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A maldição de Caio

A maldição de Caio

Pacífico Maria Figoldes

 

Boa noite.

Passaram já quase 3 anos desde a última vez que alguém viu o Carl Gaupfis, antes do seu inexplicável desaparecimento nas montanhas.

Nas suas múltiplas frentes existenciais, podemo-nos referir a ele como...

um dos maiores especialistas na datação de artefactos históricos, mundialmente reconhecido na constante requisição internacional dos seus serviços e mestria;

o homem dos bastidores do nosso jornal, aquele por cujos olhos eram sempre erradicadas as mais impercetíveis incorreções, de forma a eliminar os ruídos interpretativos, não só para o público em geral, como para os leitores mais exigentes;

o pai de duas meninas lindas, cuja perda acidental da mãe durante a infância o levaria a inventar formas mirabolantes de trabalhar de forma a não defraudar aqueles com quem se ia comprometendo pontualmente (nós, os clientes, os associados, os colegas de trabalho), mas, principalmente, com as suas princesas, cujo compromisso esteve sempre acima de tudo;

voluntário numa das principais empresas de fiscalização da aplicação dos direitos dos animais, causa a que aderiu no sentido de compensar os efeitos da sua dieta "incorrigivelmente omnívora" (palavras suas);

o meu grande amigo, quase-irmão, aquele com quem sempre tive grandes debates, do qual sempre recebi poucos mas significativos aplausos e com quem, desde os primeiros momentos, raramente tive necessidade de completar uma frase, dada a sintonia de ângulos;

e, finalmente, como o escritor sem rosto, que nunca deu entrevistas, que nunca autografou um livro - que era eu quem, depois de lhe jurar vinte vezes que não revelaria a sua identidade, lhe levava os originais ao editor, para que nem este soubesse quem ele era - que me escolheu para seu correspondente nesta matéria e cujo extraordinariamente sólido conhecimento de História o faria entediar-se com a realidade, criando ficções de onde o mundo real partia, sim, mas nunca comprometido a qualquer "limite de razoabilidade circunstancial", assim se explicava.

Ainda hoje sem causa apontada, o seu desaparecimento deixa-nos uma consternação inquietante que quase iguala a indefinição da sua ausência com a falta que ele, efetivamente, nos faz.

Como homenagear o Carl Gaupfis implica visitar fragmentos do seu pensamento, partilho convosco uma troca de correspondência entre eu e ele (mais dele do que minha) que esteve na origem de um dos seus últimos contos, "A Maldição de Caio".

 

 

Amigo Figoldes

As minhas princesas, familiares e amigos já partiram, o verão terminou e regressaram às suas vidas complexas. Durante o tempo em que as tive cá a passar férias, a minha casa encheu-se de vida e simultâneos. Completou-me.

Partilho apenas contigo (outros entenderiam friamente as minhas palavras) que não choro quando elas se vão embora, não pressinto o vazio desesperante da sua ausência e não fico pré-ocupado pela aproximação do dia em que voltarei a ficar só com os meus gatos, apesar de reconhecer que, emocionalmente, muito dependo desse mês para me equilibrar ao longo do ano. É que eu gosto muito de estar sozinho e, quando elas se vão, não fica um vazio, pois sei que vou voltar a outras rotinas, sendo que é justamente sobre uma delas que te contacto.

Imaginas o que seja, certo? Por que outra razão te escreveria uma carta, assim, em papel e caneta, old-school, não fosse o início de mais um, palavras tuas, "escapismo literário inverosímil"?

Não sei se te apanho em altura menos disponível, por isso faço como sempre tenho feito contigo. Vou-te escrevendo à medida que avançar e tu, quando puderes, preferencialmente lá mais para o fim, dir-me-ás o que te vai na alma.

Para começar, introduzo-te no tema, nomeadamente, numa viagem que este ano fizemos em família a uma praia perto de Sines, a praia de São Torpes, sabendo tu de antemão que praia não é propriamente a minha opção preferencial para passar o tempo. Assim, uma vez instalados e o primeiro mergulho dado, deixei-os a fazer aquelas coisas incompreensíveis que as pessoas fazem quando estão horas e horas na praia e peguei no meu genro, o Alzo (de ascendência mexicana), que também sente o mesmo que eu quanto aos cenários arenosos, e fomos até ao Kalux, o café mais próximo, onde nos ocupámos a testar a veracidade do bom e fresco vinho branco, que dali nos tinha sido apregoado. A meio da manhã, depois de 2 garrafas vazias, já um pouco anestesiados, vimos aproximar-se do café o Antunes, um senhor com ar de pescador dos antigos, pouco veraneante. Chamou-me a atenção a indumentária e não resisti a meter conversa com ele que, poucos minutos depois, já partilhava connosco a terceira garrafita e com quem ficámos a conversar até que nos foram chamar.

Contou-nos então uma história sobre o porquê do nome da praia e foi essa narrativa que incentivou o conto com que, de momento, me encontro a braços.

 

 

À história que lá ouvi acrescentei pesquisas que fiz e até falei longamente com um membro do clero, amigo meu de infância que, apesar de também não estar bem dentro do assunto, se interessou pela lenda e conseguiu, nos seus acessos privilegiados, obter alguma informação mais detalhada sobre as circunstâncias desta narrativa popular.

Desinteressou-me, logo à partida, a possibilidade de criar paralelos de confronto entre o que realmente aconteceu com o que a lenda entretanto embelezou.

Deu-se-me então um nó na cabeça.

Não me apetecia o romance histórico, ter de recriar a época e contá-la a partir, por exemplo, do depoimento de um contemporâneo. É um bom exercício, mas, para o que me apetecia no momento, parecia-me muito limitador.

Por outro lado, apesar de não querer vincular-me à História, seria uma traição a mim próprio ignorar o que já, entretanto, ficara a saber, não só dos factos que poderão, de alguma forma, confirmar alguns elementos da tradição, como tudo o que lhe foi sendo acrescentado pelos tempos, legitimando-lhe a categoria de lenda.

É claro que, a complicar o rumo da narrativa, não posso negligenciar o facto de gostar de me deixar levar pela urgência do texto, aquele momento em que uma ideia acaba de nascer, não porque faça parte de um plano de ação, mas pelo simples facto de a frase anterior o exigir. Esse deixar-me levar faz-me bem, liberta-me, é como tirar férias de mim próprio.

Voltei-me então para a multi-temporalidade e, como cenário inaugural, no séc XXIII, saiu-me isto:

 


"Comemoramos hoje os primeiros 50 anos de atividade do Instituto de Regressões. Façamos-lhe um pequeno resumo biográfico, não subestimando o que já se conseguiu e do muito que ainda terá para nos surpreender.

A romântica e apaixonante ideia de regressar no tempo encontrou sempre obstáculos ético-legislativos, principalmente pela incapacidade de contornar os paradoxos temporais, os que poderiam eliminar o presente profuso, caso o passado fosse transfigurado.

Porém, porque a força do sonho não cedeu ao domínio do medo, os avanços da ciência especulativa permitiram contornar esse problema e explorar o inesgotável terreno do multiverso, destapando, entre outras, a realidade dos Estáticos Passados Paralelos (EPP).

Estes EPPs foram descobertos quando nos atrevemos a cruzar a Interpretação de Copenhaga, de Niels Bohr, com o conceito de Universo Participativo, de John Wheeler, atribuindo, definitivamente, ao subjetivismo a única possibilidade objetiva de reconhecer e de interagir com qualquer ambiente histórico."

 

 

Estava a ficar muito técnico. Senti necessidade de explicar a ideia e assim seguiu:

 


"Os EPPs são realidades quânticas que não existem em permanência, mas que se materializam apenas quando são visitadas, uma cópia exata da realidade que não interfere na linearidade histórica, não perturbando o presente. É como viver um filme interativo de um passado reconstruído, que se desvanece de forma absolutamente inconsequente quando o filme termina, porque é apenas uma cópia desse passado. Não é real.

Se numa primeira fase, a do receio, o Centro de Regressões era apenas usado por autoridades de áreas muito restritas, posteriormente alargou a sua esfera de ação, primeiro à imprensa de investigação (a única credível), depois aos cidadãos comuns, maioritariamente curiosos pelas suas próprias biografias."

 


Pensei então assumir a ideia de um narrador plural, tendo-me decidido por um grupo de jornalistas de investigação, daí ter acrescentado, como indício, o excerto "(a única credível)", quando é referida a imprensa de investigação. Topaste, certamente.

 


"No âmbito desse alargamento, deitámos mãos à obra e decidimos solucionar um enigma que nos tem atormentado a objetividade museológica. Foi necessário viajar até diferentes EPPs para perceber quais seriam os que nos ajudariam a compreender esta intemporalidade mal resolvida. Fizemos variadíssimas entrevistas a pessoas dessas entidades passadas, tendo circunscrito o nível de aprofundamento aos séculos I, II e XVI, de onde tentámos compreender o fenómeno, à luz das exigências do nosso século XXIII.

É possível que tenhamos tido sucesso, mas o preço nunca deve ser descartado quando se avalia uma conclusão. Convidamos-vos a pensar connosco.

Partilhamos, assim, os passos dados para que compreendam melhor a biografia dos eventos e a nossa imprevista consternação pelo trágico resultado."

 


Não sei porque escrevi aqui este último segmento, "e a nossa imprevista consternação pelo trágico resultado". Só sei que estava mesmo a pedi-las. Espero que o desenrolar da história não me faça reescrever este bocadinho.

 


"Comecemos por uma introdução contextual.

Falemos do ano 63, quando Nero decide iniciar uma campanha de eliminação de opositores, nomeadamente religiosos, que teve como apogeu o massacre dos cristãos, a quem atribuiu a autoria do Grande Incêndio de Roma (em 64).

Tendo-se apercebido da dificuldade em subjugar a vontade dos cristãos, Nero opta por punir exemplarmente todos os que se assumissem convertidos a este novo obstáculo à sua autoridade, acreditando com isso desmotivar a cada vez mais visível disseminação deste novo culto, outro."

 

 

"É no âmbito dessa campanha anticristã que o imperador descobre que um dos seus mais próximos conselheiros, o nobre Caio Silvius Torpetius, defendia a cristandade, condenando-o à morte por desmembramento. As suas mãos e cabeça são arrancadas, em sessão pública, do corpo ainda vivo de Caio, num espetáculo sádico, bem ao gosto da pedagogia imperial de Nero.

A cabeça, as mãos e o resto do seu corpo são então enviados, separadamente, em pequenas barcas pelo Mediterrâneo, tendo a cabeça chegado à costa Libanesa, as mãos à costa francesa e o resto do corpo à costa portuguesa (a uma praia perto de Sines que, por essa razão, passou a ser conhecida por Praia de São Torpes).

No volume IV dos "Apontamentos de Nero", no capítulo das "Condenações", encontramos uma breve referência a este acontecimento, a única:

"A minha maior desilusão foi o meu confidente Silvius, que admitiu obedecer a um outro poder que não o meu. Insinuou, arrogante, que não temia a morte neste mundo pois via-se como um soldado de Cristo e ainda afirmou que levaria consigo todos os que sentissem o calor das suas mãos vivas. Por estas suas palavras, em vez de só ser decapitado, como é costume, ainda lhe decepámos as mãos."

Tendo-nos cruzado com registos históricos dos achados das três partes do corpo, confirmando o horror da justiça imperial, um paralelo enigmático espoletaria toda esta investigação.

Em todos esses relatos, ainda que separados pelo tempo e pela geografia, as testemunhas nos diferentes locais onde os pedaços de Caio se encontravam relataram o mesmo surgimento sazonal de um pequena mancha vermelha, que misteriosamente se desvanecia também em todos, pouco tempo depois.

Estava lançado o mote para viajarmos até aos EPPs referidos, tendo começado o nosso percurso em Roma, no EPP do século I, onde confirmámos, junto de um funcionário judicial de Nero, Aurélius, o processo que levaria ao final trágico do nobre Caio.

Soubemos que, para evitar a criação de relíquias, moda na época, as diferentes barcas que transportaram o corpo desmembrado de Caio não levaram nenhum marinheiro e foi proibida qualquer monitorização dos seus percursos, garantindo que ficariam efetivamente perdidas e separadas.

Antecipando passos na investigação, adiantamos que as partes recuperadas só muito posteriormente foram atribuídas a Caio, dadas as limitações das épocas em determinar a sua origem."

 


"Aurélius Rufus, o funcionário judicial de Nero que entrevistámos no EPP do século I, recebeu-nos no palácio do imperador, num momento em que este se ausentara por um mês para celebrar o casamento de um familiar, entre outras festas.

Com a combinação infalível entre um palácio imperial e um Aurélius inteiramente à nossa disposição, a viagem que duraria apenas algumas horas, prolongou-se por quase uma semana.

Não vou aqui aprofundar nem listar os valiosíssimos detalhes históricos e culturais que recolhemos nesta visita, apenas o suficiente para nos contextualizar na razão que nos levou ao século I. Voltaremos a eles em momentos de reescrita histórica, pois, entre revelações, confirmações e correções das hipóteses e teorias que já tínhamos dessa época, muito trouxemos para contribuir e clarificar.

Aurélius integrava um equipa de funcionários diretos de Nero que tinha, como objetivo único, criar formas legais de concretizar as suas vontades, tentando influenciar e descobrir brechas nas decisões do senado, com quem Nero tinha a pior relação possível.

Além disso, Aurélius era também o responsável pela imensa coleção de preciosidades de Nero. O imperador tinha um grande orgulho no seu "jardim de tesouros" e, na sua esquizofrénica hierarquia de relevância, Aurélius, por isso, ocupava um dos mais bem pagos cargos do império. A sua coleção preenchia uma ala colossal de acesso restrito onde troféus, ofertas e muitas recordações (como indumentárias, crânios de animais e pedras preciosas) eram exibidas com vaidade a qualquer personalidade de relevo a quem Nero concedesse uma audiência.

Convém referir que à época do império romano não havia propriamente museus, pelo menos não no conceito e com a dimensão de acesso generalizado que temos hoje em dia, sendo que tudo o que nos chegou através da museologia intertemporal teve as coleções privadas, como esta de Nero, como ponto de partida. Aliás, partes significativas do espólio da sua coleção podem ainda hoje ser apreciadas no Museu do Vaticano, do início do século XVI, este, sim, um dos primeiros museus do mundo.

Aurélius, no fundo, quanto ao tema que nos interessava, apenas nos confirmou, na primeira pessoa, as informações que já recolhêramos da condenação e do julgamento de Caio, tendo-nos ainda mostrado a sala onde o julgamento aconteceu. Tirando isso, nada mais nos pôde acrescentar, pois, com exceção da já referida nota nas "Condenações", Nero fez questão de apagar dos anais da História tudo o que se relacionasse com este caso."

 

 

Amigo Pacífico, desde o início do texto que está definido o enigma.

Sei, companheiro, que preferes conhecer o motor de uma história logo no início para, citando-te, "saborear o percurso sem ansiedades parvas". Por isso, a anunciação da mancha misteriosa define desde logo o enigma e à qual me volto a referir abaixo, como verás.

Acima de tudo isto, ainda há que resolver a questão de levar a história a um "trágico resultado" que, de momento, nem imagino. Veremos.

 


"Se, por um lado, pouco nos acrescentou a visita ao primeiro EPP no século I, trouxemos, não menos importante, a confirmação do contexto inicial e pudemos, com esta segurança, avançar para os passos seguintes.

Decidimos, por curiosidade indomável e já que tínhamos acabado de visitar uma coleção, saltar logo para o século XVI, poucos anos após a inauguração do já referido Museu do Vaticano onde, obviamente, relíquias e outras preciosidades associadas ao divino ainda hoje têm lugar de destaque.

Tivemos a sorte de nos ser concedida uma audiência com o papa Júlio II, conhecedor e entusiasta da história de Caio, que, além de papa, foi também o supervisor e fundador do museu, tendo conseguido, através de uma operação extraordinariamente bem montada, reunir toda a informação relevante, dispersa pelo extenso domínio da cristandade.

Disse-nos o próprio que o que primeiramente lhe despertou a atenção para este caso particular fora a descoberta de um cadáver decapitado e sem mãos, provavelmente datado do século I, numa zona costeira de Portugal, no atual concelho de Sines. Quando soube, enviou imediatamente estudiosos do museu ao local, que encontraram provas convincentes sobre a identidade do cadáver, confirmando tratar-se do romano Caio Silvius Torpetius, mais conhecido por São Torpes, um dos primeiros mártires.

Pois foi justamente nos arquivos documentais do ainda ativo Museu do Vaticano que pudemos confirmar, em primeira mão, as descrições enigmáticas que nos levaram a este desafio de lógica.

Registam os documentos consultados a presença esporádica de uma mancha vermelha, descrita exatamente da mesma forma, numa cabeça na Líbia do séc II, numas mãos em Saint Tropez do século XII e no restante corpo a uma praia perto de Sines, onde, através de processos taxidérmicos ainda se encontra exposto no museu local.

Da consulta de toda a documentação pareceu-nos que havia algo de muito incompreensível nestas aparições, pelo que, antes de as considerarmos apenas coincidências, sentimos necessidade de aprofundar."

 


Por este naco escrito que aqui partilho contigo, decidi, finalmente, dar nome ao conto.

"Manchas no tempo"

Parece-te adequado?

 

 

"Ainda no Museu do Vaticano pudemos fotografar em 3D as mãos de Caio, cujos primeiros registos nos chegam da costa francesa do séc XII, e cuja biografia começa na posse de um comerciante abastado, colecionador compulsivo, que as terá comprado como relíquias sem saber bem de quem, e que acabaram por vir parar a este museu, onde já aparecem expostas como sendo, confirmadamente, as de Caio. Sabemos que poucos anos depois foram levadas para uma exposição temporária numa catedral, mas que a caravana foi assaltada, sendo que desde então se desconhece o seu paradeiro.

A importância da identificação das mãos como sendo as do mártir Caio Silvius Torpetius é tal que o local onde o comerciante as terá adquirido foi então rebatizado com o nome Saint Tropez, em sua homenagem."

 


Partimos então para a atual Líbia, no séc II, quando o território ainda fazia parte do império romano, e antes que um tsunami (que no séc III atingiu a Península Ibérica e também chegou ao Norte de África), tivesse feito desaparecer para todo o sempre a relíquia que lá nos levaria. Dou-te conta da viagem no resumido excerto abaixo, ainda que no texto completo encontres muito mais informação contextual, que eu sei que tu gostas.

 


"Viajámos então até à casa de um pescador do Norte de África, um simples pescador, que no séc II deixou em registo documentado num processo criminal absolutamente irrelevante para o nosso caso, que tinha em sua posse uma cabeça, conservada, que o seu pai teria encontrado numa barca durante uma das suas viagens piscatórias. Conseguimos então entrevistar o próprio que, entre outras informações dispersas, mas favoráveis à correspondência com a tragédia de Caio, nos informou das circunstâncias em que, regularmente e de forma inexplicável, a tal mancha vermelha aparecia e desaparecia na cabeça decapitada."

 


Terminadas as viagens ao passado, voltámos então ao tempo da narrativa, o séc XXIII, para visitarmos o museu onde ainda se encontra a única prova física de todo este empreendimento, o corpo desmembrado de Caio.


 

"(...) e assim reproduzimos virtualmente os registos tridimensionais que trouxemos dos passados e conseguimos reconstruir o corpo do mártir, confirmando, num exercício perfeito de puzzle, que eram segmentos da mesma unidade.

As manchas então ativaram-se, como se fossem pontos de passagem de uma corrente energética."

 


Fiquei aqui, amigo Figoldes.

E agora?

Ando confuso, não sei por onde avançar para não defraudar a ideia inicial  do "trágico resultado". Tenciono deixar o texto em standby até ouvir os teus sempre sábios conselhos.

 

 

Caro Carl

(acho sempre graça à sonoridade que advém deste cumprimento)

Antes de mais, agradeço não deixares os leitores a nadar sem água durante muito tempo, como é teu costume. Eu sei que na literatura as referências de qualidade são sempre individuais e temporárias e que, por isso, cada escritor honesto devia esquecer que a literatura existe quando escreve, mas, insisto no meu protesto recorrente, nunca se devem esquecer os leitores.

Costumas pedir-me para te resumir o que vais escrevendo antes de seguir para os editores, o que eu acho uma excelente estratégia, não por ser a minha leitura, mas por quereres que alguém confirme a eficácia comunicativa do texto, que, tu sabes bem, é para mim a mais nobre função da língua-prosa. (Se fossem poemas a conversa seria outra.)

Desta vez porém pedes-me que te ajude na conclusão. Que responsabilidade!

Ora bem, há três pontas soltas incontornáveis para tal: a maldição que Caio rogou no momento da sua condenação, que lhe terá levado à amputação das mãos; o caso das manchas (a propósito, não gosto do título, é impessoal); e o "trágico resultado", que me agrada particularmente pois não costumo simpatizar com finais felizes.

Ando há dias a pensar no assunto, até tenho sonhado com isso, e tenho uma ideia, vaga, que te avanço. Chamo-lhe vaga pois apenas afunila o pensamento.

Esqueço a questão da multi-temporalidade, que já vi que resolveste na combinação dos elementos dos passados nesse museu especulativo do século XXIII, onde é possível recriar e reativar o tal "puzzle".

Antes de mais, esse museu deve seguir, se a coerência evolutiva te interessar, uma linha de pensamento funcional que envolva a ausência de espaço físico, transformando a experiência de o visitar num acontecimento individual e único. Um museu que existe no vazio e só se materializa e anima quando é visitado.

No que me parece saudável, deves investir na recriação das circunstâncias exatas onde as tais manchas vermelhas aparecem e desaparecem e daí, dependendo das conclusões a que chegares, poderá brotar a tal tragédia final.

Sei que a última palavra é sempre tua, afinal és tu o autor e só tu saberás com que genialidade fazê-lo, por isso, sinto-me como se estivesse a dizer ao Dali para também usar a cor azul num quadro, com tudo o que isso manteria, ainda assim, de inimaginável na previsão do resultado.

 

 

Obrigado, amigo Pacífico

Ajudaste-me mais do que pensas, fizeste-me pensar nas circunstâncias e nesse exercício fez-se-me luz.

Ainda acrescentei algumas páginas ao final, das quais te deixo este resumo que, perceberás, apanha boleia das "pontas soltas" que identificaste.

Acabei também por renomear o conto. Para te dizer a verdade, também não gostava muito do outro nome, por isso passou a "A maldição de Caio", que me parece mais narrativo. Dir-me-ás, depois de leres, se concordas.

 


"No laboratório do museu conseguimos recriar as condições do aparecimento original de cada mancha e após confirmações contextuais e rigorosas análises cénicas percebemos que elas apareciam sempre em tempo clássico de primavera (temperatura amena), ao fim do dia (penumbra), com pouco ruído interior e exterior (quase silêncio) e sempre na presença de apenas uma pessoa (uma só testemunha).

Foi fácil reproduzir as condições de temperatura, luminosidade e som e, após algumas tentativas falhadas, concluímos que, para sermos fieis ao cenários originais, afinal tínhamos mesmo que isolar todo o acesso de registos ao laboratório de forma a que só houvesse uma testemunha. Sem escutas, sem filmagens, só um só de nós, dois olhos apenas. O nosso colega Hugo ofereceu-se.

Fomos acompanhando, às cegas, o avanço da operação na esperança, não só de conseguirmos reativar as manchas, como de, pelo facto de termos o corpo virtualmente completo, nos permitir entender um pouco mais do fenómeno a que as supostas manchas poderiam estar associadas, já que nos pareceu, desde o início, que havia aqui indícios de intenção comunicativa.

O laboratório foi então isolado do mundo e aguardámos e aguardámos e aguardámos. Quando o tempo nos pareceu demasiado sem termos feedback do interior, preocupámo-nos e decidimos abortar o projeto e entrar.

No laboratório esperava-nos o pior dos cenários: em frente à porta, o corpo virtualmente completo de Caio parecia resplandecer de vida enquanto aos seus pés jazia, lívido e estrangulado, o nosso querido amigo Hugo.

Apagámos imediatamente a projeção das mãos, tendo verificado que as marcas de dedos vincadas no pescoço do Hugo coincidiam, em todas as frentes mensuráveis, com os dedos de Caio.

Caio regressara, assim, para substituir uma real vida nova pelos instantes ressuscitados de uma virtual vida antiga.

Caio regressara para levar "consigo todos os que sentissem o calor das suas mãos vivas".

Nero, afinal, no séc I e apesar de toda a sua loucura, teve um vislumbre iluminado e, dispersando as mãos assassinas, conseguiu adiar esta eterna maldição.

Nós, no séc XXIII, não conseguimos."



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