A
última nota de Ganimedes
O
mestrado foi aprovado com distinção. O trabalho de dois anos intensivos chegava
agora ao fim e o Cunha, mais do que satisfeito, sentia-se aliviado. Ele nunca
tinha pensado ir além do secundário. Não fora a insistência dos pais e,
principalmente, ter conhecido a Emília, teria saído da escola no final do
12º ano e ingressado no mundo do trabalho. A sua habilidade para reparar
eletrodomésticos, já famosa na aldeia, dava-lhe uma perspetiva simpática de uma
facilitada carreira profissional. Não era muito exigente, isso bastava-lhe. O
futuro, ouvia dizer, era incerto e não era por ter um curso que seria mais
feliz.
Conhecer
a Emília, porém, alterara-lhe um bocadinho os planos. Cheia de vida e presentes
por viver, esta princesa que lhe aparecera transferida de uma outra escola para
a sua turma do 11º ano deixava-o aparvalhado. Olhos meigos, meio asiáticos,
elegante e com palavras assertivas, acompanhadas de um tom doce e sedutor,
punham-lhe a cabeça a andar à roda. Nunca sentira nada assim, já tinha ouvido
falar nisso e, nos romances que era obrigado a ler na escola (que não lia,
apenas os resumos), não faltavam descrições desse absurdo amoroso que agora lhe
parecia menos longínquo. Até tinha começado a gostar de cor de rosa, a cor
favorita da Emília, ele que, até então, só se vestia de preto. O amor é
tramado.
Cedo
começaram a namorar e, por hipnotismo emocional, o Cunha não só fizera o
mestrado como já se tinha inscrito no doutoramento. Não sabia onde isto iria
dar, mas enquanto a Emília o fosse conduzindo e acompanhando nos degraus da
vida, tudo parecia fazer sentido.
Saía
agora, satisfeito, da primeira reunião com os novos orientadores. A sua área
era a da Higiene e Segurança no Trabalho e, nesta fase, mergulhava numa
especialização da qual havia pouca literatura especializada: acidentes
domésticos associados ao gás.
Levava,
além do otimismo, o nome do único autor para aprofundar, JB Nurzhan, o grande
especialista desta área, cujos estudos teriam, obrigatoriamente, de ser
entendidos como ponto de partida para esta sua nova aventura académica. Passou
na biblioteca da universidade e, por sorte, encontrou disponível o único livro
que havia deste autor.
Saiu
para a rua de saco completo e alma composta. Se o futuro era, de facto,
incerto, pelo menos para os dois anos seguintes já tinha com que se entreter.
JB
Nurzhan era um nome completamente novo na sua lista de referências. Soubera
pelos orientadores que nascera no Cazaquistão, que morrera com 43 anos e que
vivera toda a sua vida sob a ditadura soviética, pouco mais.
Da
biblioteca conseguiu trazer "Faces do gás doméstico", que é,
simultaneamente, a biografia de Nurzhan e o inventário de todas as suas
conclusões técnicas.
A
leitura conjunta dos dados biográficos e das suas investigações permitiu-lhe
perceber melhor a sua personalidade.
Ao
viver num país determinado por forças militares (e políticas) intransigentes e
conservadoras, Nurzhan socorreu-se constantemente da criatividade para, não só
iludir as autoridades, como inventar formas mais eficazes de trabalhar, uma vez
que dos avanços do mundo não chegavam ecos à sua realidade. Além do mais, sem
irmãos e tendo crescido numa aldeia isolada, onde as pessoas mais novas, além
dele, eram os seus pais, aprendeu, desde cedo, a ser
autossuficiente.
À
medida que a leitura avançava, mais o Cunha ia sentindo que os paralelos entre
a vida de Nurzhan e a sua se evidenciavam. O nosso estudante sofria de um certo
tipo de autismo que o levara, por conseguinte, a uma vida solitária, não só
porque o mundo social tinha dificuldades em lidar consigo, rejeitando-lhe as
investidas de proximidade, mas também porque as realidades que vivia
interiormente estabeleciam poucos paralelos com o que se passava à sua volta.
Não
fora a Emília que, sem saber, lá o foi ajudando a equilibrar-se e a aceitar os
desafios do mundo e ele já teria desistido de muitos sonhos, consequência
direta da sua já longa coleção de insucessos sociais.
Tal
como ele, Nurzhan era meticuloso e, ao longo da biografia deste, facilmente se
identificou com o rigor perfecionista que caraterizava todas as atividades que
lhe pareciam inquestionavelmente importantes.
No
caso do Cunha, nada havia mais importante que o cumprimento de prazos, pelo que
tudo a isso subjugava. Esta sua inquietação obcecada até tinha bons efeitos
sociais, pois todos os que o rodeavam sabiam que quando ele prometia algo e
indicava um prazo para a sua concretização, só se o mundo acabasse é que tal
não seria cumprido. Ou seja, era alguém em quem se podia confiar e isso, aos
poucos, foi-lhe trazendo simpatias, o que lhe ia tornando a vida um
pouco mais fácil.
Com uma postura virada
para os mais consensuais métodos científicos, Nurzhan recriava, meticulosamente
e a partir do somatório de todas as descrições conseguidas nos processos, os
cenários dos acidentes domésticos com gás, para tentar compreender a realidade,
partindo de todas as potenciais variantes envolvidas. Porém, com Nurzhan, a
obsessão pela segurança limitava-lhe alguns procedimentos.
Em muitos dos seus relatórios,
notou o Cunha, a conclusão deixava em aberto as frentes que não puderam ser
experimentadas, devido à sua inerente perigosidade. Sendo humanista, ele nunca
poria em causa a integridade física da sua equipa, pelo simples "devaneio
intelectual de achar que compreender é mais importante que viver" (palavras
suas).
Foi por se
ter identificado com as preocupações de Nurzhan, que ao Cunha parecia
incompreensível que ele tivesse morrido numa dessas recriações, justamente por desleixo
das medidas de segurança que ele tanto prezava.
Iniciou a segunda
leitura, portanto, com um foco especial, ainda não tanto para entrar na
densidade informativa das conclusões de Nurzhan, mas mais numa tentativa de
encontrar, ao longo da biografia do cientista, indícios que pudessem justificar
a sua morte trágica.
Qual detetive, o Cunha
foi tomando nota de tudo aquilo que lhe pareciam desvios à questão da segurança
e que poderiam ser defeitos de método, justificando que, um dia, um acidente
previsivelmente acontecesse.
Porém, da lista de
episódios que elaborou da biografia do cientista, não houve um único caso de
erro repetido, ou seja, não houve um único percalço que não tivesse sido
corrigido nas recriações seguintes, tal era a natureza obcecada de Nurzhan, não
só pelo perfecionismo na reprodução de cenários, como pela segurança dos
envolvidos.
Terminara a segunda
leitura ainda mais confuso.
Como ainda tinha muito
tempo até à primeira apresentação de trabalhos da tese, decidiu esquecer um
pouco a problemática específica do gás e concentrar-se na inquietante
questão desta morte mal explicada, muito mal explicada.
Nos pensamentos do Cunha,
começavam a nascer sensações estranhas, ideias cruzadas que o faziam desconfiar
da morte acidental de Nurzhan. As ditaduras sempre tiveram como metodologia
fazer desaparecer personalidades inconvenientes. Teria Nurzhan chegado a alguma
conclusão não autorizada?
Entre
consultas virtuais e pesquisas em referências documentais conseguidas, com
muito esforço, na universidade onde fazia o doutoramento, o Cunha tentou, em
primeira instância, munir-se de informação que lhe permitisse compreender a
morte de Nurzhan, acreditando que teria de aprofundar os contextos associados.
Não
tendo vivido nunca em ditadura, sentia dificuldade em compreender uma realidade
com ainda mais proibições do que aquelas que ele já sentia.
Investigou.
Investigou o regime soviético, mas, por espanto temático, acabou por investigar
outras ditaduras e mesmo estabelecer paralelos que justificassem o conceito.
Em
todos os regimes, concluía, havia proibições, mesmo nos democráticos, os menos
repressivos de todos.
Há,
contudo (e apesar dos inúmeros casos nas democracias de corrupção identificados
e punidos - e outros tantos por identificar e punir), uma grande distância -
que faz toda a diferença - entre o sistema democrático e o ditatorial. Enquanto este é arbitrário e auto-impune, aquele é, por definição, universal e
auto-avaliador, ou seja, as leis existem para serem aplicadas a todos e vão
evoluindo de acordo com o debate público gerado à sua volta ao longo dos
tempos. O facto de ser universal, gera uma certa solidariedade da desgraça,
que sempre suaviza a limitação.
Do
que lera, sobre esta e sobre as ditaduras em geral, conseguia, mais uma vez,
identificar-se com Nurzhan, cuja aldeia natal quase desaparecera aquando do
episódio da Fome de 1930-33, em que, por impune gestão soviética dos recursos,
quase 2 milhões de cazaquistaneses perderam a vida.
Ao
longo da vida, o Cunha, dada a sua incapacidade em lidar com certos imprevistos
do mundo, sempre fora alvo de proibições não oficiais, limitações que lhe
chegavam como herança de comportamentos (a educação do bom menino), mas e
sobretudo pelo acumular de experiências unilaterais. Na sua memória não
faltavam momentos em que a reciprocidade social do seu comportamento amistoso
não fora a esperada. Depois de tantas investidas, iniciativas e intervenções
suas a receber, como estímulo, olhares silenciosos e frios, cruéis até, sentia,
com alguma tristeza e desânimo, que havia redes de proibições personalizadas,
uma forma de limar as arestas finais. Podemos todos ser livremente únicos,
ainda que só tenhamos autorização para o ser dentro dos limites definidos.
A
dificuldade que sentiu na universidade quando referiu que queria ir mais fundo
na investigação à morte de Nurzhan, deixou-o um pouco perplexo. Sendo um
organismo universitário, o estudo da verdade (independentemente do tema) devia
ser sempre incentivado. Porém desta vez quando, na biblioteca da universidade,
informou a funcionária que queria informação sobre o período soviético no
Cazaquistão, pela primeira vez viu o biliotecário-mor, que veio dos escombros saber quem ele era e porque queria tal informação. Disse-lhe que eram
documentos dos quais havia pouquíssimas cópias pelo mundo e, por isso, só os
emprestavam a pessoas "credíveis". Que desculpa mais esfarrapada,
pensou o Cunha, se há poucos exemplares dos originais, façam fotocópias e
emprestem as fotocópias. Aqui havia, claramente, um interesse em saber, mais do
que de quem se tratava, o motivo da requisição.
Lá
os levou e, apreensivo com tanta cautela, decidiu passar tudo a pente fino,
tendo como objetivo principal perceber qual fora, afinal, a recriação que levara
Nurzhan à morte.
Reparou
que quase todos os documentos (como as certidões de óbito), no Cazaquistão,
eram assinados por nativos e representantes soviéticos, normalmente de
nacionalidade russa. Raros eram os documentos onde só os russos assinavam e não
encontrou absolutamente nenhum assinado só por cazaquistaneses.
Na certidão de óbito de Nurzhan, ao contrário da maioria das outras com que se
cruzou, apenas assinaturas russas legitimavam o documento.
Tentou,
no âmbito desta descoberta, perceber quais eram os que só tinham assinaturas
russas, mas esbarrou em lacunas documentais que lhe impediam a criação de um
padrão explicativo.
Tendo-se
apercebido que, por já se encontrar em democracia, o Cazaquistão disponibilizava
agora muita documentação referente ao regime anterior, decidiu saltar a
universidade e ir diretamente à embaixada do país. Também aqui, quando disse ao
que ia, sentiu olhares incisivos sobre si, mas também de lá trouxe o que queria
e seguiu caminho.
O
único padrão diferenciador que conseguiu delinear entre os documentos assinados
só pelo regime soviético, era a quase inexistente informação adicional. Se para
os outros já havia pouca, sobre estes não havia absolutamente nada. Adensava-se
o mistério da morte de Nurzhan.
Curioso
por natureza, o Cunha achava, com tudo o que ia percebendo, que estava no caminho certo. Tinha mesmo de se concentrar no acidente que ceifara a vida
de Nurzhan. Que acidente teria ele recriado?
Pelo
conhecimento que, no entretanto, assimilara, sabia das inúmeras possibilidades
à disposição dos ditadores para silenciar os cidadãos, como a coação familiar
(muito apreciada pelos representantes do regime no Cazaquistão). Ou seja, caso
as suas conclusões fossem demasiado perigosas para o domínio público, não seria
necessário eliminá-lo. No entanto ele desapareceu e tudo indicava, pela falta
de transparência, intencionalidade na sua morte. Desapareceu ele e tudo o que
pudesse haver relacionado com a recriação fatal.
Devemos
estar a falar de níveis de segurança elevados, pensava o Cunha, espicaçado pela
curiosidade.
De
facto, excetuando o nome da acidentada que Nurzhan estudou, Yasia Aset, e algumas notas soltas, nada
mais havia para encher contexto.
Infelizmente,
o secretismo à volta do regime soviético não desapareceu totalmente após a sua queda,
sendo que muita informação chegou mesmo a ser dividida e levada para locais
distantes, para evitar ser consultada como um todo - já para não falar da que
terá sido destruída.
Incomodado
por tantos obstáculos, o Cunha decidiu fazer mesmo uma investigação a fundo.
Afinal quem era Yasia Aset e por que razão seria a sua identidade tão perigosa
ao ponto de ser alvo desse procedimento de omissão informativa? E que acidente
foi esse, do qual pouco se sabia, cuja recriação levara também à morte de
Nurzhan, quase como um efeito em cadeia?
Explicou
aos pais e à Emília que pretendia interromper a elaboração da tese, pois tinha
de ir ao fundo da questão. Conhecendo-o e sentindo a sua convicção, eles
perceberam que pouco havia a fazer a não ser apoiá-lo e deixá-lo ir.
Andou
dois anos em viagem, de biblioteca em biblioteca, de arquivo em arquivo,
entrevistas, encontros, gravações, fotografias, citações, tudo o que pudesse
ser recolhido sobre Yasia Aset motivou, nesse período, a sua existência.
As informações que, uma vez reunidas, começavam a fazer sentido na sua cabeça iam muito além do que pensara inicialmente e esticavam os limites da sua imaginação.
Regressou
a casa. Informou o círculo mais próximo que, apesar do regresso, pretendia
continuar isolado do mundo enquanto não conseguisse traçar uma linha lógica de
pensamento que ligasse toda aquela informação solta.
Passados
alguns meses reuniu os pais e a Emília, convidou o orientador da universidade,
com quem tinha uma relação de grande proximidade, e ainda um amigo de longa
data.
"Pedi
que nos reuníssemos pois preciso que me ouçam, não só para me dizerem se as
minhas conclusões fazem algum sentido, como para ouvir as vossas sugestões sobre
o que devo realmente fazer com tudo isto.
Digo, desde já, que tenho comigo as provas que atestam as minhas palavras e que depois
vos facultarei para consulta.
Ora
bem, comecemos pelo início. Quando a URSS lançou, com grande espampanância e
regozijo, o Sputnik 1, no final da década de 1950, tudo não passou de uma
manobra de diversão.
Ao
mesmo tempo, numa base distante e ultrassecreta, nas margens do Mar de Ojotsk,
era lançada a Gani 1, nave com tecnologia surpreendentemente avançada para a
época, em direção a uma das luas de Júpiter, Ganimedes, a única lua de todo o
sistema solar com campo magnético próprio. Nessa nave ia um grupo de 5
astronautas, entre os quais Yasia Aset, a vítima fatal do suposto acidente
doméstico de gás que Nurzhan investigou e que, num paralelo trágico, também o
faria desaparecer.
Não
consegui o rasto de nenhum dos outros astronautas, apenas que regressaram à
Terra em janeiro de 1980.
Dos
30 anos que estiveram fora, sei que 10 foram passados nas viagens de ida e
volta, concluindo, portanto, que passaram 20 anos em Ganimedes.
Consegui reunir páginas dispersas de um diário de Yasia, onde esta se refere detalhadamente a alguns locais, bem como a algumas características dos ganimes, os nativos desta lua de Júpiter.
Apaixonadamente,
Yasia ocupa grande parte dos seus escritos a descrever o que me parece ser a única cidade ganime, Colipto. Segundo os
seus relatos, a cidade terá sido construída sob o manto de gelo que cobre quase toda esta lua, equilibrada termicamente,
através de um processo engenhoso, com o calor intenso do interior do planeta.
O
efeito da luz exterior na camada de gelo que cobre toda a cidade dá-lhe, nas suas
descrições, um tom permanentemente roxo que, ao incidir nos edifícios altos,
espaçados e arredondados de Colipto, cria uma atmosfera sofisticada e sedutora.
Se
Yasia, por um lado, considera que os ganimes são pouco solidários entre eles,
noutros aspetos acha-os incrivelmente avançados.
Dos
relatos de Yasia transparece o fascínio que ela sentiu pela cidade. Consegue-se
sentir, nas suas palavras, o agradável choque que lhe provocou o contraste
entre o rude e primitivo manto de gelo que cobre a maior parte da superfície de
Ganimedes e, uma vez atravessada a passagem para o interior, a sofisticada
arquitetura futurista da cidade, que ela acentua descrevendo a elegância dos
edifícios, bem como as complexas redes de vias internas por onde circulam os
peculiares veículos de que os seus habitantes dispõem.
Ter
convivido com os ganimes durante duas décadas permitiu-lhe compreender muitos
meandros desta civilização, pelo que, aqui e ali, notas nos apontamentos de
Yasia dão conta de uma realidade singular. Se, por um lado, esta sociedade
evoluíra pouco em valores como a solidariedade e a colaboração genuína (“a
indiferença perante o outro parece determinar rotinas muito enraizadas no
quotidiano, ao ponto de, não raras vezes, ter presenciado situações de espanto
de um ganime pelo sucesso alheio, habituados que estão a subestimar a
importância dos seus semelhantes, como se cada indivíduo vivesse sozinho e,
portanto, só pudesse contar consigo próprio”), por outro, avanços tecnológicos
deixam-nos ao nível do cinema mudo e a preto e branco.
Sobre
esta tecnologia foi difícil fazer o puzzle, pois, ao contrário das descrições
de Colipto que estavam todas reunidas num só pacote na biblioteca pública de
Dushanbe (a capital do Tajiquistão), os textos produzidos por Yasia sobre a
tecnologia ganime encontravam-se espalhados por 5 arquivos diferentes, o que me
despertou, logo aí, um alerta sobre a sua importância.
Já
que o meu objetivo aqui convosco não é o de aprofundar tecnicamente o apanhado
que fiz - e as conclusões a que cheguei - dos escritos dispersos de Yasia, não
entrarei em detalhes demasiado específicos, apenas vos resumo o essencial, o
suficiente para que se possam maravilhar com esta tecnologia absolutamente
revolucionária, porque facilmente acessível a todos.
Tendo
aprofundado a capacidade da vibração produzida pelos sons para movimentar
objetos, os ganimes (especula Yasia das informações que recolheu) foram
desenvolvendo um aparelho fonador capaz de produzir som numa frequência
específica. Crê ela que nem sempre fora assim, mas que, com o passar das
gerações, foram sendo escolhidos para a renovação geracional apenas os que se
foram aproximando cada vez mais dessa capacidade. Convém referir que em
Ganimedes só há reprodução (gerida por uma entidade específica) quando é
necessário repor.
A
frequência sonora específica que os ganimes conseguem produzir, sem esforço,
permiti-lhes gerar o combustível suficiente para, através de uma alucinadamente
avançada tecnologia, movimentar qualquer tipo de objeto, independentemente das
dimensões. Ou seja, com o equipamento certo, cada ganime é energeticamente
autossuficiente.
Tendo
em conta que o controlo energético era uma das mais autoritárias fontes de
receita soviéticas, a revelação de uma alternativa disponível a todos e de
gestão individual, não controlada pelo regime, não seria, acredito e certamente
concordais comigo, desejada, sendo até vista como uma subversão do sistema.
A
independência individual e a liberdade de agir (que uma tecnologia desta natureza permitiria, se fosse desenvolvida), por conceito, são inimigas de
qualquer gestão ditatorial. Acredito portanto que, ao tomar conhecimento dos
relatórios de Yasia, os soviéticos temessem que, não só uma gestão individual
de recursos, como a simples referência a um novo combustível, potencialmente gratuito,
pudessem deteriorar o conceito piramidal em que toda a União Soviética se
baseava.
As
ondas que um som gera, não sei se estão familiarizados, permite, em casos
clinicamente testados e se afinada por certas frequências, movimentar objetos.
O
nosso domínio deste conhecimento, porém, nunca se alargou aos universos da sua
aplicação e isto, para vos dizer a verdade, nunca percebi porquê. Reparem,
trata-se de uma energia de fonte limpa e inesgotável e que, ao contrário das
que usamos, não põe em risco nenhuma frente ambiental.
Convido-vos, e por sequência inevitável do pensamento conspirador, a decidir comigo se
existe alguma lógica no cozinhar de pontas soltas que vos apresento a
seguir.
Acidentalmente
nas minhas recolhas documentais, tive acesso a uma troca de correspondência, da
qual se percebe que em 1985, aquando da Cimeira Energética Mundial (CEM85), nas
Ilhas Cook, as grandes famílias, com fortunas geradas por este comércio transnacional,
terão ficado a saber, em encontros privados e à margem da cimeira, das
descobertas de Yasia e terão decidido que tal assunto não poderia nunca
tornar-se domínio público.
Dessa
CEM85 há algumas atas, a que também consegui aceder, que me permitem
estabelecer um padrão de comportamento entre os intervenientes, relativo às
suas estratégias de negociação. Não são as atas desses encontros secretos, mas
dos públicos. Porém, como os intervenientes são os mesmos, deduzo que a sua
forma de interagir não seja muito diferente.
Depois
de cruzar bastante informação, concluo que, em nome de uma certa estabilidade,
os soviéticos se terão comprometido a eliminar todas as testemunhas dessa
revolucionária tecnologia sónica.
Porém,
conhecendo as formas de subversão usadas pela União Soviética, dificilmente
terão cumprido a sua parte do acordo, acreditando que um dia a poderiam usar
em seu favor. A prova desta minha suspeita concretiza-se no facto de eu as ter
encontrado, ainda que dispersas, ainda que danificadas, mas não destruídas.
Um
documento atesta a razão de Nurzhan ter sido destacado para este caso, cito:
"cientista funcionário regularmente ágil nos procedimentos" e mais
adiante "Negligência Humana deverá ser a conclusão". Ou
seja, queriam rapidez e eficácia e que Nurzhan definisse tudo como um acidente
doméstico, a sua especialidade.
Do
perfil que consegui traçar de Nurzhan, nomeadamente da sua paixão pelo método
científico, duvido que este tenha cedido às exigências do regime, mal se
apercebeu da inexistência de tal acidente. Terá, portanto, tido o mesmo
tratamento de Yasia. Desapareceram os dois.
Acho
que já vos falei do mais importante sobre este caso duplo de silenciamento
radical (Yasia, por testemunhar o impensável, Nurzhan por se recusar a encobrir o seu assassinato). Contei-vos da dificuldade que, inesperadamente, fui tendo quando
tentei aprofundar o tema e de que em quase todos os momentos me senti observado
de forma inquisidora.
Não
sei se estou a entrar em paranoia, mas tenho-me apercebido de que anda sempre
alguém nas minhas imediações.
Desde
que regressei que tenho tido a presença diurna regular de veículos discretos,
sempre diferentes, cores diferentes, modelos diferentes, numa dança muito bem
coordenada.
Quando
comecei a reparar nesta recorrência, dei-me ao trabalho de passar, à noite, no
local onde o carro suspeito costuma estacionar durante o dia quando estou em
casa e encontrei, por várias vezes, no chão das imediações do carro, o mesmo
tipo de pacote de açúcar rasgado, rasgado da mesma forma, a mesma marca,
comprado, muito possivelmente, no mesmo local. O mesmo condutor em veículos diferentes.
Para
que não me achem louco, peço-vos que me acompanhem neste teste de confirmação.
Se,
neste momento, espreitarem pelas cortinas da janela verão um carro (que
hoje é azul escuro) estacionado a uns 50 metros à direita, em frente ao
portão verde da garagem do nosso vizinho Lucas.
Eu
agora vou sair de casa, desço a rua e subo depois pelo lado do jardim, vou a
pé. Depois me dirão se, por coincidência do destino, o dito carro, que ali se
encontra imóvel desde manhã cedo, arrancará ou não em marcha lenta, novamente
por grande coincidência, na mesma direção que eu.
Então até
já."
(o
carro arrancou...)

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