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ElevaDj

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Aquando da remodulação de um edifício no Setor 5, foi derrubada uma suspeita parede falsa, pondo a descoberto uma significativa e clandestina coleção de livros e demais papelada.

A análise bacteriológica do ar interior dessa divisão selada revelou que esta se encontrava isolada do mundo exterior por um período nunca inferior a 3 séculos.

Se o achado revelou que afinal a informação em suporte físico não fora completamente erradicada (como nos quiseram convencer os ativistas da 4ª e até agora última vaga biotecnológica), também nos veio despertar para o conhecimento de um período específico do passado, do qual sabíamos pouco mais do que rumores.

Sabemos que durante esta era civilizacional o planeta se encontrava dividido em dois e que, já então, o conhecimento era considerado a arma principal nesta eterna idiotice humana de conceder às ideias o poder de limitar as pessoas, em vez do contrário.

Afirmam os envolvidos que este depósito documental terá sido um dos últimos suspiros de um coletivo de singulares livres num contexto social claustrofobicamente bipolarizado.

Desde Platão que está em cima da mesa a possibilidade de gerir, separadamente, o pensar e o sentir. Observadores e pensadores posteriores confirmaram a interferência limitadora dos sentidos no individual entendimento do todo e foi por aí que seguimos. Técnicas de autocontrole cada vez mais eficazes permitiram-nos evoluir para, em momentos controlados, proteger o funcionamento cerebral das interferências sensoriais do quotidiano.

A descoberta que se seguiu definiu a última vaga biotech.

Inesperadamente, ao bloquearmos o mundo sensorial, abrimos um mundo que ainda estamos a tentar compreender nas suas mais bizarras extensões. A RMC (Rede MultiCerebral) é o expoente máximo dessa nova capacidade e é, simultaneamente, a nata do nosso tempo.

Quando nos conseguimos, finalmente, distanciar do burburinho da sobrevivência diária (que os sentidos alimentam e ajudam a consolidar) e nos apercebemos da existência de um unificador canal telepático universal, nasceu um novo paradigma comunicativo.

Como em todas as descobertas, houve também aqui uma fase inicial complicada, pois era necessário um treino intensivo para anular os cinco sentidos e ativar a RMC. Porém, herdeiros do pensamento aristotélico, no qual a visão e a audição são os sentidos dominantes, percebemos que, afinal, bastava-nos adormecer estes dois para que, em cascata, os 3 restantes se autoanulassem, ruindo qualquer obstáculo telepático.

 

Após algum tempo experimental (e alguns empurrõezinhos químicos), hoje basta-nos fechar os olhos para ativar a RMC. Cedo nos apercebemos do potencial extraordinário desta nova faculdade e pouco tempo depois foi definido o primeiro PRMC (Painel de RMC) que funciona como um arcaico ecrã físico de internet, mas que é mental, só se tornando visível quando fechamos os olhos. Como este sistema voluntário de partilha telepática é alimentado pelo uso individual, dificuldades energéticas e limitações por espaço físico de armazenamento são coisas do passado.

Lembrei-vos, resumidamente, do processo que nos trouxe ao presente, para sublinhar que não há inevitabilidades estatísticas e que a História, ainda que pareça andar às voltas e em alguns ângulos os presentes sugiram paralelos com o passado, de facto, nunca se repete.

A descoberta de tão grande arquivo em papel e de tão grande importância implicou que algumas equipas técnicas se reunissem para converter toda aquela informação física em dados RMC. O processo tem sido gradual, mas intenso. O que se tem descoberto desse período da nossa História tem contribuído para percebermos melhor o encadeamento civilizacional que nos trouxe até este momento.

Hoje, na nossa aula de "Singularidades Históricas II" analisaremos um dos mais curiosos e inspiradores testemunhos de um tempo que, dificilmente, voltará.

Tudo indica tratar-se de uma carta que um habitante de um dos lados do planeta enviou a um dos do outro lado, porém nada sabemos sobre a relação entre eles (emissor e recetor) ou se o texto terá sido escrito em abstrato para um alguém-ninguém que o lesse, sendo que nem temos sequer a certeza de que esse envio tenha efetivamente acontecido. Deixo isso, portanto, à vossa fértil e ousada imaginação.

O que espero de vocês, no final desta aula, será uma produção literária original, que combine criação verosímil com realidade.

Especificamente: se, por um lado, espero que retirem da carta informações relativas à personalidade e à profissão que o narrador assume (bem como ao contexto social-biográfico, arquitetónico e cultural que as justificam), para vos servirem de cenário obrigatório; por outro, espero também que inventem muitos outros detalhes omissos, que complementem a realidade descrita, mas que não contradigam, em momento algum, o texto original.

Vamos, portanto, isolar os olhos e os ouvidos, entrar na estação informativa da UNP, no posto da nossa aula, e aceder ao doc 36, que dita o seguinte:

 

Caro amigo planetário, partilho contigo um pouco da minha história, que não tenho mais ninguém a quem contar. Como não conheço nenhuma realidade onde a informação chegue ao domínio geral sem ser falsificada, e nisso o vosso lado não deve ser diferente do nosso, acrescento informações contextuais que me parecem pertinentes.

Começo por te lembrar de como o nosso planeta foi dividido, voluntariamente, em dois, num processo histórico que podemos explicar em 3 momentos: confronto, debate e definição.

Confronto: A ideia de que qualquer partido apoiado maioritariamente tem direito a impor as suas ideias a todos (incluindo os que neles não votaram) através das chamadas leis de aplicação universal, começou a contaminar os estados democráticos. Passou a ser consensual que teria de se criar uma nova forma de pensamento que evitasse os cada vez maiores atritos traumáticos causados pela generalização de normas.

Debate: O período seguinte, ressacado pelo insucesso das políticas, foi confuso porque, de alguma forma, não queríamos abandonar a ideia poética de democracia, apesar de sabermos que teríamos de agir de forma inteligente para manter o que havia de bom no pensamento democrático, evitando opções disfarçadamente ditatoriais, como as democracias representativas. Foi o mais curto destes 3 momentos, mas o mais intenso, porque nunca se chegou a um consenso. Acabámos por eliminar o convívio e optámos pela coexistência; encontrámos no bipolarismo a forma mais saudável de continuar.

Curiosamente, o que acabou por nos dividir pacificamente nem foi o regime, mas a sua inspiração. De um lado ficaram os sobrenaturalistas, que acreditam que a estrutura do regime deve ter ensinamentos ancestrais como inspiração, o que, logo à partida, degenerou numa série de sectarismos desintegradores, ainda que unidos na emotividade. Do outro lado ficámos nós, os racionais, que defendem que tudo deve ser discutido, posto em causa, rejeitado ou aprovado pela ideia em si e não pela fonte.

Definição: O planeta foi, então, dividido em dois. O processo migratório durou algumas décadas, até ao estabelecimento definitivo das fronteiras. Acontece que, a partir de certa altura, esta solução tornou-se demasiado castradora e começou a acontecer aquilo que, ainda bem, nos caracteriza e que é a mudança constante dos paradigmas individuais, o que acaba por, aos poucos, ir minando os consensos.

Hoje temos comunidades que integram pensamentos religiosos do lado de cá e comunidades que não rejeitam as conclusões científicas do lado de lá, pelo que, verdadeiramente, já só podemos falar em fronteiras administrativas.


Temos então o nosso planeta gerido em dois hemisférios que, apesar das galopantes promiscuidades ideológicas, ainda tem características culturais de ambos os lados que, de alguma forma, sublinham essa divisão.

De tudo o que nos afasta, há, sobretudo, duas derivações históricas significativas.

Em primeiro lugar, o nosso lado decidiu que todas as habitações tinham de ter vista para o campo. Por isso construímos em altura e conseguimos acomodar toda a população em apenas 120 megacidades.

Em todas as cidades há várias torres habitacionais circundadas por muralhas e eu moro em Vitriga, uma das mais afastadas da fronteira, pelo que poderás nunca ter ouvido falar dela. A minha cidade é das menos povoadas, sendo que no meu prédio vivem apenas 90 mil pessoas, distribuídas por 930 pisos à superfície e 50 subterrâneos. Vive menos gente aqui porque é a torre funcional, aquela em que se reúne a maior parte do que não é habitação, tais como serviços de saúde, de educação, administrativos e o comércio em geral. Pela sua importância no quotidiano é o prédio mais frequentado por todos os vitrigos.

Dada a sua dimensão, cada prédio é dotado de vários elevadores de emergência e regulares.

Os de emergência são ultrassónicos e são usados apenas em casos muito específicos. Na aparência são semelhantes aos vossos elevadores normais.

Já os regulares, como a viagem do rés-do-chão ao piso mais alto pode demorar várias horas (dependendo do número de paragens que tiver de fazer pelo caminho) serão parecidos com as vossas salas de espera e aqui temos de tudo: elevadores com sofás, com janelas panorâmicas, serviço de bar, ElevaDj (ou Dj residente), zona de fumadores, decoração cuidada, exposições de arte, tapetes, sei de um que até oferece serviço de massagens e o meu até tem um repuxo ao centro, num pequeno lago com peixes vermelhos.

Em segundo lugar, por cá nunca foram autorizadas imagens em movimento, não tivemos, portanto, cinema, vídeos, nem televisão nos moldes da vossa. Em contrapartida, desenvolvemos toda a nossa comunicação, funcional ou artística, através do grafeternalismo (fusão entre fotografia, pintura, iluminura e escultura) e o pansonismo (música sinestésica).

 

Pelo que conheço do vosso lado, a questão dos elevadores, a que voltarei adiante, parece-me pacífica, já as nossas ferramentas comunicativas exigem um pouco mais de explicação.

Pois, a necessidade de controlar a ansiedade elevada foi o principal motivo, de dois, a impedir o desenvolvimento da imagem animada, que no vosso lado adquiriu formas como os desenhos animados, o cinema ou até as reportagens jornalísticas. Sendo inimiga da concentração e da lucidez, a ansiedade, quando em proporções descontroladas, tornou-se um alvo a abater. Acompanhar uma narrativa declamada proporciona, em caso de envolvimento, aquilo que consideramos uma ansiedade razoável, porém se essa mesma narrativa for acompanhada de movimento físico, acessível pelos olhos, os níveis de ansiedade atingem dimensões absolutamente desnecessárias.

A outra razão prendeu-se com a fiabilidade da imagem em movimento e de um fenómeno que observámos atentamente no vosso lado que foram as transmissões de acontecimentos recentes ou em direto. Nelas identificámos elementos distratores (a dificuldade de refletir no calor do momento, a expressividade do registo sobrevalorizada relativamente ao seu conteúdo, e o culto ao mensageiro) que fundamentaram esta última decisão de rejeitar animações.

Por isso, concentrámo-nos nas restantes opções e inventámos o grafeternalismo, que alimenta uma cultura de eterna verificação. A imagem é fixa e, por isso, permite o conforto e a segurança de se poder sempre rever uma realidade que, objetivamente, se mantém eternamente inalterada. Objetivamente apenas, porque não falta dinamismo na receção, já que se, por um lado, o olhar repetido abre as portas ao detalhe, por outro, ativa as emoções que permitem a reinterpretação e recriação do objeto através da saudável criatividade que a monotonia desperta. Em vez de ser ativa, ativa-nos.

Já a exploração do som começou a desenvolver-se com a descoberta dos cromossónicos, frequências sonoras indutoras de sensações cromáticas, que nos permitem identificar, só através da audição, a presença do vermelho, do azul, etc. Daí chegámos ao pansonismo, em que a organização do som, ao explorar dimensões cénicas e sinestésicas, estimula de facto a interação de todos os sentidos, e hoje, só através da audição, conseguimos imediatamente perceber, por exemplo, a presença de uma ovelha, a sua cor, se está a balir de frente ou de lado e o preciso momento em que baixa a cabeça.

Para finalizar, importa explicar que ambos, grafeternalismo e pansonismo, são usados individualmente, combinados, ou na interação com palavras ditas, com expoente nos momentos MultiFrentes, narrativas partilhadas (ficcionadas, filosóficas ou descritivas) onde tudo é direcionado à imersão do recetor.

 

Penso que já passaram 150 anos desde que o Centro de Decisão (CD) proibiu definitivamente o visionamento de qualquer imagem animada. Porém, sabemos que haverá sempre infratores e o problema não me parece ser a sua existência, mas a sua incapacidade em provar que as proibições estão mal fundamentadas.  

Nos últimos tempos tem sido debatida a ideia de isolar numa só torre os pró-animação, assim podiam ver os seus filmes à vontade, sem interferirem, com os seus comportamentos ansiosos, nas vidas dos que, como eu, não pretendem regredir nem ignorar os avanços civilizacionais. Porém, os visados, ao que parece, não estão muito interessados nessa possibilidade, a que chamam exílio. Está, portanto, uma guerra montada, discreta, latente, mas presente.

Como o CD da nossa cidade não pretende ser demasiado intrusivo na questão da vigilância, decidiu, secretamente e numa primeira fase, vigiar apenas os elevadores regulares de cada uma das torres, já que nos de emergência de pouco se fala.

Para garantir a eficácia deste projeto de alto risco, foram convocadas algumas famílias que assinaram um pacto de silêncio e que passaram a exercer, hereditariamente, funções significativas nos ditos elevadores.

E é assim que chegamos a mim, caro amigo do lado de lá. A minha família não foi das primeiras a integrar o projeto, mas já desde o meu bisavô que, nesta torre, coordenamos as cabines dos ElevaDjs, os responsáveis pelo pansonismo dos elevadores centrais.

A minha torre tem 12 elevadores centrais e todos os seus ElevaDjs são da minha família - temos como que um emprego duplo. Enquanto ElevaDjs trabalhamos para uma subempresa da Vitriga Intercities, a IIVVI, ou Internal Instruments of Voice from Vitriga Intercities (IIVVI). Além disso, sigilosamente, monitorizamos os registos diários do sistema de gravação que o CD instalou.

É um emprego a tempo inteiro, os elevadores funcionam continuamente e só podemos folgar se tivermos alguém da família que nos possa substituir, o que torna a coisa muito absorvente. A minha sorte é que a Vitriga Intercities também gere o bar do meu elevador e como somos todos colegas da mesma empresa, se for necessário revezamo-nos - o que nunca foi, e também nunca precisei de pedir a nenhum familiar para me render. Vou-me aguentando.

 

Caro amigo, decidi escrever-te no dia de hoje, porque é o meu 62º aniversário e nos últimos dias cheguei a uma conclusão que, pelo menos no início, me deixou consternado e desorientado comigo, com o mundo, sei lá.

Como já referi, tenho a função camuflada de ouvir as gravações feitas no elevador onde trabalho e vivo, e como tenho o ouvido treinado para palavras-chave ocupo apenas 3 horas diárias a monitorizar os registos do dia anterior. Como nem sempre há temas relevantes, acabo por ficar a ouvir as conversas aleatoriamente e ouço de tudo. Normalmente, quando acontece algo socialmente importante, várias pessoas acabam por falar do mesmo.

Ouvem-se os que apenas repetem o que lhes chegou; os que não viram, não presenciaram, mas sabem detalhes que ninguém sabe; os que presenciaram e contam fielmente; os que presenciaram e que, por isso, se atribuem o direito de acrescentar o inexistente; os que chegam a conclusões mirabolantes; os que, por conhecerem as estatísticas, sabem sempre o que é que os intervenientes estavam a pensar; os que dizem "eu não te disse?"; enfim, a lista podia alongar-se quase ao infinito.

Raramente tenho algo a reportar de preocupante quanto aos pró-animação, umas duas vezes por ano lá ouço um qualquer silabar absurdo que me remete para a ideia de código e que me desperta a atenção. Então envio ao CD os meus alertas e pronto - a vida continua. Ocupo-me, portanto, com as novelas da vida real. Tenho até um quadro onde vou fazendo a evolução de algumas histórias. No dia tal ouvi uma pessoa dizer isto&aquilo e, 4 dias depois, outra comentou sobre o mesmo assunto, tendo acrescentado mais alguns detalhes.

Neste processo de compilação de dados, fico também a saber a opinião dos passageiros sobre o meu trabalho de ElevaDj e acabo por fazer opções tendo isso em consideração, mas o que me apaixona, verdadeiramente, no que faço é o conhecimento que vou tendo do mundo, e é tanta a informação que reúno, são tantos os ângulos a enriquecer, que sinto que o conheço de uma forma absolutamente integral.

É que as minhas 3 horas diárias de acompanhamento a todo este festival de ângulos da vida permitem-me, assim o creio, conhecer o mundo e as real realidades de uma forma mais completa do que a de qualquer um dos passageiros do meu elevador, já que estes se emocionam mais com a sua visão da realidade do que com o mundo real.

 

Um certo dia ouvi falar de mim nos registos. Alguém que, no contexto de pessoas com vidas monótonas e tristes, me deu como exemplo em 2 fragmentos, que espoletaram tudo isto:

"(...) é como o nosso elevaDj (...) mais parece um condenado (...)"

Quando os ouvi, fiquei de tal forma embasbacado que ainda hoje não consigo precisar os sentimentos que me atravessaram.

Escrevi-os em letras colossais no meu placard e fiquei a olhar para eles durante dias, enquanto acompanhava cuidadosamente os registos em busca de desenvolvimentos ou contextos que os justificassem.

"mais parece um condenado" - mas porque é que alguém teria essa opinião sobre mim?

A minha biografia, assim o entendia, era um mundo livre: trabalhava ali no elevador já há uns anos é certo; nos últimos tempos nem tinha saído, mas não me faltavam memórias do exterior. Tinha dificuldade em lembrar-me de alguns detalhes, mas conhecia tudo muito bem: o céu, as outras megacidades, as torres vizinhas, as pessoas, enfim. Além do mais, sempre que quisesse, podia sair, era livre, completamente livre, e não me faltavam memórias de o ter feito, em tempos, vezes sem conta. Não sei porque considerariam a minha vida triste... condenado?

Como nos dias seguintes não ouvi mais nada sobre o assunto, decidi interferir para promover o tema. Consegui identificar a paisagem sonora que estava a decorar o silêncio do elevador quando registei aquele pensamento ofensivo e repeti-a no mesmo horário durante algumas semanas sem sucesso, até que num belo dia alguém voltou a falar de mim. Havia, porém, muita gente a fazer barulho, crianças a brincar, a modos que só consegui apanhar outros 4 fragmentos:

"(...) e este coitado, olha que só tem uma porta de saída (...) maldita empresa que brinca com a vida das pessoas (...) acho que o elevaDj nem se apercebe (...) disseram-me que ele nem sabia que tinha uma porta (...)"

Antes de decidir dar crédito ao que ouvira, ainda andei um tempo a evitar o tema, um certo receio de abrir uma brecha nas certezas que sempre me deram sentido à vida.

A porta. Mas que de porta fala esta gente? Olhei de novo para as sobejamente observadas paredes do local onde trabalho e vivo e, curiosamente, não vi nenhuma porta, nem nenhuma forma de entrar ou sair, o que me trouxe uma nova inquietação, então por onde é que passei das outras vezes em que fui lá fora?

 

Nos dias seguintes não houve mais falatório sobre mim, nem mesmo com a minha insistência no pansonismo específico, o que me levou a, de alguma forma, desistir de esperar pelos desenvolvimentos e meter as mãos ao barulho.

Afastei e desaparafusei todo o equipamento: das paredes, as estantes, as mesas, os quadros técnicos, as decorações; do chão, os tapetes, os sistemas de temperatura, caixas e mais caixas; do teto, as iluminações, as prateleiras móveis, os espelhos. Não encontrei nada que não estivesse previsto, com exceção de uma suposta porta, camuflada na decoração do espaço. Digo suposta porque apesar de parecer uma porta, não havia forma de lhe dar função, parecia mais uma pintura ou escultura de baixo relevo do que propriamente uma porta normal, das que abrem e fecham.

Fiquei um bocado banzado com a descoberta, por duas razões antagónicas: por um lado, não sei por que razão alguém haveria de pintar ou esculpir uma porta na parede, seria algum tipo de tendência decorativa - tenho de ver quem foi o designer que concebeu este espaço; por outro lado e reforçando a nuvem que já se instalara em mim - não havendo mais nenhuma abertura, e sendo esta uma não-passagem, por onde é que eu saí de todas as vezes em que o fiz? e de que porta, afinal, falavam as pessoas no elevador, que a não encontro?

Passados alguns dias em que estive mais atarefado, finalmente voltei a ter algum tempinho para me dedicar a esta questão e concentrei-me então na suposta porta. Encontrei, escondidos na pintura da parede pequenos parafusos que eu tentei, em vão, retirar. Depois, reparei que até havia dobradiças, mas, das duas uma, ou eram meramente efeitos introduzidos na peça para lhe dar realismo, ou então teriam sido usadas há muito tempo e, uma vez esquecidas, solidificaram ao ponto de não mexerem um milímetro. 

Observando a imobilidade da porta sentei-me à sua frente e fiquei a olhá-la.

Mesmo ao lado, num cabide onde guardo o uniforme da empresa, tinha pendurada uma bata funcional, com o habitual símbolo da empresa com as iniciais por baixo, IIVVI, e reparei, pela primeira vez, que havia espaços subtilmente diferenciados entre elas de forma a fazer 3 conjuntos: II V VI. Caí imediatamente na numeração romana e os números 2, 5 e 6 abriram-me todo um mundo novo de possibilidades, cujo final me seria completamente inesperado.

 

Porque qualquer ideia é melhor do que ideia nenhuma, agarrei-me a esta questão dos números e explorei tudo o que sabia da empresa, a sua história, detalhes biográficos dos fundadores, o organigrama, número de funcionários e tudo o que pudesse relacionar com os números 2, 5 e 6, mas acabei por desistir.

No momento em que decidira assumir o meu fracasso, passámos pelo 256º andar e, como houve paragem, fiquei a olhar para os números do piso e dirigi-me impulsivamente à porta misteriosa, tentei abri-la, numa última possibilidade de escapar ao abismo, e... abriu.

Hoje já percebi que, graças a um mecanismo desconhecido, ela só abre no andar 256, que é justamente o piso onde se encontram os escritórios da IIVVI.

Após o que me pareceu ser uma questão de lógica solucionada, a relação entre o nome da empresa e o piso onde se encontra, caí, então, na minha frágil sensação de liberdade.

Por só agora ter descoberto a única via de acesso ao exterior, fui obrigado a reconhecer que, na verdade, nunca saíra.

Caiu sobre mim como uma bomba a revelação de que, afinal, havia cores que eu nunca vira, cheiros que nunca sentira, sabores que nunca experimentara. O meu constante contacto com as descrições da realidade foi deturpando a minha perceção de um real contacto com um mundo diverso e eu estava mesmo convencido de que tinha, de facto, interagido com o todo, mas não.

Em conclusão, caro amigo, passei toda a minha vida rodeado destas mesmas paredes que ainda agora me circundam, mas não sei se é bom ou mau. Não sei se preciso mesmo de contactar um mundo real ou se me basta a sensação de o ter feito.

Por conseguir, nas minhas escutas, reunir tantos ângulos, não tenho qualquer dificuldade em sentir experiências que não tive e anular tudo aquilo que verdadeiramente me desinteressa.

Eu sei que o mundo não é assim.

Sei que dele fui construindo uma versão baseada em fragmentos ocasionais.

A dúvida que me inquietou inicialmente foi saber se queria que a minha versão do mundo se fosse aproximando do mundo real, ou se preferia que assim se mantivesse.

Se me tivesse cruzado com indícios, no mundo exterior, da perfeição que aqui não alcanço e do êxtase que os poetas reclamam, saberia o que fazer. Mas entre a ilusão do que vivo e a desilusão do que me falta, prefiro esquecer tudo isto e continuar feliz na ignorância.

É que o saber, caro amigo, ocupa lugar.

Ocupa o lugar da inocência...

e do quanto há de mistério na escuridão.




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