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INsideIN

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O André acordou com o alarme de que o seu holo-screen estaria no limite da capacidade. Quando surgiram, os holo-screens permitiam a partilha simultânea máxima de 5 intervenientes. Tal como em quase toda a tecnologia, sempre que um dispositivo é universalizado, pouco tempo depois alguém consegue refazê-lo, sublimando aspetos que, no seu interesse, serão relevantes. Neste caso, poucos meses depois dos primeiros holo-screens, uma nova versão era distribuída já com a capacidade de albergar 50 presenças.

A não ser que fosses uma borboleta social, tal capacidade serviria perfeitamente para satisfazer qualquer necessidade de reunião. No caso do André, cuja vida social nem era assim tão intensa, raramente o seu holo-screen tivera mais do que 10 pessoas, mesmo em situações muito extraordinárias.

Naquele dia, porém e pela primeira vez, o alarme de sala cheia disparou, despertando-o. Sem saber muito bem o que se passava – era a primeira vez que tal alarme tocava – o André lá se dirigiu à sala da projeção holográfica, ligou os projetores plurirreais e entrou.

Na dita sala virtual identificou, entre outros, amigos e colegas de uma formação que andava a tirar na UNP e estavam todos tão embrenhados numa discussão que nem repararam na sua entrada. Mesmo os mais tranquilos e introvertidos pareciam estar insanamente envolvidos na temática debatida. Outro aspeto que o inquietou desde o início foi o facto de estar toda a gente com um avatar realista, ninguém se mostrava sob os efeitos que as aplicações de Reposicionamento Virtual permitiam, como era habitual.

- Gino, o que se passa, que anda tudo aos gritos? – o Gino era dos presentes que não estudava com ele, mas, como trabalhava na UNP, acabava por estar ao corrente do que por lá se ia passando.

- Mudaram a responsável pelo departamento das novidades.

- A sério?, mas ela era tão popular...

A UNP distribuía todos os seus funcionários por dois departamentos, o da conservação e o da inovação, divididos por uma regra de 10 anos. No da conservação compreendia-se tudo o que era manutenção – recursos humanos, cursos, profissionais, instalações, bem como, de forma geral, tudo o que se mantivesse em funções na casa há pelo menos uma década. Já o departamento das novidades geria alunos, profissionais novos na instituição, novos cursos, edições e eventos, tudo numa lógica de rotina cuja duração fosse inferior a 10 anos.

 

 

- Pois era, daí a revolta das pessoas, mas parece que ela é mais uma vítima daquela doença que provoca as chamadas Mutações Flexíveis.

- Mas isso é mau? Ainda não li nada sobre o assunto, só rumores...

- Não sei se é mau, só sei que o primeiro paciente nunca foi identificado, pelo que é difícil saber o que quer que seja.

Sempre que o sistema descobre algo que foge à sua capacidade de controlo, proíbe-o até que um dia, eventualmente, conclua que é inofensivo.

Não haveria mal nenhum neste tipo de pensamento, não fossem as vítimas das prepotências sanitárias, atordoadas, neste caso, não só pela novidade de serem pacientes de outro vírus desconhecido, como pelo afunilamento ideológico do sistema, que as trata como criminosas.

A popularidade da Dra Elisa devia-se, não só à sua vibrante personalidade, como ao seu pioneirismo experimental tecnológico, sendo atribuída à sua equipa a criação do Controlador de Batidas Cardíacas (internacionalmente conhecido por Beat Ruler).

Quando se descobriu o número preciso (pouco mais de 3 mil milhões) das batidas de coração que cada ser humano tem capacidade de produzir durante a vida, a equipa da Dra Elisa criou primeiro o Contador de Batidas Cardíacas, o Beat Counter, e posteriormente o seu gestor, o Beat Ruler.

A discussão ética que a descoberta gerou aqueceu muitos palcos de conversação e debate. Os sobrenaturalistas, como seria de esperar, não perderam mais uma oportunidade para instaurar o medo e a superstição.

Nestes momentos até percebemos que há vários mundos, mesmo dentro do mundo científico. Há os cientistas que, realmente, formulam teorias sobre factos e os outros, que apenas procuram (e aceitam) factos que suportem as suas teorias. Ainda, consegue-se nestes casos distinguir as manifestações científicas que são financiadas por dinheiros públicos e que, talvez por isso, sejam mais neutras, objetivas e credíveis, das financiadas por empresas que encomendam resultados, sob a dissimulada capa daquilo a que elas próprias chamam “contraditórios saudáveis”.

Felizmente que, apesar dos velhos do Restelo, a ideia de que a cada um de nós tem de ser dado o poder de decidir a sua própria vida (nas suas mais variadas extensões), prevaleceu sobre a tentação de legislar sobre os voluntarismos da vida alheia e, assim, os Beats (como são chamados), sejam Counters ou Rulers, lá foram autorizados.

 

 

Devido a uma movimentação mal coordenada, caraterística dos primeiros tempos da lei MoTA, o André pura e simplesmente perdeu o rasto dos pais. Depois, pelos dados divulgados, passou a haver menos pedidos de mudança de residência, embora esses momentos iniciais tivessem sido confusos.

A quantidade inesperadamente grande de pedidos associada ao facto de ser então uma lei recente e, principalmente, de na altura ainda se estar a transitar do regime de nações em que o planeta estava dividido até ao regime de células, fez com que o paradeiro de muitas pessoas se tornasse incerto e, nalguns casos, mesmo impossível de detetar.

Os pais do André tinham o desejo de mudar toda a família de célula, incluindo o filho e a avó. Mais ou menos previsto estava que não conseguiriam fazê-lo todos ao mesmo tempo, porque assim acontecia amiúde. Porém, no triénio seguinte voltariam a tentar os que não conseguissem e, de acordo com o funcionamento do próprio sistema, se o candidato à mudança já tivesse casa à espera e garantisse meios de subsistência, à segunda era automaticamente colocado no local que desejava.

Na primeira tentativa, só os pais conseguiram mudar, o que faria com que, no máximo, dali a 3 anos, o filho e a avó se lhes juntassem. Ao mesmo tempo, esses 3 anos serviriam para que os pais fossem organizando tudo para os receber no triénio seguinte. Tudo iria correr bem, mas não correu.

Devido ao período burocraticamente atribulado em que tudo aconteceu, quando os pais saíram de casa, nunca mais foi estabelecido nenhum contacto entre estes e o resto da família e por mais que a avó tentasse desesperadamente encontrá-los, nunca conseguiu obter quaisquer resultados.

Assim, com 2 anos e meio, o André (ou Dedé, como só ela lhe chamava) passou a viver apenas com a avó. Os pais, aos poucos. ficaram reduzidos a uma ideia longínqua alimentada pelas histórias eternamente relembradas por ela e por uma meia dúzia de registos fónicos e gráficos. Nunca se chegou a saber o que realmente lhes aconteceu, suspeitou-se que tivessem sido contaminados no processo de transição de residência e que tivessem, de facto, morrido.

A avó, então, passou a ser para o seu Dedé a única família real e assim viveram até ao seu desaparecimento, quando este já tinha 32 anos.

 

Um certo dia, acordava o André para mais uma rotina de previstos e imprevistos quando notou pela ausência da sua velhota.

Quando esta soube da relação do seu pai com os GangMeetings, o primeiro movimento INsideOUT, nunca mais deixou de pensar nisso e, como o neto já era adulto e independente, várias vezes comentara, poeticamente, que um dia trilharia "os caminhos da insatisfação". Queria com isto dizer que um dia furaria a Interiorização Total e se aventuraria nos meandros indefinidos dos resistentes. Ouviam-se rumores de vida no exterior, porém o receio eficazmente propagandeado de uma contaminação fatal vencia a vontade individual de confirmar tais rumores.

Em todas as habitações havia trombas urbanas. Estas permitiam a entrada do que fazia falta e a expulsão do que era lixo e desnecessário. Porém, nos períodos (uma vez por semestre) em que o sistema fazia a sua própria manutenção e atualização, pedia-se aos residentes que não usassem as trombas, pois podiam estar a circular objetos infetados e durante aqueles 2 ou 3 dias não havia como impedi-lo.

No que à sua avó interessava, durante aquele período, apesar do receio de infeções, qualquer pessoa podia entrar nas trombas de forma indetetável.

Não a tendo encontrado em casa - o único mundo possível - o André confirmou os seus receios de que a avó tivesse realmente realizado a intenção de se aventurar no mundo rebelde.

Pensando nela, sentia uma grande admiração pelo seu ato de coragem, o que, de alguma forma, não o surpreendeu. As suas opiniões e as suas atitudes ao longa da vida deixavam antever atos de não conformismo, apesar de ele sempre achar que a vontade dela em se aventurar no mundo "contaminado" fosse apenas desabafos. O seu desaparecimento provava-lhe o contrário.

Quanto a si, o André ficou devastado. Já era difícil viver só com uma pessoa (a maioria das habitações era partilhada por grupos de 7 a 10 membros), mas a ideia de viver completamente sozinho mudava tudo e deixava-o à beira de um colapso nervoso. Só não deprimiu de forma severa e talvez irrecuperável graças à sua amiga Eva que, no sistema do holo-screen, se manteve permanentemente com ele e o foi confortando com a ideia de que, dali a 4 meses, havia outro período de aplicação da lei MoTA e ele podia tentar ir viver para a habitação onde ela estava.

 

Nos dias a seguir ao desaparecimento da avó, o André andava atento a quaisquer sons que viessem das trombas: ela podia querer voltar para casa e não havia forma de abrir uma tromba por fora se, por dentro, esse movimento não fosse complementado.

Não era a primeira vez que alguém se aventurava nos tubos e se arrependia. Essa, no fundo, era ainda a sua esperança: ela teria sentido o ímpeto de fugir daquela rotina claustrofóbica, mas após uns bons metros de escura, apertada e interminável paisagem tubular, compreenderia a inutilidade do gesto e regressaria a casa... e tudo voltaria a entrar nos eixos.

Em função disso, o André passava algumas horas por dia em completo silêncio, atento a quaisquer ruídos que ecoassem das trombas. E foi justamente num desses momentos de pausa vibratória que lhe pareceu ouvir um som estranho, um arrastar, um pequeno suspiro, qualquer coisa que os habituais objetos inanimados a circular nunca produziriam.

Nervoso com o que ouvira, o André foi a correr abrir a boca da tromba e deparou-se com um fluíticus.

No final do primeiro século da Interiorização Total foram registados os primeiros fluíticus, considerados por alguns cientistas como um autêntico quebra-cabeças. Não terem esqueleto, não haver dois sequer parecidos na aparência, cada indivíduo mudar constantemente a sua forma e cor, serem reprodutivamente autossuficientes, incorporarem quaisquer outras realidades físicas no seu próprio corpo e, com isso, serem capazes de produzir a energia necessária à sua sobrevivência fazia deles casos únicos.

O fluíticus encontrado era de tamanho médio, variava por tons avermelhados e parecia querer relacionar-se com o André. Os fluíticus também não emitiam sons coerentes pelo facto de o seu aparelho fonador estar constantemente em metamorfose, sendo que era só a partir da rapidez da sua deslocação que se conseguiam compreender as suas intenções. Este quase nem se mexeu quando viu o André, o que se pôde traduzir por uma atitude claramente amistosa e favorável ao contacto.

Assim o entendeu o André, que lhe atribuiu o nome Laminhas e o adotou. De alguma forma foi o Laminhas que, verdadeiramente, o impediu de afundar na depressão para a qual se sentia escorregar.

 

Com companhia assegurada e o projeto de se mudar para uma célula mais povoada, o André conseguia, novamente, concentrar-se noutros temas que assolavam o pacifismo, algo acomodado, da sua realidade.

Novas notícias sobre a famosa Dra Elisa, a criadora dos Beats, confirmavam a sua contaminação por este outro estigma social, mais difícil de compreender e de sanear, o vírus das Mutações Flexíveis.

Na tentativa de fazer um ponto da situação, o André pediu à sua amiga Eva para se reunir com ele e um grupo restrito de amigos.

Do cruzamento de informações que cada um partilhou, conseguiram perceber algumas coisas sobre essa sinistra realidade, sendo que, logo à partida, tornou-se evidente que estavam perante uma das maiores perplexidades biológicas de sempre.

Como sabemos, há dois campos de ação na forma como nos relacionamos com os nossos pensamentos (o Domável e o Indomável). Há o nível Indomável, ou descontrolado, dos pensamentos que nos invadem constantemente a vida e que, em muitos casos, preferíamos até não ter. Há, depois, o nível Domável, que deixa a pressão, social ou individual, exercer a sua influência para que só alguns desses pensamentos tenham expressão real, física, visível.

Acontece que, segundo os estudos já publicados e a que a Eva, por trabalhar na UNP, teve acesso facilitado, é no nível Indomável que o vírus das Mutações Flexíveis (MF) se ativa e domina o paciente. Ou seja, num complexo processo sinestésico, o corpo vai perdendo a sua forma inicial e ganhando contornos simbólicos de pensamentos que o cérebro, descontroladamente, vai produzindo.

Entramos então no campo dos rumores e das hipóteses, umas apenas na consideração de outras possibilidades para o entendimento do caso, outras, mais conspiradoras, tidas como as verdades que o status quo tarda em admitir, como o facto de tanto os contaminados com o vírus MF como os fluíticus padecerem da mesma condição física que os impedia de terem uma forma fixa, o que terá levado muita gente a acreditar que os fluíticus seriam os portadores do vírus desta "outra" pandemia.

 

Algumas descobertas sobre o efeito da sobre-exposição tecnológica individual determinavam o enfraquecimento da nossa capacidade de domar os pensamentos, não só porque a inteligência artificial levara muitos utilizadores a deixar de praticar o pensamento complexo, mas por uma cada vez mais reduzida e restrita experiência social. Não praticar a complexidade, a emotividade e o contraditório enfraquecia a barreira que assegurava a diferenciação entre os níveis Domável e Indomável do pensamento e isso, segundo constava, podia expor qualquer um a qualquer vírus.

O despedimento da Dra Elisa fora justificado pelo facto de haver uma outra teoria, por confirmar (como quase todas), que traçava uma linha entre o momento da distribuição generalizada dos seus Beats e os primeiros casos identificados com o vírus MF, uma vez que a própria Dra Elisa fora das primeiras pessoas (do domínio público) a apresentar sintomas desta doença.

Tendo em conta que, por minuto, o nosso coração bate entre 50 a 100 vezes (conforme a faixa etária), se se conseguisse reduzir as batidas para metade, ganhava-se um minuto extra a cada minuto que passasse. Como cada coração estaria programado para bater um fixo e previsível número de vezes, quanto maior fosse a distância temporal entre cada batida mais tempo teríamos de vida. Era esta a lógica do Beat Ruler, distanciar batidas como investimento num seguro de longevidade.

A existência de bio-peças, que permitiam superar as deficiências que os órgãos iam ganhando com o uso, já dava uma esperança de vida de 120 a 130 anos, porém com esta possibilidade adicional de controlar um dos dois órgãos-mor, era fácil chegar aos 180.

Se os contadores de batidas, que apenas mediam a atividade cardíaca e, portanto, pouco interferiam no seu funcionamento, eram, de forma generalizada, considerados inofensivos, já com os Rulers a narrativa seguia outros caminhos.

Quem usava os Beat Rulers de forma permanente conseguia reduzir com regularidade o seu ritmo cardíaco, principalmente em momentos de descanso, fosse quando dormisse, enquanto esperasse algo, fosse em qualquer momento em que, de facto, não estivesse a fazer nada que exigisse grande concentração.

Porém, diziam alguns conspiradores, a injeção controlada ainda que sistemática de componentes com princípios ativos anestésicos, com o tal efeito do adormecimento do ritmo cardíaco, alteraria, com o tempo, a composição físico-química do coração, e quiçá de todo o corpo, com efeitos a longo prazo, desconhecidos, ou não divulgados. Apoiavam-se na confirmação oficial de que os vírus exponenciavam os efeitos do pensamento Indomável, espoletando dinâmicas físicas que alteravam o corpo do infetado.

Portanto, ao invés de abrir portas para a longevidade, podia provocar uma morte antecipada.

 

Dias depois da reunião de indignados, o André recebeu uma mensagem da Eva a contar-lhe que tinha havido uma brecha no sistema e o caso ia estourar com consequências imprevisíveis.

De vez em quando acontece como naquele ditado popular, "zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades". Ou seja, ocasionalmente, membros dos níveis mais altos do conhecimento (a verdadeira arma do mundo) rompem o véu da intocabilidade e deixam desaguar pela arraia miúda o que supostamente seria secreto e é nesses raros momentos que temos um vislumbre do que realmente se passa, do que está além da matrix.

Ao que parece, saíram a lume relatórios silenciados da FAV, a Frente AntiVírus, a única organização credível de cientistas associados em torno de dois grandes objetivos: a criação de estruturas preventivas (vacinas, hábitos saudáveis, identificação de primeiros sintomas) e o tratamento dos já infetados.

Apesar de a FAV ser uma entidade independente, estava sujeita à proibição de tornar públicas quaisquer conclusões científicas que pudessem perturbar a "paz social" e quem definia o que era perturbador eram os GMs (os Governos Multicelulares).

Esta foi a forma de os GMs contornarem o facto de não lhes terem sido atribuídos poderes censores. O argumento foi o "timing", ou seja, não iam proibir a informação científica de fluir (porque não podiam), mas podiam adiar a sua divulgação indefinidamente até se comprovar que os benefícios do acesso a esse conhecimento seriam superiores aos malefícios.

Principalmente houve três relatórios surpreendentes e, uma vez combinados, não surpreende que as consequências viessem a surpreender.

O primeiro, o mais antigo, ainda dos primeiros tempos do primeiro confinamento, confirmava, sem reservas, o efeito da sobre-exposição às radiações dos aparelhos eletrónicos. De acordo com este estudo, a avalanche eletrónica que nos invadiu a vida teria criado uma rede que, ao nível neurológico, tinha efeitos desestabilizadores e, eventualmente, fatais.

No segundo, mais recente mas já com algumas décadas, era afirmada a inexistência de qualquer indício confirmado em como o vírus (e variantes) se tivesse propagado pelo ar, por contacto ou por fluidos corporais, sendo que o confinamento, pelo menos nos moldes em que o viviam, seria uma medida incompreensível.

O terceiro, o mais recente de todos, introduzia novas questões quanto à teoria da origem dos fluíticus.

 

No início, quando apareceram os primeiros fluíticus, alguns estudos meio à pressa apontaram, como sua potencial origem, uma criatura ancestral, um antepassado comum às medusas. Sendo criaturas tímidas, solitárias e facilmente camufláveis, teriam vivido sempre nas profundezas dos oceanos ou de cavernas demasiado profundas para serem notadas. De acordo com esta tese, eles só teriam começado a fazer-se notar algumas décadas depois do primeiro confinamento, quando se habituaram à ausência humana sistemática.

Ora o terceiro relatório polémico e silenciado apontava numa direção diferente, onde a relação entre humanos e fluíticus teria de ser muito mais antiga. Baseava-se em dados nunca divulgados sobre testes de ADN feitos aos fluíticus nos quais se atestava uma semelhança connosco de 99,98%, significativamente superior à dos chimpanzés, que já chegam aos 99,6% de proximidade.

Este terceiro relatório afirmava que, apesar da completa disparidade orgânica, os fluíticus não tinham nada a ver com medusas, já que eram praticamente humanos.

O André pouco acompanhava este tema, até mesmo porque os exageros dos comentadores emocionados, que disparavam em todas as direções, de certa forma o iam afastando - segundo uns os fluíticus devoravam pessoas, segundo outros fundiam-se com as pessoas, segundo ainda outros eles apareciam para levar as almas perdidas num certo tipo de juízo final personalizado, enfim... 

Foi só quando adotou o seu Laminhas que o André se debruçou mais seriamente sobre o tema.

 



- 7 meses depois -



 

diário do André

dia 23

"Os GMs foram caindo um a um, descredibilizados por nos terem sonegado informações que poderiam ter melhorado as nossas vidas substancialmente.

De momento, vivemos num estado anarquicamente semi-confinado. Foram 2 séculos de confinamento e, por isso, temos rituais de interiores e, principalmente, de convívio restrito que ainda demorarão algum tempo a converter.

Há os OUTsideOUTs, os que foram lá para fora de vez, há os INsideOUTs, os que se dividem pelos dois mundos, e os INsideINs, como eu, que continuam a preferir o mundo interior.

A ordem social desmoronou, já se fala em países outra vez, não tardarão aí. As redes de distribuição começaram a fraquejar, dando origem a alguns atos criminosos pela necessidade de sobreviver. Porém, as cooperativas que sempre nos alimentaram de comida e de outras necessidades têm vindo a converter-se a estes novos estados sociais, pelo que a indefinição inicial deu logo sinais de redefinição temporária, garantindo de imediato que os menos autossuficientes não ficassem ao abandono.

 

Eu comecei por pensar em tornar-me OUTsideOUT, abandonar a minha habitação e ir pelo mundo, mas a solidão travou-me. Todos os meus amigos ainda passam a maior parte do tempo nos interiores e os que saíram vivem demasiado distantes de mim para nos encontrarmos. Durante quase 2 séculos anulámos a distância física e, virtualmente, consolidámos relações de intimidade plurigeracionais por todo o planeta, mas agora a realidade cai-nos em cima como granizo.

Não dá, pelo menos para já, para esquecer a rede social que alimentámos nos interiores durante tanto tempo e, por isso, por enquanto, ainda sou INsideIN, além de que tenho o meu Laminhas para cuidar e ele não parece gostar do exterior. Vou lá fora apanhar ar, mas demoro sempre pouco. Afinal eu sempre vivi confinado e, apesar de desejar o contrário, não conheço outra realidade. Nunca tive um amigo que não tivesse outra forma senão a holográfica.

 

dia 24

Hoje termino o dia num autêntico tornado mental.

Não sei mesmo a que conclusão chegar, não sei se devo falar com alguém sobre o assunto, não sei se me achariam louco se lhes contasse as conclusões a que cheguei ou se, de facto, enlouqueci. Receio embarcar nas teorias da conspiração, mas não vejo outro caminho lógico. Apetece-me gritar - de pânico, de raiva e de alegria, tudo ao mesmo tempo.

A meio da tarde regressei a casa, depois de um momento de exercício físico ao ar livre. Tinha deixado o Laminhas na cama, ele não consegue subir aos objetos, mas como eu sei que ele gosta, ponho-o sempre na cama comigo, ele depois desce com facilidade, basta deixar-se escorrer.

Desta vez, curiosamente, ainda lá se encontrava e havia qualquer coisa na ondulação das suas cores que me fazia olhar para a cabeceira da cama.

Aproximei-me e vi que ele fazia um folho com o corpo num dos cantos, como se fosse uma flor, um leque, um guardanapo dobrado de forma peculiar, simultaneamente vigoroso e elegante.

A imagem da sua posição despertou-me memórias nubladas e senti verdadeiramente que aquela visão me era familiar, mas não conseguia materializá-la em nenhuma ideia concreta.

Enquanto olhava à volta senti o inesperado impulso de, finalmente, ir ao quarto da minha avó, quarto que eu nunca mais abri desde o seu desaparecimento. Digo finalmente porque ainda agora me foi bastante doloroso fazê-lo.

Procurei por algo que pudesse de alguma forma relacionar com a posição do Laminhas e de repente olhei para o cobertor da sua cama composta. O cobertor... o cobertor... ela fazia sempre aquela dobrinha no cobertor, no dela e no meu, quando me aconchegava.

Fiquei sem saber como relacionar uma coisa com a outra.

Como poderia ele ter visto isto se a porta esteve sempre fechada?

Irracionalmente aproximei-me do Laminhas e disse "Avó?".

Ele imediatamente estremeceu e o seu corpo foi percorrido por ondas coloridas enquanto escorria da cama até aos meus pés. Senti que me empurrava para a mesa onde tenho o teclado do ecrã de parede, comportamento que não lhe era inédito, mas a que eu nunca tinha dado nenhuma atenção especial, emocionante e absorvente que tem sido esta novidade do mundo exterior.

Algo me fez pensar que ele queria o teclado. Então meti-lho debaixo do corpo e logo o ecrã de parede se ativou e eu li, atónito...

"Olá, Dedé."




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