando acordei, não me consegui levantar.
Encontrava-me novamente imobilizada, colada ao sofá. A escuridão que no
entretanto se instalara impedia-me sequer de conseguir ver as horas no relógio
de parede. Novamente fui assolada por visões perturbadoras. Desta vez uma sombra
indistinta envolvia e levava os meus gémeos, que se contorciam em gritos de dor
e medo.
Os
seus pedidos de socorro, porém, não desapareceram quando me passou a
imobilização, como das outras vezes. Continuaram a soar na minha cabeça como um
sino, um alarme, um tormento. Levantei-me assim que consegui e, meio a
cambalear, dirigi-me ao exterior desejando que não fosse mais do que as
habituais alucinações.
No
caminho, ao passar pela cozinha, pareceu-me ver um corpo estendido no chão.
Estava escuro, dirigi-me rapidamente ao interruptor, mas não ligou.
Aproximei-me a medo e percebi, horrorizada, que era a minha mãe, inanimada e
ensanguentada. Confusa, pensei logo nos meus filhos e corri para o exterior.
A
poucos metros da porta estava o trator do Nuno. Uma avermelhada lua cheia
permitiu-me ver alguém sobre ele. "Nuno", gritei em vão, pois não
houve qualquer resposta ou movimento.
Aproximei-me
e vi-o tombado sobre o volante. Toquei-lhe no ombro e, como que a gerir as
últimas forças, ainda se conseguiu virar na minha direção.
Vi-lhe
então o rosto esfacelado e o pescoço cheio de sangue. Com os olhos pintados de
desalento e terror, ainda me conseguiu sussurrar "Ao fundo, procura-os ao
fundo, no pomar."
Corri, corri como nunca tinha corrido na minha vida. Acompanhada de um turbilhão de pensamentos e de lágrimas descontroladas, gritava os seus nomes. Caí várias vezes até lá chegar, mas o entorpecimento mental que me envolvia, fazia-me levantar imediatamente e voltar a chamá-los e a correr por eles.
(...)
Ainda
hoje, volvidos 5 anos desse fatídico aniversário, procuro continuamente os
meus meninos. Procuro nas ruas, nas quintas à volta da Quinta, nos hospitais, nas
casas de vizinhos, nas escolas, nos jardins, nas morgues, debaixo da cama, nas
gavetas, nos olhares alheios, nos bolsos dos casacos, na caixa do açúcar, nos
pensamentos, nos sonhos, no ar que respiro...

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