A citação
Dos Igfon restava, em linhagem direta, apenas uma pessoa. A última
geração fora tragicamente vítima de um surto de aeropolix, uma pequena entidade
monocelular inofensiva à biologia lunar, mas devastadora nos seres humanos.
O virar do século coincidiu com a abertura de uma nova galeria
habitacional no interior da Lua. Um complexo e eficaz sistema de túneis ligava
as diferentes galerias criando, através de uma única entrada no subsolo, uma rede
quase perfeita de circulação de produtos e pessoas.
Após anos de insistência e fervor entusiasta das novas gerações, a linha
dura da tradicional família Igfon acabou por ceder e até esticar os limites da
decisão. Não só iam adquirir uma habitação lunar, como iam mesmo mudar-se para
lá.
Mais de 3 séculos de vida e boas práticas no interior da Lua garantiam
aos responsáveis da família a segurança de que tal opção necessitava. A
coerência harmónica da vida na Terra estava por um fio. Dividida em países e
subdividida até à exaustão por poderes intermédios, os seres humanos recortavam
a noção existencial humana em grupelhos que, forçados a esta artificial
especialização, despedaçavam qualquer possibilidade de uma consciência coletiva
e solidária.
As possibilidades tecnológicas de locomoção espacial permitiam chegar ao
impensável e “cada vez mais longe” parecia ser o desejado pela maioria dos que,
aos poucos, iam desistindo do projeto terrestre, ressacados pela extensa biografia
dos insucessos sociais da humanidade.
Viver fora do sistema solar tornara-se agora a grande tendência da
habitação, pelo que a Lua ficava reservada aos que ainda mantinham algum
estatuto hierárquico. As grandes famílias compravam a Lua, que já ninguém
queria, e os Igfon acompanharam esta onda.
Ao contrário de outros destinos, era dispendioso morar no interior da
Lua. A quantidade de investimentos que cada novo habitante teria de fazer para
garantir a sua qualidade de vida desmotivava o mais comum dos cidadãos, pelo
que só os mais abastados conseguiam percorrer esse caminho.
Uma das questões prioritárias no subsolo lunar era a pouco diversificada
mas perturbadora vida autóctone. Os materiais usados na construção tinham de
vir de Urano, onde se encontrava a única combinação físico-química conhecida
que permitia isolar as moradias dos efeitos nefastos dos parasitas lunares.
Quando os Igfon se mudaram, a família era composta por 8 elementos. Os
anciãos acreditavam que a proximidade às outras famílias ancestrais permitiria
cruzar descendentes de forma a manter, controlar e quiçá fundir de forma
duradoira as suas árvores genealógicas.
A filha mais velha dos Igfon, Carrendi, embaixadora da família nos
extremos do universo visitado, era a única que não tinha propriamente um
endereço. A sua vida (que ela adorava) consistia em viver em diferentes corpos
celestes por estadias nunca superiores a dois ou três meses. Durante esses
períodos supervisionava os negócios da família, baseados na comercialização do
conhecimento, e tentava estabelecer novas parcerias, atualizadas ao que o
inesgotável quadro cósmico ia constantemente apresentando como desafios.
Alimentando uma tradição intemporal, uma vez a cada 2 anos a família
Igfon reunia-se no seu gran-palácio, agora no underground lunar. Na última
dessas reuniões, onde só ela não esteve presente, uma explosão celeste próxima
faria tremer o complexo onde se situava o edifício, criando fissuras fatais que
permitiram aos aeropolix contaminar as bolsas de ar respiráveis. Não fora a
impossibilidade de agenda que a impediu de estar presente, Carrendi teria tido
a mesma sorte que os seus familiares e os Igfon não passariam hoje de apenas mais
um nome a recordar na chamada H(V)U, a História (Verdadeiramente) Universal.
Dez anos volvidos à tragédia, Carrendi casava com o único filho herdeiro
de uma outra família residente na Lua, no que parecia uma solução empresarial para
os problemas de ambas as linhagens. Se o apelido do pretendente contribuía para
o prestígio de qualquer transação, atraindo investidores de grande peso, os
Igfon, na figura de Carrendi, asseguravam a experiência (e a disponibilidade
financeira) que os novos tempos exigiam. Parecia uma combinação perfeita.
Carrendi, apesar de concordar com o efeito negociado desta união, queria
mais. Não pretendia unir-se a alguém que se resumisse a uma assinatura documental,
queria amizade, companheirismo, paixão, romance, amor. Lúcida, mas extremamente
sensível, Carrendi só concordou com este projeto de união interfamiliar porque
o noivo se lhe afigurava como uma pessoa gentil, carinhosa, culta e, muito
importante na sua hierarquia axiológica, bom ouvinte.
Varínio WordsKroz era especialista em literatura ocultista. Professor
catedrático de valor reconhecido, dava palestras um pouco por todo o universo. Contudo,
na ausência de uma estratégia atualizada de carreira, agravada por rituais
quotidianos dispendiosos, o rendimento profissional era tão insignificante que
ele via a sua profissão mais como um hobby, sendo financiado por uma avultada mesada
familiar.
Tal como a sua independência financeira, Varínio era herdeiro de um
império estagnado. Conhecidos pela capacidade de selecionar bons investimentos,
os WordsKroz viviam há bastante tempo dos rendimentos que essas opções lhes tinham trazido.
Porém, a falta de novas (e frutíferas) iniciativas financeiras fazia
adivinhar um futuro sombrio para o qual a sabedoria contemporânea e dinâmica de
Carrendi era vista como uma solução eficaz e simultaneamente elegante.
Os contactos foram feitos, o futuro casal começou a encontrar-se e Carrendi
apaixonou-se. Varínio correspondia aos seus anseios de encontrar, mais do que
um investidor, um companheiro com quem pudesse desabafar, chorar e rir, sem ter
de atender a limites, sem ter de ser formal ou estar à defensiva, um verdadeiro
amigo para a vida.
O grupo mais íntimo de Carrendi, contudo, não simpatizava com Varínio.
Achavam-no demasiadamente bajulador, demasiadamente doce e demasiadamente
disponível, o que, na sua opinião, se traduzia nas mais elementares
caraterísticas de uma personalidade interesseira, calculista e muito pouco
apaixonada.
Carrendi, apesar dos alertas, acabou mesmo por casar e a felicidade
daqueles primeiros tempos fizeram-na acreditar que os avisos dos seus amigos eram
apenas receios (infundados) de a perder, um ciúme antecipado. Ela ripostava que
se eles o conhecessem como ela, se lhe dessem uma oportunidade (o que a
personalidade reservada de Varínio impedia de forma imediata) certamente
perceberiam que a emoção dele era verdadeira e honesta. A sua convicção era
inabalável.
O novo casal decidiu então viver no palácio dos Igfon, mas tendo em conta
o desastre e os traumas a ele associados, contrataram um arquiteto que, num
genial processo cosmético de fusão entre a tradição e a inovação, conseguiu
manter a estrutura do palácio, renovando tudo o resto.
Nesse processo de reconstrução foi necessário fazer novas fundações e
foi, justamente, num desses momentos que foi aberto um alçapão para um
inesperado túnel já existente. Foi inesperado porque ao contrário de todos os
outros, previamente assinalados, este não constava do plano geral da
colonização sublunar.
Prontamente Varínio ofereceu-se para tratar do assunto. Após dois breves
telefonemas, logo uma equipa de funcionários do Condómino Lunar (o nome do programa
e simultaneamente do instituto que gere a colonização sublunar) se
disponibilizou para, em menos de uma hora, lhes bater à porta para tomar nota
da ocorrência.
Uma equipa, demasiadamente bem vestida, de cinco elementos desceu então
pela abertura e, após algumas horas, regressou com o desenho das linhas de
túneis descobertas que, afinal, se ligavam a outras já registadas.
O responsável pela equipa explicou então que nos primeiros tempos do
Condómino Lunar, muitos túneis foram construídos desordenamente, pelo que
apesar de quase todos os percursos estarem mapeados, ainda se descobriam
alguns, como aquele, que falhava nos registos. Este, acrescentou, até estava a
ser usado por uma empresa de armazenamento de minerais, só não constava nos
trilhos oficiais, o que agora ficaria, definitivamente, resolvido.
Dali a poucos dias, um novo mapa interno da Lua seria tornado público, já
com esta atualização.
A construção do palácio continuou, desviando imediatamente a atenção do
casal para os detalhes do processo, pelo que o assunto dos novos túneis ficou
esquecido e arrumado.
Enquanto isso, com isso e talvez também por isso, Carrendi e Varínio iam
consolidando a sua paixão. Com aquela facilidade de cedências que o amor
alimenta, o projeto da construção fluía combinando o gosto clássico de Varínio
com as indicações arty de Carrendi.
Tetos brancos com vigas de madeira escura predominavam por quase todas
as divisões, assim contribuía Varínio com um cunho visual muito ligado à sua
própria tradição familiar. O facto de ser cada divisão de uma cor diferente,
bem como a multiplicidade de néons que, de forma inteligente, se ajustavam à
intensidade desejada eram a contribuição de Carrendi.
Por consenso decidiram aderir às novas tendências do mobiliário mutante.
Graças a estes equipamentos high-tech apenas precisaram de adquirir uma
determinada quantidade de matéria. Esta mesma reformula-se por instrução,
podendo a sua forma mudar sempre que para tal for reinstruída, por exemplo uma
mesa pode-se transformar temporariamente numa cama, uma estante pode passar a ser
porta ou mesmo frigorífico.
Fomos sendo reorganizados por ideologias progressistas, teorias bonitas e
supostamente bem-intencionadas como o capitalismo, o socialismo, o liberalismo
e, principalmente, a meritocracia (apregoadas como terrenos férteis para a
afirmação do potencial humano), que nunca passaram de intenções vazias, pois nunca
foram realmente criadas as condições para que os seus benefícios se
generalizassem.
Metaforicamente poderíamos dizer que, se por um lado nos é permitido
aceder a um número infindável de portas (a chamada embriaguez da diversidade), só
de vez em quando, para evitar ser demasiado flagrante, é que o sistema deixa
alguma aberta.
Depois, quando alguém passa por uma dessas raras portas abertas, o caso é
assinalado mediaticamente, mas, num genial golpe de propaganda, alimenta-se a
noção de que o sistema é bom e altruista, já que quem é sobrevalorizado nesse
elogio ao sucesso não é a máquina social, mas o indivíduo.
Esta aparente prova de um sistema justo tem, no reverso da medalha, a desculpabilização
pelo fracasso massificado. Ou seja, assim como o sistema parece não querer para
si os louros do sucesso alheio, elogiando a heroica façanha do indivíduo que
consegue, sozinho, pelas suas próprias capacidades, atingir o seu tão famoso
potencial, também não assume qualquer responsabilidade pelos generalizados
casos de insucesso, convencendo cada indivíduo falhado de que é o único culpado
pelo seu próprio fracasso.
Os comentadores aceitam cada vez mais a divisão cunhada, ainda no séc XXI,
entre o SaberGeral e o SaberRestrito, subdividindo-se o primeiro ainda entre
InformaçãoAutorizada e InformaçãoConspiradora.
No SaberGeral, aquele a que a quase totalidade da população tem acesso,
no campo da InformaçãoAutorizada, são injetadas no domínio público as
informações que o status quo considera ou inevitáveis ou inofensivas. Ao mesmo
tempo são, propositadamente, deixadas algumas pontas soltas, com o objetivo de
dar assunto e tema às mentes mais irrequietas, alimentando-as com controladas,
aparentemente secretas, brechas nos sistemas de segurança, gerando as mais
diversas, mas inofensivas (porque ostensivamente desacreditadas) teorias da
conspiração. Tudo é controlado.
Ao nível do SaberRestrito salientam-se, entre outros aspetos, a diferença
entre este pequeno grupo dos mais abastados e todos os outros. No caso da saúde -
não fora o Homem obcecado pela imortalidade - a esperança média de vida marca
esse abismo social. Apesar de, com a ajuda de próteses cada vez mais eficazes,
já termos uma esperança de vida a rondar os 180 anos, nas famílias mais
poderosas ninguém vive menos de 4 séculos.
Esta interminável esperança de vida levou, por um lado, a que o casal
deixasse para muito depois o projeto descendência, por outro, a que Carrendi
concretizasse um dos seus mais íntimos desejos domésticos: ter um cão.
Lord Crateris ou Lobi, um cão de raça Rottriever (um cruzamento entre a
presença poderosa de um Rottweiler e a emotividade de um Golden Retriever)
satisfazia as necessidades maternais de Carrendi, enquanto, aos poucos, ia
conquistando Varínio.
Tendo sido adotado após um terrível acidente que durante um tempo o
impedia sequer de se alimentar autonomamente, Lobi foi tratado pessoalmente por
Carrendi como um filho, os melhores veterinários, as melhores terapias,
conforto absoluto e uma atenção carinhosa constante a roçar a obsessão
emocional. Quando recuperou a sua dignidade, Lobi passou a acompanhar
constantemente a sua protetora, em viagens, em reuniões de negócios, em
momentos de lazer e, nos períodos intermédios, no palácio.
Apesar da ginástica de agendas, nem sempre o casal conseguia estar em
simultâneo em casa, ainda assim, todos os anos passavam muitas temporadas
juntos.
Uma certa vez em que Varínio viajara em trabalho até ao planeta
Karvatun-Lap, na dimensão imóvel do universo, Carrendi acordou sozinha.
- Lobi, Lord Crateris, onde estás, meu menino? Lobi, Lobi, vem cá.
Em vão.
Lobi dormia sempre na cama a seus pés. Sempre, onde quer que ela
estivesse. As únicas vezes em que, por coincidência, o seu despertar calhava
num momento em que ele se ausentara para comer ou ir ao wc, chamá-lo implicava
sempre uma resposta sua, um latido apaziguador que lhe confirmava a presença e
voltava a trazer sentido à vida.
Desta vez, porém, só silêncio lhe chegou como resposta.
Carrendi levantou-se e chamou por ele por todas as divisões e logo o mordomo reuniu um grupo de funcionários do palácio
para o procurar. Dum extremo do edifício um funcionário trouxe a
informação de o ter ouvido. Vinha exatamente do mesmo túnel que fora descoberto
aquando da reconstrução do palácio.
Carrendi contactou Varínio e, novamente, através dele uma nova equipa de
funcionários do Condómino Lunar se apresentou para reabrir o alçapão e
averiguar a questão dos latidos.
Carrendi exigiu ir também, não conseguiria ficar pacificamente à espera,
tinha de o ajudar a encontrar, tinha de os acompanhar.
Assim foi. Desceu com eles.
Os primeiros metros do túnel não tinham iluminação, só as lanternas
permitiam, de forma fragmentada, construir o puzzle do espaço.
Carrendi, por questões de segurança, ia na retaguarda do grupo, com cinco
robustos funcionários a abrir caminho na escuridão.
- Não podem andar mais depressa?
Ansiosa, Carrendi impacientava-se com o ritmo exageradamente lento em que
a expedição se movia.
Estupefacta com a forma evidente como lhe ignoravam os apelos, decidiu
observar os ditos funcionários com quem se encontrava e, de repente, começou a
ficar um pouco apreensiva pela sua
vulnerabilidade. Apercebeu-se que o responsável do grupo, o que ia à
frente, virava inúmeras vezes em cruzamentos de túneis, mas fazia-o sem qualquer
hesitação, como se conhecesse o percurso.
Ouviu-se então, ao longe, o ladrar de Lobi e Carrendi logo esqueceu a sua
preocupação recente.
O funcionário da frente virou-se então e comentou que estavam no caminho
certo.
- Logo, logo encontramo-lo, deve-se ter perdido.
Apesar da alegria e do alívio de ter ouvido os latidos do seu adorado
Lobi, Carrendi não pôde deixar de reparar no comportamento dos funcionários
quando o responsável falou.
O túnel onde se encontravam já tinha alguma luz. Luzes neon avermelhadas
permitiam-lhe perceber os limites do espaço e observar com mais qualidade o
grupo que acompanhava. Lembrou-se que da primeira vez os achara, tal como
agora, demasiadamente bem vestidos para funcionários de túneis.
Quando o da frente falou, Carrendi notou, assustada, que os funcionários sorriram
uns para os outros de forma cúmplice, mas discreta.
Chegaram a uma porta, atrás da qual, inequivocamente, Lobi ladrara de
novo. Era uma porta antiga, toda em metal trabalhado e absolutamente
incompreensível naquele local. Assim o observava Carrendi, num turbilhão de
pensamentos onde, acima de qualquer outra, a ideia de abraçar o seu menino
parecia lavar todas as sombras.
- O resto se verá, se calhar até é só paranoia minha.
A porta abriu-se e Carrendi furou entre o grupo.
Ao fundo de uma sala oval, o seu marido segurava Lobi pela trela.
Carrendi fica estática. Olha sem ver.
A narrativa que construira em que um curioso Lobi se teria aventurado nos
túneis sublunares desfazia-se apenas na negação de si própria, uma vez que a
perplexidade assustadora daquela visão lhe esvaziava a
consciência num tsunami de dúvidas e pânicos, não lhe permitindo qualquer tipo
de reconstrução do mundo.
No teto da sala cruzavam-se e realinhavam-se tubos metálicos, de onde saíam
pequenas nuvens de vapor, enquanto que, no chão, um pentagrama contornado a
velas circundava uma marquesa com fivelas e cintos. Um zumbido suave descia
sobre a sala.
Na ponta extrema do pentagrama Varínio e Lobi olhavam-na. Este ladrava e tentava
escapar da trela para ir ao seu encontro, apenas impedido pela mão firme
daquele, que de pé e vestido com um manto azul, a olhava com um sorriso
indefinido.
Carrendi, incapaz de injetar lógica no que via, petrificou perante o
arrebatamento da incompreensão.
Sentiu então uma mão vigorosa a segurar-lhe o pescoço e a picada de uma
seringa ditou-lhe uma quase imediata dormência física que a fez perder o corpo
e tombar nos braços de dois funcionários.
Foi deitada e amarrada à marquesa e esta foi inclinada de forma a posicioná-la
numa diagonal específica, estudada ao detalhe, bem no centro do pentagrama.
Os falsos funcionários, agora sem as batas oficiais do Comdómino Lunar, afastaram-se
e sentaram-se em cadeiras alinhadas à volta do pentagrama.
Na posição em que se encontrava, Carrendi conseguia ver alguns dos quadros
terríveis que decoravam a sala. O tema era semelhante na sua maioria, um
pentagrama com alguém a ser sacrificado, nuns eram mulheres, noutros homens. A
fraca luminosidade não permitia observar com clareza, mas Carrendi conseguiu
fixar os olhos num e perceber que do corpo mutilado da sacrificada saía
vitoriosa uma forma demoníaca.
Lobi há muito deixara de ladrar, anestesiado, e Varínio aproximava-se
agora de Carrendi.
- O efeito do que te injetámos só afeta a capacidade de comandar o corpo
até certo ponto, continuas a ouvir, a cheirar, a ver e, principalmente, a
pensar.
Ainda temos duas horas e picos até ao momento certo, por isso, faço-te
companhia.
Casámo-nos por várias razões.
Primeiro, a sobrevivência das nossas famílias dependia da união dos
nossos patrimónios.
Depois, até ao alinhamento celeste específico que procurávamos e que acontecerá em instantes, ainda faltavam uns anos, por isso, eu precisava de companhia,
tu precisavas de companhia. Foi muito agradável.
Finalmente, tu não sabes, mas a tua família existe desde que há humanos na Terra, o que te faz portadora de uma herança oculta capaz
de alterar para sempre o nosso conceito de humanidade, bastando para tal que te
troquemos por uma outra entidade que muito o merece.
O teu sacrifício é um mal menor, uma insignificância efémera perante o
poder que se avizinha e que contigo libertaremos.
Carrendi, enquanto esperamos faço-te a cronologia dos momentos que nos
trazem aqui.
Há cerca de 2 milénios, uma antepassada tua, a condessa Solposta Igfon
escreveu uma carta ao marido, o conde Ferronol Igfon, sobre uma descoberta que
fizera numa das suas viagens.
De acordo com a carta, através de um médium ela terá contactado o
espírito do fundador da família Igfon, Alvo Igfon, um dos 12 filhos de Manu e, portanto, fundador de uma das 12 primeiras linhagens da raça humana.
Toda a extensa carta é um documento histórico valiosíssimo sobre o início
dos Igfon e que podemos dividir em duas secções, numa ela reproduz,
detalhadamente, toda a conversa que teve com Alvo Igfon, na outra ela
acrescenta informações que confirmam a mesma conversa.
Uma das confirmações determinantes é o pacto feito por Alvo Igfon com os
Indigo, os governantes do mundo espiritual. Alvo ganhava longevidade e sucesso plurigeracional
para toda a sua descendência e, em troca, no sangue da sua linhagem ficaria aprisionado,
de forma inconsciente, um demónio condenado. O demónio alvo desta condenação foi
Al-Aal, filha da deusa Alecto e do deus Baal.
Solposta Igfon conseguiu ainda deitar a mão a um documento, cuja
localização lhe foi dada pelo espírito de Alvo Igfon, com a promessa de o
destruir após o ler e, dadas as tentativas infrutíferas de o encontrar, acredito
que ela tenha cumprido a promessa. O documento comprovava a maldição numa
citação que a própria regista na carta e que, por sua vez, legitima todo o
nosso culto a Al-Aal:
"In fine sanguinis hereditarii est
renascentia tenebrarum."
(No fim do sangue herdado está o
renascimento das trevas.)
Partilhado este conhecimento por um
grupo de ação restrito, conseguimos reunir tudo o que havia documentado sobre
Al-Aal e perceber qual o ritual, bem como as coordenadas de tempo e espaço ideais
para a invocação e a libertação definitiva da deusa Al-Aal.
Sendo tu a última Igfon, sem
descendentes, o teu desaparecimento será o "fim do sangue herdado" e
de ti brotará a energia vital ao renascimento de Al-Aal, rainha das trevas.
E eis que chegou o momento de te fazer
um pequeno corte em cada pé, dos quais escorrerá o sangue que preencherá as
linhas desta geometria sagrada.
Dele beberemos também um pouco, para que
ela nos identifique como representantes dos seus eleitos, os milhares que a celebram secretamente por esse universo, premiando-nos com a soberania definitiva da humanidade, poupando-nos assim da sua fúria aos infiéis, após milénios de
aprisionamento injusto.
Carrendi escorria inerte na marquesa e
os adoradores de Al-Aal observavam o sangue a percorrer todas as linhas
sulcadas no chão, enquanto murmuravam cânticos graves e arrastados.
Varínio, o sumo-sacerdote, aproximou-se
dela e, ajoelhado, encheu uma taça com o seu sangue, da qual bebeu e deu a
beber a todos os presentes.
O chão começou então a tremer e ouviu-se
um intenso ronco profundo, vindo das profundezas, do submundo.
Um dos adoradores tocou-lhe então no
ombro. Que devia olhar para baixo e ver o que estava a acontecer ao sangue
derramado.
Incrédulo pela interrupção do transe em
que já se sentia, Varínio olhou para baixo e, estupefacto, viu o que já
dominava a atenção de todos os presentes. Como se tivessem sido suspendidas as
leis da gravidade, o sangue desfazia o desenho já percorrido e regressava aos
pés de Carrendi. Algo não estava a correr bem.
Carrendi abriu os olhos e, qual frágeis tiras de papel, foi-se libertando das correias que a prendiam.
Varínio ainda tentou intervir mas, tal
como os demais, encontrava-se magicamente imobilizado.
Então uma força telepática falou-lhes lá
dentro.
"Para terem compreendido
corretamente a citação, teriam de ter percebido que o seu autor, Miguel de
Cesena (dos medievais Fraticelli), entendia a criação da vida humana como o
grande feito divino. Assim, antes do Homem e depois do Homem tudo seriam "trevas".
Desde o séc XVIII que os Igfon eram os únicos descendentes ainda vivos de Manu, das 12 famílias fundadoras. Eram, portanto, os únicos representantes ainda vivos do "sanguini hereditarii", diretamente do primeiro progenitor de toda a raça
humana, sem interrupção de linhagem desde o início da humanidade
A citação de Cesena explica que antes da descendência de Manu eram as "trevas", depois surge a
humanidade e ao romper a linha direta (o que vocês provocaram com o
assassínio de Carrendi) as "trevas" voltariam. Portanto, não se refere a nenhuma nova era com novos líderes humanos, mas à completa ausência de humanos.
Livre desta maldição da hereditariedade, finalmente limparei do tempo este episódio fracassado e vocês, caros adoradores, serão as primeiras testemunhas do meu simples mas eficaz modus operandi... não poupar ninguém. Uma nova
era virá sem os vícios nem as limitações que tanto caraterizam os filhos de
Manu."
Dito isto, o corpo frágil de Carrendi
começou a transformar-se numa criatura de tronco felino com dentes de sabre,
asas majestosas e uma multiplicidade de tentáculos com garras em vez de
ventosas.
Após segundos de uma dança implacável de tentáculos, os seus
adoradores ficaram reduzidos a sangue espalhado e amontoados indistintos de ossos e órgãos.
Então, a renascida divindade das trevas lambeu
tranquilamente uma das suas garras, saboreando o sangue com saudade. Depois pareceu sorrir, antes de se dirigir
à porta que ainda protegia o mundo. Abriu-a e, sedenta e convicta, saiu em
direção à avenida principal do submundo lunar, para iniciar o fim do Homem.
Da sala onde fizera a sua primeira chacina ouviam-se os seus sons
arrastados a perder-se no corredor, cada vez mais longínquos, cada vez mais
perto do seu desígnio.

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