Genoveva
Começaram
as férias escolares e a minha Jacinta terá de ir comigo para o trabalho. Por
mim ficava em casa, mas o meu marido acha que ela não é suficientemente
autónoma para resolver os inúmeros imprevistos com que a vida nos polvilha os
dias. Eu acho o contrário, a Tita (como lhe chamamos) consegue perfeitamente –
e às vezes até melhor do que nós – desenvencilhar-se dos obstáculos da vida.
Num
qualquer processo de observação descontextualizada é impossível não reparar no
quão lenta é a minha menina na resolução de problemas. Contudo, se dilatarmos a
nossa aflitiva noção de tempo, com o seu jeitinho, desajeitado mas convicto, chega
sempre ao desejado resultado.
Não
era o Saramago que dizia que não tínhamos de andar à pressa, não podíamos era
perder tempo? Pois a minha Tita é a personalização desse mesmo pensamento, já
que está constantemente a matutar em qualquer coisa (nunca aquela cabecinha
descontrai), sendo, por vezes, absurdamente lenta nas execuções e isso, em
ocasiões específicas, costuma ser um problema, principalmente social.
Quando,
logo nos primeiros estágios de crescimento, reparámos que ela parecia não controlar
os sons que produzia e que os seus movimentos, definitivamente, não
acompanhavam a urgência dos momentos, o meu patrão, o sr Sancho, que é
psiquiatra, aconselhou-me uma colega especialista e desde então que a minha
menina tem tido, graças a ele, uma sessão semanal gratuita. Não sei o que lá
fazem, nem sei se em que medida é eficaz. A única coisa que sei é que a minha
Tita vai sempre muito feliz para as sessões e vem de lá ainda melhor. A sua
incapacidade em comunicar por palavras não me impede de a compreender na
restante linguagem corporal, pelo que é impossível não reparar na alegria que a
vai possuindo, sempre que se aproxima o momento da consulta. É, portanto, para
manter.
Hoje
o sr Sancho, em cuja casa sou mordoma, sai em viagem. Vai passar uma semana à
Barragem de Alqueva, tendo-se vindo despedir de nós pessoalmente (ele é assim,
um querido). Antes disso, quando ainda lhe estava a fazer a mala, a minha
filhota ficou, primeiro, muito fixamente a olhar para ele e depois, com os
olhos virados para o teto, colocou os braços para baixo com as mãos abertas
para a frente, comportamento que, apesar de raro, não lhe é inédito, mas não
sei o que representa.
Pacífico
Fui
incumbido de cobrir a história dos documentos encontrados na Barragem de
Alqueva, o que me satisfez, pois não tenho de me deslocar pessoalmente, já que
temos dois excelentes profissionais e amigos aqui do jornal a viver perto, um
em Moura e o outro em Portel.
Fazendo
um ponto da situação, tudo terá começado com um acidente numa das muitas
viagens recreativas que as empresas de turismo local proporcionam.
Publicitado
como o maior lago artificial da Europa e um dos maiores do mundo, os agentes
turísticos da Barragem de Alqueva não têm mãos a medir com a quantidade de
interessados que, semana após semana, visitam este enorme espelho de água,
ladeado pelas poeticamente tranquilas paisagens do Alentejo. Uma das muitas
atrações é o tour subaquático à Aldeia da Luz, povoação submergida pelas águas
da barragem e reproduzida à superfície.
Foi
justamente num desses percursos subaquáticos que se deu, há cerca de meio ano, o desaparecimento de uma turista japonesa.
Nos
esforços (inúteis) para a encontrar foi descoberto um imprevisto alçapão de
profundidade considerável, em cujo fundo estava uma arca impermeabilizada com 4
papiros incrivelmente bem conservados, já conhecidos na comunicação social como
os Papiros de Alqueva. Técnicas de datação atribuem a estes documentos a idade
de 6000 anos, um milénio e meio anterior ao papiro mais antigo que se conhece,
que é da época do faraó Quéops.
Apesar
da inexplicável localização e da descontextualização histórica, a autoria dos manuscritos de Alqueva é atribuída, ainda que timidamente, aos sumérios da
Mesopotâmia, por ser a única civilização conhecida mais próxima capaz de gerar
pensamentos tão complexos, além do que há aspetos no próprio grafismo da
escrita que nos remetem para a sociedade suméria.
Após
algumas semanas de um trabalho intensivo e meticuloso de tradução, chegam-nos
os primeiros excertos onde a complexidade do tema ainda não nos permite,
claramente, definir todos os seus contornos. Do que se sabe, trata-se de uma
descrição da evolução do ser humano, dividida em 3 partes.
Resumidamente,
na primeira o ser humano tem capacidades inatas (como a telepatia, a clarividência e a telecinesia) que usa de forma inconsciente.
Na
segunda (esta em que estamos) o ser humano substitui capacidades inatas por
outras que sente como necessárias à vida quotidiana e à sua própria evolução.
Numa
terceira, por acontecer, conseguiremos recuperar as capacidades anteriores, que
acumularemos com as que, no entretanto, desenvolvemos.
Carl
No
laboratório onde trabalho, especializado na datação de antiguidades, nos
últimos tempos tivemos toda a equipa reservada para uma tarefa cujos objetos já
andam nas bocas do mundo, os Papiros de Alqueva.
A
sala principal do nosso laboratório de investigação histórica tem uma divisão
pedagógica, em vidro, para que quem nos quiser visitar possa observar o que
fazemos. Somos visitados por celebridades, pessoas ligadas à investigação,
políticos, escolas, organizações de turismo cultural, enfim, no fundo, quem
quiser, desde que haja vagas para o fazer. Devido a esta dinâmica acabamos por
ter sempre a porta aberta ao exterior e o que fazemos é e sempre foi
absolutamente transparente. É uma forma, justa, de conviver com o facto de sermos
financiados por dinheiros públicos.
Quando
comunicámos à nossa estrutura hierárquica as primeiras conclusões, que
atribuíam cerca de 6 mil anos de idade aos documentos que estávamos a
trabalhar, recebemos instruções para, pela primeira vez na já longa história do
nosso laboratório, fechar as portas, não dar entrevistas e até assinar um
documento de confidencialidade.
Nos
dias imediatamente a seguir fomos visitados por vários supostos historiadores
(digo supostos, porque, ainda que nos tivessem sido apresentados como
especialistas, nunca tínhamos ouvido falar deles), que examinaram os papiros em
sala à parte e sem a nossa presença. Foi deles a divisão em 3 conjuntos,
tendo-nos apenas sido revelado um pequeno resumo de cada um, o mesmo que nos
foi autorizado a divulgar na imprensa.
Os
dois primeiros conjuntos ainda ficaram no laboratório para análises de
confirmação, porém levaram o terceiro. Nunca mais o vimos.
Não
pude deixar de reparar na cautela das palavras “oficiais” de descrição dos
conjuntos, principalmente do segundo. Faz referência a um processo, ao longo da
evolução humana, de substituição de competências primordiais, como a
comunicação telepática e a telecinesia, por aquilo a que hoje chamamos
competências básicas, como falar e movimentar objetos.
Porém,
sugerem os papiros, nunca desaparecerão aqueles que, catalogados como
incapacitados por não conseguirem usar o corpo com a urgência que os sucessivos
quotidianos ditarão, serão herdeiros dessa linhagem de saberes sem paralelo,
dessas capacidades ancestrais.
Se
for mesmo o caso de convivermos atualmente com essas pessoas, sendo incapazes
de interagir socialmente nos padrões aceitáveis já que as suas ferramentas de
comunicação se encontram completamente desacreditadas no pensamento
contemporâneo dominante, quase de certeza que passarão despercebidas no meio
dos realmente incapacitados.
Serão
invisíveis aos nossos olhos.
Susete
Entre
as novidades, mais ou menos previsíveis, das comunicações apresentadas no
último “Comunicar sem Limites”, promovido pelo Departamento de Psicologia e
Filosofia da UNP, um momento gerou suficientes ecos para, de alguma forma,
marcar este 10º encontro de especialistas, o meu 2º.
A
senegalesa Binata Ndour, que apresentou a comunicação “Sem sair do lugar”,
começou por nos enquadrar, confirmando através dos procedimentos mais
atualizados, nas incontornáveis incapacidades motoras e linguísticas de um
grupo de pacientes com o qual trabalhou na última década.
O
facto de viverem numa povoação pobre e absolutamente isolada, sem acesso a
qualquer meio de comunicação social, levaria, no mais previsível dos cenários,
a um quadro de completo desfasamento e até desinteresse relativamente aos
acontecimentos mundiais.
Porém,
aqui e ali, Binata foi-se deparando com comportamentos de maior agitação
coletiva, aparentemente sincronizados no seu solitário grupo de pacientes,
notando que sucediam em paralelo com eventos de impacto internacional, na
maioria dos casos demasiado longínquos para que à pequena povoação chegassem
ecos com a celeridade necessária. Se inicialmente pareciam (e nada levaria a
crer que o não fossem) coincidências, os paralelos “comportamento peculiar /
acontecimento internacional” passaram a ser verificados, estudados e
confirmados pela equipa que com ela trabalhou neste estudo.
Na
detalhada descrição dos factos que levariam a estas conclusões, referiu que,
antes destes momentos mais agitados, os seus 9 pacientes, de forma
inesperadamente coletiva, fixavam o olhar no céu e, em silêncio, deixavam cair
os braços com as palmas das mãos viradas para a frente. Chamou a esta posição
Momento de Contacto, pois tudo indicava ser nesse momento que “recebiam”, de
forma clarividente ou telepática, a informação que, momentos depois, os
deixaria visivelmente transtornados.
Em
simultâneo com os Momentos de Contacto, a sua equipa foi testemunhando
demasiados indícios, como o desaparecimento de pequenos objetos e o seu
reaparecimento noutros locais, para crer que poderá também existir um potencial
telecinético a ser aprofundado.
Serão,
portanto, as interferências mentais dos seus pacientes no mundo físico o novo
patamar de estudos de Binata que, tendo-se comprometido a apresentar conclusões
num período máximo de 3 anos, foi, sem dúvida, a estrela deste 10º “Comunicar
sem Limites”, ofuscando os demais trabalhos que, perante tal assombro e com
todo o respeito pela sua igual seriedade, foram tematicamente remetidos para o
campo das trivialidades.
Sancho
Não
me sai da cabeça aquela imagem do recente resgate dos 6 meninos colombianos que
caíram num poço. O facto de lá terem ficado tanto tempo, em estado de quase
imobilidade dada a escassez de espaço, transformou a expressão dos seus olhares
num evento comunicativo de uma intensidade que já me tinha esquecido que era
possível.
Um
facto, aparentemente inconsequente e irrelevante despertou-me a atenção. Nos
registos do primeiro metro do poço, onde a luz natural ainda exerce o seu
papel, havia várias ranhuras rasgadas na parede, que pareciam marcas de unhas,
dedos, mãos.
Numa
rápida pesquisa de fotos recentes do local, mas anteriores ao desaparecimento
das crianças, reparei que essas mesmas marcas não existiam no mesmo ângulo do
poço, pelo que, por uma lógica arrumadinha, teriam sido feitas aquando da queda
dos meninos, talvez numa tentativa de alguns ou todos se agarrarem a qualquer
coisa nas suas lisas e escorregadias paredes.
Porém,
houve outro detalhe que se me fixou na memória, que foram as primeiras 3 fotos
das crianças encontradas. Em todas elas, em 4 dos 6 meninos, o alvo do olhar
não era, como seria de esperar, a boca do poço, onde se encontravam os
bombeiros que os descobriram, onde se encontrava a derradeira salvação
desejada, mas a parede do poço, na zona onde as referidas marcas se
encontravam. As suas expressões faciais eram, até, diferentes das dos outros 2,
mais concentradas e estáticas.
Porque
estariam os olhos daqueles 4 fixados naquela nesga esgravatada da parede do
poço?
Fiquei
intrigadíssimo e resolvi aprofundar, tendo conseguido aceder a vídeos feitos
aquando da descoberta dos jovens. Para meu espanto e avolumar desta misteriosa
peculiaridade, no mesmíssimo local da parede do poço, para onde os olhos desses
4 se concentravam, erguiam-se, no preciso momento desses olhares, pequenas
nuvens de pó, como se uma estranha e invisível força a escavasse, a
desgastasse, a arranhasse.
A
natureza, afinal, ainda não desistiu de nós, apesar de o contrário parecer ser
a ordem do dia. Ao que parece, a capacidade de substituição compensatória ainda
reside nos nossos genes e não é só nos conhecidos casos, por exemplo, de
cegueira definitiva, em que os outros sentidos se exponenciam, mas também em
momentos, como este, de extrema e urgente readaptação à vida.
O
olhar daquelas crianças parecia concentrar tudo o que nelas existia de mais
poderoso na derradeira função da vida, a sobrevivência.
Genoveva
Hoje
o meu patrão, o sr Sancho, apareceu na televisão e soube, então, a razão da sua
viagem à Barragem de Alqueva, mais propriamente à Aldeia da Luz. Ao que parece,
a mudança de localização da aldeia terá provocado alguns traumas em pessoas
mais frágeis e uma equipa de apoio dirigiu-se, novamente, ao local para tentar
inverter o mal-estar. Desta vez foram vários elementos da área da saúde (entre os quais o meu
patrão e a sua equipa).
Na
reportagem foi também entrevistada Mahara Dutta, uma especialista indiana que,
por se encontrar na Europa acidentalmente, fora convidada para integrar a
equipa criada para compreender e gerir o fenómeno… mas que fenómeno?
Mahara
Dutta é uma historiadora que se especializou nas tradições femininas, tendo
recentemente publicado um estudo (e por isso se encontra na Europa) sobre o
bindi, intitulado “O terceiro olho”. O bindi é um sinal da tradição feminina
hindu, pintado um pouco acima do meio das sobrancelhas, que representa Parvati,
a mãe-deusa e terá um efeito protetor.
Foi
durante o império otomano que o bindi (do sânscrito “bindu”, que quer dizer
“ponto”) foi levado para fora do mundo do hinduísmo pelas odaliscas (concubinas
ou esposas) do sultão. Acreditando que esta marca as beneficiaria, acabaram por
desenvolver, no e com o bindi, um nível inesperado de interação com o mundo,
pois enquanto aprofundavam a sua validade na sedução, desenvolviam capacidades
clarividentes, conseguindo relatar acontecimentos simultâneos e distantes.
Acontece
que alguns dos habitantes transferidos para a nova Aldeia da Luz estão a viver
algo mais do que complexas e desconexas formas de se estar deprimido.
Chamou
a atenção dos especialistas o facto de várias pessoas terem sentido um ímpeto
incontornável de proteger a parede de uma das novas habitações, na aldeia onde
agora habitam, sem que houvesse forma de saberem que, nesse preciso momento, a
mesma parede dessa mesma habitação, mas na submersa e original aldeia
decalcada, desabava.
Carl
Apesar
dos meandros filosóficos e algo suspeitos na forma como tem sido conduzido todo
este processo dos Papiros de Alqueva, ângulos que, verdadeiramente, me
desinteressam, o que me fascina é o alfabeto encontrado, que poderá acrescentar
conteúdo à biografia do mundo.
A
decisão de atribuir os textos aos sumérios não é consensual e ainda me parece um pouco
precipitada, pelo desfasamento geográfico. A confirmar-se a suspeita de que sejam mesmo originários desta remota zona do Alentejo, parecem-me mais vestígios de uma
civilização que lhes poderá ter sido contemporânea ou anterior, que lhes poderá
ter deixado legados, como a escrita.
A
complexa estrutura gráfica da escrita dos Papiros, não permitindo considerá-la uma
protoescrita, parece encaixar no perfil procurado para os chamados hieróglifos
sumérios (menos complexos do que os egípcios), que terão dado origem à escrita
cuneiforme, que tanto simboliza esta civilização.
A
confirmar-se, implicará, no repensar da História, a descoberta de uma outra
possibilidade civilizacional, distante da realidade suméria, que
acrescentará a esta época uma salutar cultura de contactos
entre sociedades, confirmando um dinamismo alimentado pela
troca valiosa de informação. É, portanto, grande o entusiasmo geral por esta
descoberta, que um comentador definiu como "prova de um isolado período de
iluminismo ancestral".
Implicará
também o fim da demanda pela escrita pré-cuneiforme, paixão de muitos
historiadores, grafologistas e criativos da linguagem, como Marck Okrand que,
na década de 1980, inventou a língua, oral e escrita, dos Klingons, para a
série Star-Trek, numa tentativa, comum a muitos artistas da ficção científica,
de criar contextos credíveis a criaturas e ou sociedades alienígenas.
“Inspirei-me nesta indefinição pré-cuneiforme para a cultura Kingon.”,
assumiria numa entrevista.
A
nitidez dos traços da escrita dos Papiros permite até isolar elementos em
alfabeto e, tendo em conta o que já se sabe da escrita cuneiforme, identificar
curiosidades (como a ausência de plural e de género) e tirar ilações
filosóficas.
Se,
por um lado, os papiros desiludiram os que procuravam indícios civilizacionais
diretos, como nomes, datas, locais e acontecimentos, por outro, apontam para a
existência de uma sociedade diferente da que seria expectável. A complexidade e
sabedoria reveladas na descrição destes 3 momentos da evolução humana denotam,
não um passo anterior na nossa biografia enquanto pessoa-individual e enquanto
pessoa-social, mas um patamar de lucidez do qual, de alguma forma, até parece
que regredimos.
Sancho
Hoje
foi o meu primeiro dia na Aldeia da Luz. Fomos recebidos pelo representante do
poder local, que nos encaminhou para as estruturas de apoio, nomeadamente
alojamento e escritórios.
Após
uns revitalizantes aperitivos tivemos logo a primeira reunião com os
profissionais do terreno. Eu e a minha equipa fomos destacados para
intervir junto de um grupo de oito jovens com algumas incapacidades cognitivas
e motoras, agora com vinte e poucos anos, nascidos aquando da transição da
aldeia submersa para a nova. Ainda que alguma consanguinidade possa ser
considerada, os traumas causados pela mudança de local são apontados como a
causa principal para os seus, semelhantes, quadros clínicos.
Ainda
antes do almoço, a Susete, minha assistente, ficou no escritório a tratar de
documentação e eu fui conhecer os jovens luzenses.
Aqui
houve dois momentos, um na presença dos funcionários que me acompanharam ao
local e me apresentaram ao grupo, outro só comigo e com eles. Se no primeiro
eles me observaram atentamente, mas o seu comportamento era calmo; no segundo e
apesar de nunca me ter sentido ameaçado, aproximaram-se de mim, mais enérgicos,
cercando-me com os braços e produzindo sons que eu senti como uma necessidade,
desesperada, de me contar alguma coisa. Da cumplicidade dos olhares que
trocavam fiquei com a sensação de que, de alguma forma, a minha visita era
esperada.
Perante
tal constatação, pedi para, logo a seguir ao almoço, fazer uma sessão com eles,
mas só comigo, sem mais presenças (nem a minha assistente). Quando nos
reencontrámos, um deles (o Jonas) fixou o olhar no meu e, como se me puxasse,
conduziu-me até uma zona específica da sala, onde a única menina do grupo, a
Crinita, escrevia no chão com pauzinhos uma espécie de código, complexo e, para
mim, ilegível, enquanto os restantes, com os olhos fixos no teto, deixavam cair
os braços com as palmas das mãos viradas para a frente.
Incontornável
e desconcertante foi a mudança de paradigma comportamental dos jovens quando
ficámos a sós, já que a leveza elegante dos seus movimentos não era, de todo, a
de pessoas com dificuldades motoras.
Quando
me preparava para dar alguma atenção aos escritos da Crinita, ouviu-se um
barulho no exterior e, sem que tivesse sequer oportunidade de pensar em
fotografá-los, um deles pegou numa vassoura e rapidamente eliminou o tão
minucioso código.
Susete
Há
cerca de 20 anos conheci a indiana Mahara Dutta aquando de uma visita que
fizera a Portugal, para visitar locais referidos por Fernando Pessoa como
“potenciais ocultos”. Fui eu que lhe fiz a visita guiada, já que também sempre
me interessei pelo efeito do ocultismo no imaginário popular e,
consequentemente, nas hierarquias do quotidiano. Desde então que temos sempre mantido
contacto e tenho acompanhado as suas investigações, nos 8 livros que já
publicou, sobre aquilo a que ela chama os “3 poderes primordiais”, a telepatia,
a clarividência e a telecinesia.
Há
aproximadamente um mês ligou-me para saber da minha disponibilidade em
acompanhá-la à Barragem de Alqueva, pois tinha feito alguns cálculos
astrais e sentia que para aquela zona, com picos cada vez mais intensos, convergiam energias e intenções
ancestrais. Havia, certamente, algo de inspirador a acontecer por lá.
Na
passada semana encontrei o Sancho, meu colega de curso e líder de uma equipa de
intervenção, e falei-lhe da conversa que tivera com a Mahara. Revelou-me que
afinal também sentia uma grande admiração pelo trabalho dela, ao ponto de me
convidar a integrar a sua equipa e, assim, levá-la comigo. Combinámos até ir
juntos assistir ao lançamento do seu último trabalho, razão que a trazia a
terras lusitanas.
Tanto
eu como ele conhecemos a Mahara desde a sua primeira publicação, “Arma
Sobrenatural”, a biografia da russa Ninel Kulagina, do séc XX, conhecida como
Nina, cujo poder telecinético chegou a amedrontar os EUA durante a guerra fria,
por temerem que o seu dom pudesse ser usado pela URSS na alteração da
trajetória de mísseis americanos. A criteriosa seleção que faz dos episódios da
vida de Nina a incluir no livro e a forma como os narra influenciaram toda uma
geração de escritores assertivos, sendo reconhecida, surpreendentemente, até
por grandes nomes do mundo científico, como Stephen Hawking, que chegou a
escrever um dos seus prefácios.
Já na Luz, na
noite do primeiro dia, em reunião informal, o Sancho contou-nos o que lhe tinha
ocorrido durante a tarde com os jovens luzenses e a razão pela qual preferiu ir
sozinho. Após o seu relato a minha amiga Mahara lembrou-se dos recentemente descobertos
Papiros de Alqueva, escritos há 6 milénios, num código perdido e desconhecido
até agora.
Vimos
então as fotografias que há na internet dos papiros e ele até tremeu quando nos
disse, a gaguejar, que era exatamente o mesmo grafismo daquele que a miúda do grupo
escrevera no chão.
Sancho
Cheguei
a casa.
A
Genoveva não apareceu à hora habitual, o que é raríssimo. Fiquei preocupado e
liguei-lhe. Não atendeu.
A
Genoveva é 15 anos mais velha que eu. Tem uma filha, a Tita, e é casada com o
Carlos, um excelente sapateiro. Liguei ao Carlos, mas ele saíra de casa bem
cedo e não sabia de nada.
A
dada altura, entra-me a Genoveva pela porta adentro, nervosa e suada, a
pedir-me mil perdões pelo inusitado atraso. A filha não estava em casa e ela
não a conseguia encontrar. Que ainda a vira de manhã, mas que lhe desaparecera
antes sequer de tomar o pequeno-almoço.
Ofereci-me
imediatamente para ajudar e até à noitinha procurámos a menina, mas em vão.
Já
em casa, depois de comer, deitei-me e quando começava a saborear o parar do
tempo que o fim dos dias proporciona, apercebi-me de uma ladainha que vinha do
exterior.
Fui
averiguar.
Num
cenário completamente alucinado, a Tita, no chão algo arenoso do meu jardim, reproduzia
o código que me fora escrito na Luz, só interrompendo algumas vezes para se
posicionar da mesma forma que aqueles, com os olhos fixos no céu, braços caídos com as palmas das mãos viradas para a frente.
Os
seus olhos colaram-se então a mim com tal intensidade que me paralisaram a vontade,
a minha respiração começou a abrandar e o som do seu cantarolar irregular
adormeceu-me o cérebro, deixando-me num torpor hipnótico.
A
força absorvente e surpreendente que, naquele momento, me envolveu, não era da
sempre frágil filha da Genoveva, mas de uma entidade incapaz de se contentar
com um corpo fixo, expandindo os seus contornos e, num assombro de luz,
levitando à minha frente.
Não conseguindo resistir, fui levado pela mão daquela incompreensível corrente luminosa quando, de repente, os meus pés também se levantaram do chão.
Emocionado
com a imagem absorvente da Tita a expandir-se no vazio, fui possuído por uma
vertigem de pensamentos sucessivos e ininterruptos que semearam em mim prazeres
e saberes de vidas vividas e por viver.
Os
meus pés voltaram, então, à terra firme. Fechei os olhos e, no silêncio
apaziguador que se seguiu, percebi que aprendera a antiga
linguagem e os saberes de uma remota forma de existir, um momento psicadélico na história da
humanidade que agora reivindica em mim a crença de que, nas suas mais
incalculáveis extensões, sabedoria e tranquilidade são sinónimos.
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