A maldição de Caio
Pacífico Maria Figoldes
Boa noite.
Passaram já quase 3 anos
desde a última vez que alguém viu o Carl Gaupfis, antes do seu inexplicável desaparecimento
nas montanhas.
Nas suas múltiplas
frentes existenciais, podemo-nos referir a ele como...
um dos maiores
especialistas na datação de artefactos históricos, mundialmente reconhecido na
constante requisição internacional dos seus serviços e mestria;
o homem dos bastidores
do nosso jornal, aquele por cujos olhos eram sempre erradicadas as mais
impercetíveis incorreções, de forma a eliminar os ruídos interpretativos, não
só para o público em geral, como para os leitores mais exigentes;
o pai de duas meninas
lindas, cuja perda acidental da mãe durante a infância o levaria a inventar
formas mirabolantes de trabalhar de forma a não defraudar aqueles com quem se
ia comprometendo pontualmente (nós, os clientes, os associados, os colegas de trabalho),
mas, principalmente, com as suas princesas, cujo compromisso esteve sempre
acima de tudo;
voluntário numa das
principais empresas de fiscalização da aplicação dos direitos dos animais,
causa a que aderiu no sentido de compensar os efeitos da sua dieta
"incorrigivelmente omnívora" (palavras suas);
o meu grande amigo,
quase-irmão, aquele com quem sempre tive grandes debates, do qual sempre recebi
poucos mas significativos aplausos e com quem, desde os primeiros momentos, raramente
tive necessidade de completar uma frase, dada a sintonia de ângulos;
e, finalmente, como o
escritor sem rosto, que nunca deu entrevistas, que nunca autografou um livro -
que era eu quem, depois de lhe jurar vinte vezes que não revelaria a sua
identidade, lhe levava os originais ao editor, para que nem este soubesse quem
ele era - que me escolheu para seu correspondente nesta matéria e cujo
extraordinariamente sólido conhecimento de História o faria entediar-se com a
realidade, criando ficções de onde o mundo real partia, sim, mas nunca
comprometido a qualquer "limite de razoabilidade circunstancial",
assim se explicava.
Ainda hoje sem causa apontada,
o seu desaparecimento deixa-nos uma consternação inquietante que quase iguala a
indefinição da sua ausência com a falta que ele, efetivamente, nos faz.
Como homenagear o Carl Gaupfis implica visitar fragmentos do seu pensamento, partilho convosco uma
troca de correspondência entre eu e ele (mais dele do que minha) que esteve na
origem de um dos seus últimos contos, "A Maldição de Caio".
Amigo Figoldes
As minhas princesas,
familiares e amigos já partiram, o verão terminou e regressaram às suas vidas
complexas. Durante o tempo em que as tive cá a passar férias, a minha casa
encheu-se de vida e simultâneos. Completou-me.
Partilho apenas contigo
(outros entenderiam friamente as minhas palavras) que não choro quando elas se
vão embora, não pressinto o vazio desesperante da sua ausência e não fico
pré-ocupado pela aproximação do dia em que voltarei a ficar só com os meus gatos,
apesar de reconhecer que, emocionalmente, muito dependo desse mês para me
equilibrar ao longo do ano. É que eu gosto muito de estar sozinho e, quando
elas se vão, não fica um vazio, pois sei que vou voltar a outras rotinas, sendo
que é justamente sobre uma delas que te contacto.
Imaginas o que seja,
certo? Por que outra razão te escreveria uma carta, assim, em papel e caneta,
old-school, não fosse o início de mais um, palavras tuas, "escapismo
literário inverosímil"?
Não sei se te apanho em
altura menos disponível, por isso faço como sempre tenho feito contigo. Vou-te
escrevendo à medida que avançar e tu, quando puderes, preferencialmente lá mais
para o fim, dir-me-ás o que te vai na alma.
Para começar,
introduzo-te no tema, nomeadamente, numa viagem que este ano fizemos em família
a uma praia perto de Sines, a praia de São Torpes, sabendo tu de antemão que
praia não é propriamente a minha opção preferencial para passar o tempo. Assim,
uma vez instalados e o primeiro mergulho dado, deixei-os a fazer aquelas coisas
incompreensíveis que as pessoas fazem quando estão horas e horas na praia e
peguei no meu genro, o Alzo (de ascendência mexicana), que também sente o mesmo
que eu quanto aos cenários arenosos, e fomos até ao Kalux, o café mais próximo,
onde nos ocupámos a testar a veracidade do bom e fresco vinho branco, que dali
nos tinha sido apregoado. A meio da manhã, depois de 2 garrafas vazias, já um
pouco anestesiados, vimos aproximar-se do café o Antunes, um senhor com ar de
pescador dos antigos, pouco veraneante. Chamou-me a atenção a indumentária e
não resisti a meter conversa com ele que, poucos minutos depois, já partilhava
connosco a terceira garrafita e com quem ficámos a conversar até que nos foram
chamar.
Contou-nos então uma
história sobre o porquê do nome da praia e foi essa narrativa que incentivou o
conto com que, de momento, me encontro a braços.
À história que lá ouvi
acrescentei pesquisas que fiz e até falei longamente com um membro do clero,
amigo meu de infância que, apesar de também não estar bem dentro do assunto, se
interessou pela lenda e conseguiu, nos seus acessos privilegiados, obter alguma
informação mais detalhada sobre as circunstâncias desta narrativa popular.
Desinteressou-me, logo
à partida, a possibilidade de criar paralelos de confronto entre o que
realmente aconteceu com o que a lenda entretanto embelezou.
Deu-se-me então um nó
na cabeça.
Não me apetecia o
romance histórico, ter de recriar a época e contá-la a partir, por exemplo, do
depoimento de um contemporâneo. É um bom exercício, mas, para o que me apetecia
no momento, parecia-me muito limitador.
Por outro lado, apesar
de não querer vincular-me à História, seria uma traição a mim próprio ignorar o
que já, entretanto, ficara a saber, não só dos factos que poderão, de alguma
forma, confirmar alguns elementos da tradição, como tudo o que lhe foi sendo
acrescentado pelos tempos, legitimando-lhe a categoria de lenda.
É claro que, a
complicar o rumo da narrativa, não posso negligenciar o facto de gostar de me
deixar levar pela urgência do texto, aquele momento em que uma ideia acaba de
nascer, não porque faça parte de um plano de ação, mas pelo simples facto de a
frase anterior o exigir. Esse deixar-me levar faz-me bem, liberta-me, é como
tirar férias de mim próprio.
Voltei-me então para a multi-temporalidade
e, como cenário inaugural, no séc XXIII, saiu-me isto:
"Comemoramos hoje
os primeiros 50 anos de atividade do Instituto de Regressões. Façamos-lhe um
pequeno resumo biográfico, não subestimando o que já se conseguiu e do muito
que ainda terá para nos surpreender.
A romântica e
apaixonante ideia de regressar no tempo encontrou sempre obstáculos
ético-legislativos, principalmente pela incapacidade de contornar os paradoxos
temporais, os que poderiam eliminar o presente profuso, caso o passado fosse
transfigurado.
Porém, porque a força
do sonho não cedeu ao domínio do medo, os avanços da ciência especulativa
permitiram contornar esse problema e explorar o inesgotável terreno do
multiverso, destapando, entre outras, a realidade dos Estáticos Passados
Paralelos (EPP).
Estes EPPs foram
descobertos quando nos atrevemos a cruzar a Interpretação de Copenhaga, de
Niels Bohr, com o conceito de Universo Participativo, de John Wheeler,
atribuindo, definitivamente, ao subjetivismo a única possibilidade objetiva de
reconhecer e de interagir com qualquer ambiente histórico."
Estava a ficar muito
técnico. Senti necessidade de explicar a ideia e assim seguiu:
"Os EPPs são
realidades quânticas que não existem em permanência, mas que se materializam
apenas quando são visitadas, uma cópia exata da realidade que não interfere na
linearidade histórica, não perturbando o presente. É como viver um filme
interativo de um passado reconstruído, que se desvanece de forma absolutamente
inconsequente quando o filme termina, porque é apenas uma cópia desse passado.
Não é real.
Se numa primeira fase,
a do receio, o Centro de Regressões era apenas usado por autoridades de áreas
muito restritas, posteriormente alargou a sua esfera de ação, primeiro à
imprensa de investigação (a única credível), depois aos cidadãos comuns,
maioritariamente curiosos pelas suas próprias biografias."
Pensei então assumir a
ideia de um narrador plural, tendo-me decidido por um grupo de jornalistas de
investigação, daí ter acrescentado, como indício, o excerto "(a única
credível)", quando é referida a imprensa de investigação. Topaste, certamente.
"No âmbito desse
alargamento, deitámos mãos à obra e decidimos solucionar um enigma que nos tem
atormentado a objetividade museológica. Foi necessário viajar até diferentes
EPPs para perceber quais seriam os que nos ajudariam a compreender esta intemporalidade
mal resolvida. Fizemos variadíssimas entrevistas a pessoas dessas entidades
passadas, tendo circunscrito o nível de aprofundamento aos séculos I, II e XVI,
de onde tentámos compreender o fenómeno, à luz das exigências do nosso século
XXIII.
É possível que tenhamos
tido sucesso, mas o preço nunca deve ser descartado quando se avalia uma conclusão.
Convidamos-vos a pensar connosco.
Partilhamos, assim, os
passos dados para que compreendam melhor a biografia dos eventos e a nossa
imprevista consternação pelo trágico resultado."
Não sei porque escrevi
aqui este último segmento, "e a nossa imprevista consternação pelo trágico
resultado". Só sei que estava mesmo a pedi-las. Espero que o desenrolar da
história não me faça reescrever este bocadinho.
"Comecemos por uma
introdução contextual.
Falemos do ano 63,
quando Nero decide iniciar uma campanha de eliminação de opositores,
nomeadamente religiosos, que teve como apogeu o massacre dos cristãos, a quem
atribuiu a autoria do Grande Incêndio de Roma (em 64).
Tendo-se apercebido da
dificuldade em subjugar a vontade dos cristãos, Nero opta por punir
exemplarmente todos os que se assumissem convertidos a este novo obstáculo à
sua autoridade, acreditando com isso desmotivar a cada vez mais visível
disseminação deste novo culto, outro."
"É no âmbito dessa
campanha anticristã que o imperador descobre que um dos seus mais próximos
conselheiros, o nobre Caio Silvius Torpetius, defendia a cristandade,
condenando-o à morte por desmembramento. As suas mãos e cabeça são arrancadas,
em sessão pública, do corpo ainda vivo de Caio, num espetáculo sádico, bem ao
gosto da pedagogia imperial de Nero.
A cabeça, as mãos e o
resto do seu corpo são então enviados, separadamente, em pequenas barcas pelo
Mediterrâneo, tendo a cabeça chegado à costa Libanesa, as mãos à costa francesa
e o resto do corpo à costa portuguesa (a uma praia perto de Sines que, por essa
razão, passou a ser conhecida por Praia de São Torpes).
No volume IV dos
"Apontamentos de Nero", no capítulo das "Condenações",
encontramos uma breve referência a este acontecimento, a única:
"A minha maior
desilusão foi o meu confidente Silvius, que admitiu obedecer a um outro poder
que não o meu. Insinuou, arrogante, que não temia a morte neste mundo pois
via-se como um soldado de Cristo e ainda afirmou que levaria consigo todos os
que sentissem o calor das suas mãos vivas. Por estas suas palavras, em vez de
só ser decapitado, como é costume, ainda lhe decepámos as mãos."
Tendo-nos cruzado com registos
históricos dos achados das três partes do corpo, confirmando o horror da
justiça imperial, um paralelo enigmático espoletaria toda esta investigação.
Em todos esses relatos,
ainda que separados pelo tempo e pela geografia, as testemunhas nos diferentes locais
onde os pedaços de Caio se encontravam relataram o mesmo surgimento sazonal de
um pequena mancha vermelha, que misteriosamente se desvanecia também em todos,
pouco tempo depois.
Estava lançado o mote
para viajarmos até aos EPPs referidos, tendo começado o nosso percurso em Roma,
no EPP do século I, onde confirmámos, junto de um funcionário judicial de Nero,
Aurélius, o processo que levaria ao final trágico do nobre Caio.
Soubemos que, para
evitar a criação de relíquias, moda na época, as diferentes barcas que
transportaram o corpo desmembrado de Caio não levaram nenhum marinheiro e foi
proibida qualquer monitorização dos seus percursos, garantindo que ficariam
efetivamente perdidas e separadas.
Antecipando passos na
investigação, adiantamos que as partes recuperadas só muito posteriormente
foram atribuídas a Caio, dadas as limitações das épocas em determinar a sua
origem."
"Aurélius Rufus, o
funcionário judicial de Nero que entrevistámos no EPP do século I, recebeu-nos
no palácio do imperador, num momento em que este se ausentara por um mês para
celebrar o casamento de um familiar, entre outras festas.
Com a combinação
infalível entre um palácio imperial e um Aurélius inteiramente à nossa
disposição, a viagem que duraria apenas algumas horas, prolongou-se por quase
uma semana.
Não vou aqui aprofundar
nem listar os valiosíssimos detalhes históricos e culturais que recolhemos
nesta visita, apenas o suficiente para nos contextualizar na razão que nos
levou ao século I. Voltaremos a eles em momentos de reescrita histórica, pois,
entre revelações, confirmações e correções das hipóteses e teorias que já
tínhamos dessa época, muito trouxemos para contribuir e clarificar.
Aurélius integrava um
equipa de funcionários diretos de Nero que tinha, como objetivo único, criar
formas legais de concretizar as suas vontades, tentando influenciar e descobrir
brechas nas decisões do senado, com quem Nero tinha a pior relação possível.
Além disso, Aurélius
era também o responsável pela imensa coleção de preciosidades de Nero. O
imperador tinha um grande orgulho no seu "jardim de tesouros" e, na
sua esquizofrénica hierarquia de relevância, Aurélius, por isso, ocupava um dos
mais bem pagos cargos do império. A sua coleção preenchia uma ala colossal de
acesso restrito onde troféus, ofertas e muitas recordações (como indumentárias,
crânios de animais e pedras preciosas) eram exibidas com vaidade a qualquer
personalidade de relevo a quem Nero concedesse uma audiência.
Convém referir que à
época do império romano não havia propriamente museus, pelo menos não no
conceito e com a dimensão de acesso generalizado que temos hoje em dia, sendo
que tudo o que nos chegou através da museologia intertemporal teve as coleções
privadas, como esta de Nero, como ponto de partida. Aliás, partes
significativas do espólio da sua coleção podem ainda hoje ser apreciadas no
Museu do Vaticano, do início do século XVI, este, sim, um dos primeiros museus
do mundo.
Aurélius, no fundo,
quanto ao tema que nos interessava, apenas nos confirmou, na primeira pessoa,
as informações que já recolhêramos da condenação e do julgamento de Caio,
tendo-nos ainda mostrado a sala onde o julgamento aconteceu. Tirando isso, nada
mais nos pôde acrescentar, pois, com exceção da já referida nota nas
"Condenações", Nero fez questão de apagar dos anais da História tudo
o que se relacionasse com este caso."
Amigo Pacífico, desde o
início do texto que está definido o enigma.
Sei, companheiro, que
preferes conhecer o motor de uma história logo no início para, citando-te,
"saborear o percurso sem ansiedades parvas". Por isso, a anunciação
da mancha misteriosa define desde logo o enigma e à qual me volto a referir abaixo,
como verás.
Acima de tudo isto,
ainda há que resolver a questão de levar a história a um "trágico
resultado" que, de momento, nem imagino. Veremos.
"Se, por um lado,
pouco nos acrescentou a visita ao primeiro EPP no século I, trouxemos, não
menos importante, a confirmação do contexto inicial e pudemos, com esta
segurança, avançar para os passos seguintes.
Decidimos, por
curiosidade indomável e já que tínhamos acabado de visitar uma coleção, saltar logo
para o século XVI, poucos anos após a inauguração do já referido Museu do
Vaticano onde, obviamente, relíquias e outras preciosidades associadas ao
divino ainda hoje têm lugar de destaque.
Tivemos a sorte de nos
ser concedida uma audiência com o papa Júlio II, conhecedor e entusiasta da
história de Caio, que, além de papa, foi também o supervisor e fundador do
museu, tendo conseguido, através de uma operação extraordinariamente bem
montada, reunir toda a informação relevante, dispersa pelo extenso domínio da
cristandade.
Disse-nos o próprio que
o que primeiramente lhe despertou a atenção para este caso particular fora a
descoberta de um cadáver decapitado e sem mãos, provavelmente datado do século
I, numa zona costeira de Portugal, no atual concelho de Sines. Quando soube,
enviou imediatamente estudiosos do museu ao local, que encontraram provas
convincentes sobre a identidade do cadáver, confirmando tratar-se do romano
Caio Silvius Torpetius, mais conhecido por São Torpes, um dos primeiros
mártires.
Pois foi justamente nos
arquivos documentais do ainda ativo Museu do Vaticano que pudemos confirmar, em
primeira mão, as descrições enigmáticas que nos levaram a este desafio de
lógica.
Registam os documentos
consultados a presença esporádica de uma mancha vermelha, descrita exatamente
da mesma forma, numa cabeça na Líbia do séc II, numas mãos em Saint Tropez do
século XII e no restante corpo a uma praia perto de Sines, onde, através de
processos taxidérmicos ainda se encontra exposto no museu local.
Da consulta de toda a
documentação pareceu-nos que havia algo de muito incompreensível nestas
aparições, pelo que, antes de as considerarmos apenas coincidências, sentimos
necessidade de aprofundar."
Por este naco escrito
que aqui partilho contigo, decidi, finalmente, dar nome ao conto.
"Manchas no
tempo"
Parece-te adequado?
"Ainda no Museu do
Vaticano pudemos fotografar em 3D as mãos de Caio, cujos primeiros registos nos
chegam da costa francesa do séc XII, e cuja biografia começa na posse de um
comerciante abastado, colecionador compulsivo, que as terá comprado como
relíquias sem saber bem de quem, e que acabaram por vir parar a este museu,
onde já aparecem expostas como sendo, confirmadamente, as de Caio. Sabemos que
poucos anos depois foram levadas para uma exposição temporária numa catedral,
mas que a caravana foi assaltada, sendo que desde então se desconhece o seu
paradeiro.
A importância da
identificação das mãos como sendo as do mártir Caio Silvius Torpetius é tal que
o local onde o comerciante as terá adquirido foi então rebatizado com o nome
Saint Tropez, em sua homenagem."
Partimos então para a
atual Líbia, no séc II, quando o território ainda fazia parte do império
romano, e antes que um tsunami (que no séc III atingiu a Península Ibérica e
também chegou ao Norte de África), tivesse feito desaparecer para todo o sempre
a relíquia que lá nos levaria. Dou-te conta da viagem no resumido excerto
abaixo, ainda que no texto completo encontres muito mais informação contextual,
que eu sei que tu gostas.
"Viajámos então
até à casa de um pescador do Norte de África, um simples pescador, que no séc
II deixou em registo documentado num processo criminal absolutamente
irrelevante para o nosso caso, que tinha em sua posse uma cabeça, conservada,
que o seu pai teria encontrado numa barca durante uma das suas viagens
piscatórias. Conseguimos então entrevistar o próprio que, entre outras
informações dispersas, mas favoráveis à correspondência com a tragédia de Caio,
nos informou das circunstâncias em que, regularmente e de forma inexplicável, a
tal mancha vermelha aparecia e desaparecia na cabeça decapitada."
Terminadas as viagens
ao passado, voltámos então ao tempo da narrativa, o séc XXIII, para visitarmos
o museu onde ainda se encontra a única prova física de todo este empreendimento,
o corpo desmembrado de Caio.
"(...) e assim
reproduzimos virtualmente os registos tridimensionais que trouxemos dos
passados e conseguimos reconstruir o corpo do mártir, confirmando, num
exercício perfeito de puzzle, que eram segmentos da mesma unidade.
As manchas então
ativaram-se, como se fossem pontos de passagem de uma corrente energética."
Fiquei aqui, amigo
Figoldes.
E agora?
Ando confuso, não sei
por onde avançar para não defraudar a ideia inicial do "trágico resultado". Tenciono
deixar o texto em standby até ouvir os teus sempre sábios conselhos.
Caro Carl
(acho sempre graça à
sonoridade que advém deste cumprimento)
Antes de mais, agradeço
não deixares os leitores a nadar sem água durante muito tempo, como é teu
costume. Eu sei que na literatura as referências de qualidade são sempre
individuais e temporárias e que, por isso, cada escritor honesto devia esquecer
que a literatura existe quando escreve, mas, insisto no meu protesto
recorrente, nunca se devem esquecer os leitores.
Costumas pedir-me para
te resumir o que vais escrevendo antes de seguir para os editores, o que eu
acho uma excelente estratégia, não por ser a minha leitura, mas por quereres
que alguém confirme a eficácia comunicativa do texto, que, tu sabes bem, é para
mim a mais nobre função da língua-prosa. (Se fossem poemas a conversa seria
outra.)
Desta vez porém
pedes-me que te ajude na conclusão. Que responsabilidade!
Ora bem, há três pontas
soltas incontornáveis para tal: a maldição que Caio rogou no momento da sua
condenação, que lhe terá levado à amputação das mãos; o caso das manchas (a
propósito, não gosto do título, é impessoal); e o "trágico
resultado", que me agrada particularmente pois não costumo simpatizar com
finais felizes.
Ando há dias a pensar
no assunto, até tenho sonhado com isso, e tenho uma ideia, vaga, que te avanço.
Chamo-lhe vaga pois apenas afunila o pensamento.
Esqueço a questão da multi-temporalidade,
que já vi que resolveste na combinação dos elementos dos passados nesse museu especulativo
do século XXIII, onde é possível recriar e reativar o tal "puzzle".
Antes de mais, esse
museu deve seguir, se a coerência evolutiva te interessar, uma linha de
pensamento funcional que envolva a ausência de espaço físico, transformando a
experiência de o visitar num acontecimento individual e único. Um museu que
existe no vazio e só se materializa e anima quando é visitado.
No que me parece saudável,
deves investir na recriação das circunstâncias exatas onde as tais manchas
vermelhas aparecem e desaparecem e daí, dependendo das conclusões a que
chegares, poderá brotar a tal tragédia final.
Sei que a última
palavra é sempre tua, afinal és tu o autor e só tu saberás com que genialidade
fazê-lo, por isso, sinto-me como se estivesse a dizer ao Dali para também usar
a cor azul num quadro, com tudo o que isso manteria, ainda assim, de inimaginável
na previsão do resultado.
Obrigado, amigo
Pacífico
Ajudaste-me mais do que
pensas, fizeste-me pensar nas circunstâncias e nesse exercício fez-se-me luz.
Ainda acrescentei
algumas páginas ao final, das quais te deixo este resumo que, perceberás,
apanha boleia das "pontas soltas" que identificaste.
Acabei também por
renomear o conto. Para te dizer a verdade, também não gostava muito do outro
nome, por isso passou a "A maldição de Caio", que me parece mais narrativo.
Dir-me-ás, depois de leres, se concordas.
"No laboratório do
museu conseguimos recriar as condições do aparecimento original de cada mancha
e após confirmações contextuais e rigorosas análises cénicas percebemos que
elas apareciam sempre em tempo clássico de primavera (temperatura amena), ao
fim do dia (penumbra), com pouco ruído interior e exterior (quase silêncio) e
sempre na presença de apenas uma pessoa (uma só testemunha).
Foi fácil reproduzir as
condições de temperatura, luminosidade e som e, após algumas tentativas
falhadas, concluímos que, para sermos fieis ao cenários originais, afinal
tínhamos mesmo que isolar todo o acesso de registos ao laboratório de forma a
que só houvesse uma testemunha. Sem escutas, sem filmagens, só um só de nós,
dois olhos apenas. O nosso colega Hugo ofereceu-se.
Fomos acompanhando, às
cegas, o avanço da operação na esperança, não só de conseguirmos reativar as
manchas, como de, pelo facto de termos o corpo virtualmente completo, nos
permitir entender um pouco mais do fenómeno a que as supostas manchas poderiam
estar associadas, já que nos pareceu, desde o início, que havia aqui indícios
de intenção comunicativa.
O laboratório foi então
isolado do mundo e aguardámos e aguardámos e aguardámos. Quando o tempo nos
pareceu demasiado sem termos feedback do interior, preocupámo-nos e decidimos abortar
o projeto e entrar.
No laboratório esperava-nos
o pior dos cenários: em frente à porta, o corpo virtualmente completo de Caio
parecia resplandecer de vida enquanto aos seus pés jazia, lívido e
estrangulado, o nosso querido amigo Hugo.
Apagámos imediatamente
a projeção das mãos, tendo verificado que as marcas de dedos vincadas no
pescoço do Hugo coincidiam, em todas as frentes mensuráveis, com os dedos de
Caio.
Caio regressara, assim,
para substituir uma real vida nova pelos instantes ressuscitados de uma virtual
vida antiga.
Caio regressara para
levar "consigo todos os que sentissem o calor das suas mãos vivas".
Nero, afinal, no séc I
e apesar de toda a sua loucura, teve um vislumbre iluminado e, dispersando as
mãos assassinas, conseguiu adiar esta eterna maldição.
Nós, no séc XXIII, não
conseguimos."
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