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Eu e os outros


Eu e os outros

 

 

O mar parecia uma piscina, calmo, com um espelho tão nítido que se tornava difícil dizer qual era o original da lua que se via em duplicado, se o de cima se o de baixo.

O barco quase não mexia. Sem ondulação, este mar dos trópicos suavizava-nos a mente, remetendo para o esquecimento os atribulados momentos anteriores.

As últimas quatro horas foram, digamos (nem sei que adjetivo lhes atribuir), inesperadas. Nada correu como previsto. Apesar de a partida ter sido agradável, de as despedidas terem sido emotivas e de o tempo estar, nitidamente, a nosso favor, algumas horas de viagem e tudo resvalou.

O motor incendiou-se, o que podia ter alastrado ao barco, mas foi circunscrito. O capitão desmaiou devido a uma quebra de tensão, mas já recuperou. No ponto onde nos encontrávamos já não havia forma de pedir auxílio, mas, afinal, um passageiro, engenhoca das comunicações, ainda conseguiu ativar um gerador e lançar um SOS que, felizmente, já foi atendido. Em suma, correu tudo mal, mas podia ter sido pior.

Encontrávamo-nos, então, em compasso de espera. Nada havia mais a fazer a não ser aguardar. No mínimo umas cinco a seis horas, disseram-nos.

Resignados com o destino, lá nos convencemos da inutilidade do receio e, aos poucos, fomos descontraindo.

Na zona onde me encontrava, um dos balcões mais cimeiros do navio, um grupo de 8 pessoas, amigos de ocasião ou vítimas das circunstâncias, ocupou os lugares da única mesa redonda disponível. Um dos presentes, ancião angolano de nome Kandimba (que mais tarde soubemos que quer dizer "coelho"), contador de histórias profissional, propôs que, para ajudar a passar o tempo, cada um à vez interviesse com qualquer coisa, podia ser um poema, uma pequena história, uma anedota, adivinhas, enfim.

Da timidez inicial fomos, aos poucos, ganhando confiança e foi quando chegou a vez do senhor que estava ao meu lado, de rosto pálido, mas olhar vivo, vestido de azul escuro e com um peculiar chapéu de coco.

 

"Boa noite, o meu nome é Dário Antunes e, não sabendo muito bem do que falar e não tendo muito jeito para contar histórias ou, assumindo desde já, sem muito jeito para fazer rir e entreter, partilho convosco uma parte significativa da minha vida.

Hoje tenho 42 anos e sou filho único de uma família ligada à agricultura, mas nem sempre foi assim, não a parte da agricultura, que essa anda na nossa biografia coletiva desde tempos imemoriais, mas a parte em que sou filho único.

  


Quando eu já tinha 25 anos, a minha mãe deu à luz uma menina, a Osvaldina, a minha maninha adorada, que herdou o nome da minha bisavó. A Valdinha, como lhe chamámos sempre, nasceu já fora de tempo.

A minha mãe já tinha 48 quando um dia ao jantar nos disse que tinha algo para nos contar. Na altura partilhávamos a casa (que era enorme, um casarão) com o meu tio paterno e família, mais o meu avô paterno e 3 primas do lado da minha mãe, num total de 12 pessoas.

O meu pai, sem saber do que se passava, bateu com o garfo no copo e pediu silêncio. Então a minha mãe levantou-se e disse que tinha ido ao médico e que tinha recebido a notícia de que estava grávida.

A reação foi dispare, eu e a canalha mais nova reagimos de forma entusiasta, levantámo-nos e fomos dar-lhe beijos e abraços. Os mais velhos, a minha mãe incluída, ficaram estáticos, apreensivos. Lembro-me de ver o meu pai sentado, branco como a parede, a correrem-lhe discretas mas visíveis gotas de suor pelo rosto, com o olhar nela, completamente perdido.

- Vais ter a criança, certo? - perguntei-lhe.

- Nem sei o que pensar, ainda estou atordoada com a notícia.

Apesar de não delirarem propriamente com a ideia, os meus pais, depois de falarem a sós, lá decidiram trazer ao mundo mais uma vida. A gravidez, porém, apesar de ter corrido quase sempre de forma satisfatória, teve um percalço, em forma de acidente estúpido na quinta onde vivíamos, que determinaria tudo o resto.

Um dia, quando a minha mãe ia alimentar os coelhos, uma perseguição entre dois cães fá-la-ia tombar e provocar uma atrofia no crescimento da minha irmã, sendo que, logo aquando do seu nascimento, os médicos lhe deram pouco mais de uma década de vida... e assim foi, dez anos depois, eu voltaria a ser filho único, infelizmente.

Contei-vos isto, assim, para vos contextualizar, mas o que me interessa partilhar aqui, nesta mesa redonda, é o que aconteceu, principalmente, durante a sua vida.

Logo desde o berço, havia na Valdinha qualquer coisa de peculiar. Nunca percebi se era a forma como nos olhava, se era a força com que se agarrava aos objetos, se era a sua voz ou se era um misto de tudo isto, traduzido numa linguagem corporal encantadora, mas simultaneamente incompreensível.

  


Um comportamento seu que, logo desde o início, gerou alguma perplexidade foi o facto de nos parecer que até preferia ficar sozinha pela forma como se tranquilizava quando a deixávamos no quarto e por alguma agitação sua, em contraste, quando lá voltávamos a entrar.

Não nos repelia, entenda-se, mas o que nunca houve foi aquele desassossego que algumas crianças manifestam quando as deixamos a sós, ainda acordadas.

A sua primeira grande paixão foram os gatos da casa. Bilec e Cricri eram o casal felino que dominava o espaço interior.

Ele, o Bilec, um angorá possante e peludo, com um olho verde e outro azul, chegou-nos por mão de um familiar que o encontrara, perdido e abandonado, ainda gatinho. O seu quotidiano consistia em eliminar todas as formas de vida não humanas que tivessem a ousadia de penetrar nos seus domínios. O seu lado infalivelmente mortífero com a biologia invasora contrastava com a sua personalidade passiva perante humanos. Nunca conheci nenhum gato assim, não havia nada que lhe não pudéssemos fazer, levantá-lo por uma pata, sentarmo-nos em cima dele, empurrá-lo da cama abaixo, tudo consentia, soltando apenas curtos e quase inaudíveis miados.

No extremo oposto, filha rafeira de gatos da quinta, a Cricri, ou Dona Cricri, como nitidamente preferia ser chamada, tinha, com exceção da cabeça (e apenas de vez em quando), em toda ela o aviso de zona proibida. Tocar-lhe era sinónimo de dentadas e rasgões violentos na pele, sempre acompanhados de sirenes enraivecidas, dignas de um fim do mundo. Talvez por concentrar toda a sua energia numa defesa constante na presença de humanos, ao contrário do Bilec, era sempre pacífica e acolhedora quando se encontrava rodeada da animália que nos visitava. Brincar com ratos, acariciar baratas e observar carinhosamente o frenético movimento das formigas era o seu quotidiano mais habitual.

Claramente a rainha da casa, o seu temperamento antropofóbico modificava-se por completo sempre que a minha irmã estava por perto. Com ela era toda mel e ternura. Ronronava, rebolava-se à sua frente e mendigava-lhe carícias como se disso dependesse a sua sobrevivência.

A Valdinha, por sua vez, olhava-a, logo desde o berço, com um olhar cúmplice e amarfanhava-a toda. Espantava-nos, portanto, ver a diabólica Cricri toda derretida e rendida aos seus afagos.  A minha mãe até chamou uma vez a vizinha, que já fora atacada por ela, para presenciar aquele cenário tão inconcebível.

  

Mais tarde desinteressou-se dos gatos e passou, como todas as crianças, a ter conversas com o inexistente, com os amigos imaginários que todos, de uma forma geral, temos nessas idades. Assim parecia normalizar o seu crescimento, não fora os amigos imaginários dela não serem assim tão imaginários.

A primeira vez que presenciei uma das suas balbuciantes conversas com o vazio, achei o quadro normal e até previsível para a sua idade. Porém, ao acompanhá-la ao longo do tempo nesses períodos de interação criativa, apercebi-me de que os interlocutores com quem ela estabelecia esses diálogos eram reais, eram objetos, coisas físicas, materiais. Falava com a estante do quarto, com o puxador da porta, com a cortina da sala e, principalmente, com a chupeta, com quem tinha horas e horas de pa-ta-ti, pa-ta-ta.

Apesar da originalidade destes momentos, não transparecia de si nada de estranho, nem de preocupante, antes pelo contrário, toda ela era felicidade, a rir, a palrar e a cantarolar.

Uma certa vez, teria a Valdinha uns 2 anos, os meus pais tiveram de se ausentar por dois dias por causa do falecimento de um familiar. Fiquei, então, encarregue de tomar conta da minha pequenita. Acabei por lhe levar a caminha para o meu quarto para mais facilmente lhe aceder em caso de necessidade.

Por acaso, pouco tempo antes lera um livro (entre o filosófico e o esotérico) que aprofundava a ideia de que, sendo nós também matéria, pouco nos diferenciaremos de tudo o que nos rodeia. Se a condição de estarmos vivos se manifesta pelo movimento, pela vibração, fazer vibrar os objetos será sinónimo de trazê-los à vida, como um som que só existe, só se faz sentir porque algo se move no movimento certo.

Com referências a Walter Pater, Wassily Kandinsky e, principalmente, Artur Schopenhauer, para quem a música é a forma de arte mais elevada, pela abstração a que nos convida, afirma o autor que só estamos sozinhos porque queremos. Nada à nossa volta está longe de nós, desde que nos consigamos traduzir numa linguagem vibratória verdadeiramente universal.

Sendo nós uma insignificante parte do universo, é claro que a linguagem humana não terá forçosamente de ser, sequer, um exemplo da forma mais transversal de comunicar com o todo.

 


Nas duas noites em que tive a Valdinha a dormir comigo reparei, primeiro, que pouco dormia, depois, que entre ela e os objetos não havia propriamente uma barreira e isto é muito difícil de explicar, mas vou tentar.

Tê-la comigo no quarto permitiu-me uma proximidade que nunca tivera. Quando a quinta adormeceu, pude-me aperceber que ela não palrava os habituais balbuceios que tantas vezes presenciara ao acaso e a seco. Ou seja, não só não era apenas aquela vontade desesperada de comunicar, que leva tantas vezes a consciência infantil a emitir sons ao acaso, apenas pelo prazer de os produzir, pois havia ali nitidamente um padrão; como, entre os supostos balbuceios, ela emitia uns agudos e quase inaudíveis silvos, enrolados e alguns até com uma certa recorrência melódica.

Passei a primeira noite quase sem me mexer até ela adormecer.  Não queria produzir qualquer tipo de barulhinho. Queria apreciar toda aquela linguagem que a minha Valdinha usava para se entreter. Quanto mais a ouvia, mais me parecia haver ali algum tipo de conversa, como quando ouvimos uma pessoa ao telefone e não ouvimos a voz do outro lado, aqueles tons interrogativos, as pausas, as curtas intervenções de concordância, os inesperados risinhos.

Durante o dia, discretamente, ia-a observando e reparando na sua grande capacidade em se esquecer de nós, reocupando-se logo com os seus interlocutores privados e (in)definidos. Porém, quando alguém se aproximava, principalmente a Luana, a prima mais nova, toda ela era olhos e parecia esquecer aquele outro mundo.

O que me apercebi ao vê-la com mais atenção foi, justamente, nestas passagens de realidades, quando se virava para nós, os humanos. Fazia-o sempre só depois de se despedir dos outros amigos, o que podia acontecer na forma de um pequeno aceno de cabeça, um gestinho discreto com as mãos, um silvo mais ondulado ou apenas um sorriso.

Não sei muito bem se é comum este tipo de cumplicidade entre as crianças e os mundos que inventam e vivem, mas senti que ali havia algo de muito intenso e até comovente. Mesmo acompanhada por nós, volta e meia, ela olhava para outros ângulos do espaço à sua volta e sorria ou emitia um daqueles silvos quase inaudíveis.

 


Passei a segunda noite, obviamente, alerta. Com o pretexto de estar calor, deixei a janela aberta, o que me permitiria, também, observá-la mais atentamente com a luz do candeeiro exterior. Coloquei-lhe a caminha em local estratégico.

Durante um bocado a minha maninha parecia que dormia profundamente e eu, cansado do dia, quase adormeci também. Estava já no limiar da resistência ao sono quando sinto, pelo canto do olho, a cortina a movimentar-se. Devagarinho, quase impercetível. Poucos segundos depois, a luz do exterior já não chegava ao rosto da minha irmã, bloqueada que estava agora pela cortina que eu, tão habilmente, desviara. Como se a privacidade no escuro fosse aquilo que lhe faltava, imediatamente a seguir, acordadíssima, retomou as suas longas e épicas conversas.

Nessa noite, porém, não houve balbuceios, apenas silvos, cantados, ondulados, em sequências curtas e longas, sempre espaçados por pausas que em tudo garantiam um momento de audição, para uma resposta, no alimentar de uma conversa.

Apesar da escuridão provocada pelo reposicionamento das cortinas consegui ver que os seus bracinhos acompanhavam a conversa. Não conseguindo perceber-lhe a expressão facial, reparei que o seu rosto também se ia virando para os diferentes interlocutores.

Depois adormeci.

Nos anos que se seguiram, os seus diálogos intensificaram-se. Tendo-me apercebido dos sons que produzia e do padrão de silvos que os constituíam, abstraí-me um pouco deste ambiente sónico de serpente para me concentrar nos gestos que os acompanhavam. Apesar de inicialmente me parecerem gestos que todos normalmente fazemos quando falamos com alguém, cada um com a sua peculiaridade, previsivelmente imprevisível, cedo me apercebi que havia ali algo mais.

A nossa linguagem corporal, principalmente os braços e as mãos, comporta-se de forma diferente quando, em diálogo, falamos ou escutamos. Naturalmente ativamo-nos mais quando emitimos e suspendemo-nos nos momentos de receção.

Pois no caso da minha Valdinha isso não acontecia, ela tanto se movimentava quando silvava como quando esperava a sua vez de intervir.

Quando ela já tinha os seus 5 aninhos, os meus pais voltaram a sair e desta vez fui eu que, prontamente, me ofereci para tomar conta dela, entusiasmado que andava com todo o mistério à sua volta. Dessa vez foi uma semana inteira.

    


Fiquei com ela a dormir no meu quarto por 7 noites e pude, com a serenidade que o tempo tem, chegar a algumas conclusões, que foram:

- primeiro comecei por reparar que sempre que ela travava um diálogo, os gestos que o acompanhavam mudavam conforme ela estivesse a falar ou a ouvir;

- nessa diferenciação gestual, apercebi-me de que os seus movimentos quando falava estavam em consonância com a sua habitual linguagem gestual, já os que produzia quando ouvia eram bastante diferentes dos seus, denotando uma outra presença, como se ela assumisse um outra personalidade;

- como padrão reparei que essa diferenciação se ia esbatendo ao longo de cada diálogo e, no fim, as duas linguagens gestuais assumiam elementos de cada uma e apresentavam-se perfeitamente fundidas.

Apesar de, na altura, não ter ainda ido ao fundo da questão, desde logo o pensamento me empurrava para a possibilidade de estar ali a presenciar um processo de fusão entre os interlocutores.

É óbvio que chegar a estas conclusões deixou-me numa encruzilhada emocional, que me puxava não só para o fascínio de descobrir algo tão inusitado, como para o desconcerto perturbador de ter de pôr em causa as minhas certezas sobre o funcionamento do mundo.

Durante essa semana em que a tive por perto, também me apercebi de algo ainda mais inquietante que, por acrescentar ainda mais perplexidade ao que vos já descrevi, só autorizei o meu pensamento a ir nesse sentido, depois de confirmar, noite após noite, dia após dia, as minhas suspeitas.

Sempre que ela se dirigia a algum dos objetos à sua volta (o que era identificável, não só pela direção dos seus gestos, como pela concentração do seu olhar) acontecia qualquer coisa que eu, inicialmente, pensei que fosse ilusão ótica minha, sugerida pelos acontecimentos, mas que, depois, acabei por perceber que transcendia a minha gestão sensorial e era, sem dúvida, um facto.

Dou-vos um exemplo para perceberem melhor, uma certa vez em que ela falava com uma estante, os meus olhos desfocaram a estante, mas tudo o resto à sua volta continuava normal, como se a estante tremesse ou adquirisse formas esbatidas, como se tivesse vida própria e o animismo a tomasse por inteiro.

 


Não sei se algum dos presentes se lembra dos escritos do último rei Inca, Atahualpa, executado pelos espanhóis em 1533, nomeadamente um conjunto intitulado "EU e os OUTROS, uma viagem de ida e volta". De acordo com esta estrutura de pensamento tudo o que existe no mundo flui, incorporando elementos aparentemente autónomos, confirmando a ideia de que qualquer realidade se pode confundir com outra, se nela se fundir e, assim sendo, reforçando a possibilidade de bilateralidade em processo de completa transmaterialização.

Pois eu só mais tarde me cruzei com esta ideia, pelo que na altura apenas conseguia justificar as inequívocas capacidades extraordinárias da Valdinha pelo facto de a natureza se esforçar num qualquer tipo de compensação pela sua fugaz existência.

No caso específico da minha maninha essa compensação abriu-lhe portas a um nível de comunicação que, para nós, não passa de um ideal, a comunicação enquanto processo de fusão bilateral. O que nós conhecemos, salvo raras exceções, é a comunicação invasiva, aquela onde tentamos penetrar na existência alheia para deixar sementes.

Quando ela fez 8 anos comecei a sentir-lhe alguma inquietação, as suas atividades diárias pareciam estar a ser concretizadas com uma certa urgência, sendo que até por vezes parecia irritar-se quando algo demorava, como se soubesse do seu curto prazo de vida e não tivesse tempo a perder.

Eu, apesar de não comentar com ninguém, continuava a observá-la, fascinado. Acontece que a Valdinha começou-se a aperceber de que eu a vigiava e, numa certa vez, apanhou-me a observá-la. A partir desse momento, de vez em quando, dirigia-me alguns dos seu silvos.

Se a sua esperança era estabelecer algum tipo de diálogo comigo naquele linguajar, não funcionou de imediato, pois tratava-se de um código para mim completamente desconhecido.

  

Três dias depois de fazer 10 anos, a Valdinha deixou-nos. A sua morte foi, de alguma forma, esperada. Nos meses anteriores, uma sucessão de falências orgânicas ditava um fim inevitável. O seu corpinho frágil não estava a conseguir aguentar a tormenta da disfunção e, no seu olhar, no lugar do prazer de viver que sempre a acompanhou, sentia-se agora como que, na consciência da partida, uma aceitação. Foi em paz.

Porém, aproximadamente dois meses antes do seu último aniversário, caros amigos, presenciei a mais incrível das cenas. Lembro-me que andava pela casa à procura de uma chave quando vi uma luz demasiado brilhante a vir da biblioteca (uma divisão onde guardamos os livros de todos). Aproximei-me e, pela frincha da porta, consegui observar a minha irmã com um livro aberto (informo-vos que ela, por decisão familiar, não chegou a ir à escola e, portanto, não sabia ler). Era desse mesmo livro que saía a luz, fortíssima e em forma de chama, que envolveu a Valdinha por completo até a fazer desaparecer, literalmente, tendo o livro caído ao chão, apesar de a luz continuar a sair do seu interior.

Assustei-me e decidi entrar no quarto. Quando a minha presença se fez notar, a chama que saía do livro moldou-se em forma humana e ela apareceu de novo à minha frente.

O livro tornou-se um livro normal e ela olhou-me bem nos olhos e fez-me sinal para que me sentasse.

Passei o resto do dia ao seu lado e compreendi, nesse dia e nos que se seguiram, a lógica da sua linguagem, conseguindo a partir daí compreender, não tanto as palavras, convenções humanas geograficamente limitadoras, usadas para detalhar a vida, mas todo um mundo emocional de paralelos partilháveis, uma capacidade de síntese que nos permite concentrar todo o esforço comunicativo no que realmente interessa.

No pouco tempo que ainda viveu, sempre que me encontrava na sua presença, com mais frequência via os objetos à nossa volta vibrarem, desfocando e, em muitos casos até, ganhando auras luminosas de cores distintas e eu, de uma forma que não consigo explicar muito bem, sentia que não terminava onde começava a matéria alheia.

Quando ela faleceu cheguei a pensar que tudo isto não teria passado de uma confusão minha, mas o que é certo é que eu continuava a sentir esse fluxo transmaterial, esse fazer vibrar e vibrar com os objetos. Discretamente confirmei que mais ninguém na família tinha as mesmas experiências que eu, por isso preocupei-me com a minha sanidade.

Apesar de, como vos já referi, ter duvidado de mim próprio (seria sugestão, seria o desgosto traumatizante da sua morte tão prematura), nunca consegui deixar de fluir para fora de mim e hoje (e aqui compreenderei os vossos olhares incrédulos) consigo, após anos de muita prática solitária, penetrar com alguma facilidade nas mais triviais realidades objetivas do mundo.

  

Apesar de hoje conseguir ter alguma clareza sobre todo esse processo, foi em processo de maravilhamento que compreendi que afinal ela conseguia, de facto, fundir-se fisicamente com os objetos com que comunicava, tornar-se neles, como com o livro daquela vez que vos contei.

A imensa dor que ainda hoje sinto pela sua perda alimenta-se de uma última e derradeira esperança. Terá ela realmente desaparecido deste mundo, ou continua por aí, nos mais simples objetos do quotidiano, iluminando-os de vida, vibrando com eles, fundida com o que nos rodeia?."

Quando o nosso orador disse esta última frase, o gerador que alimentava o barco parou. ficámos novamente às escuras. O som que este provocava, pela sua constância, já tinha sido remetido para a inconsciência, pelo que só nos lembrámos que estava a funcionar, quando, de facto, deixou de o fazer (soubemos que o combustível que o alimentava esgotara-se).

A paragem do gerador gerou um burburinho por todos os passageiros, o que, de alguma forma, nos distraiu da história mágica, bonita, mas algo triste que tínhamos acabado de ouvir.

Até chegar o socorro com combustível e voltarmos a terra firme nunca mais vi o homem do chapéu de coco. Não sei se se levantou antes de nós, o que é certo é que não sei onde poderá ter estado enquanto durou o tempo de espera até à chegada da ajuda marítima. No momento atribuí à falha de luz, que a ausência do gerador provocou, o facto de não o ter visto sair do nosso grupo, por isso, não dei muita importância ao caso.

Quando, já ancorados no porto mais próximo, voltámos a ter combustível, num paralelo absolutamente inesperado, pouco tempo depois de o gerador voltar a funcionar, tive a sensação de, ao longe, o ter visto passar.

Algum tempo depois, intrigado com tal personagem, acabei por investigar e concluir, espantado, que não havia nenhum Dário Antunes registado na lista de passageiros.

A perplexidade que se me instalou forçou-me ao estabelecimento de paralelos sobre a história que tínhamos ouvido no barco, sobre a misteriosa presença do senhor do chapéu de coco durante a vibração do gerador, e o seu ainda mais misterioso desaparecimento quando o gerador deixou de funcionar (e vibrar).

Teria ele aprendido da irmã a linguagem da vibração e conseguido, tal como ela, transmaterializar-se em objetos como, neste caso, o gerador? Terá sido a vibração do gerador a funcionar que o transportou para junto de nós e, quando parado, o apagou?

Acho que nunca saberei, mas talvez sugestionado por tal narrativa, volta e meia, à noite, no sossego do mundo, quando olho atentamente para certos objetos tenho a sensação de se me desfocarem os seus contornos.

Depois, claro, convenço-me do absurdo de tudo isto e durmo que nem um anjo.



 

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